Entrevista | Igor Lopes

Entrevista: Embaixador da Suíça em Portugal revela que empresários suíços procuram cada vez mais o mercado português de startups

André Georges Regli é o atual embaixador da Suíça em Portugal, após ter assumido funções em outubro de 2017. Natural de Andermatt, no cantão de Uri, que fica nos Alpes suíços, este diplomara reconhece a importância da comunidade portuguesa no seio da sociedade suíça.

 

“Os portugueses na Suíça estão muito bem integrados e contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento social e económico da Suíça”, garante Regli, que atesta que “cada vez mais empresários, especialmente suíços, estão a ser atraídos pelas vantagens do sistema português e estão a investir” no mercado “promissor” das “startups”.

 

Em entrevista André Georges Regli revelou que Lisboa é o seu último posto de embaixador, uma vez que segue para a reforma já em outubro deste ano. Este responsável mencionou também os aspetos que envolvem as relações diplomáticas entre os dois países, ressaltou as linhas comerciais e políticas que unem Portugal e Suíça, comentou sobre a vida dos portugueses no seu país, falou sobre o que atrai os suíços para viverem em terras lusas e revelou como a Embaixada do seu país em Portugal está a auxiliar suíços, portugueses e luso-suíços neste momento de pandemia.

 

Quantos cidadãos suíços vivem hoje em Portugal?

 

Atualmente, 4.903 pessoas estão registadas nos nossos registos como suíços e suíças residentes em Portugal.

 

De que região são maioritariamente?

 

Infelizmente, não nos é possível identificar as regiões de origem das pessoas inscritas nos nossos registos. Podemos, no entanto, afirmar que 55% são francófonos, 35% são de língua alemã e 2% são de língua italiana.

 

O que faz com que esses cidadãos decidam viver em Portugal?

 

Antes de mais, as condições de vida são obviamente excelentes em Portugal e atraem muitos dos meus compatriotas: o sol, o oceano, o acolhimento e a simpatia dos portugueses. A vida aqui é agradável e o custo de vida é inferior ao de outras capitais europeias. Outra faceta atrativa de Portugal é o terreno fértil que é para as startups. Cada vez mais empresários, especialmente suíços, estão a ser atraídos pelas vantagens do sistema português e estão a investir neste promissor mercado. Finalmente, muitos portugueses naturalizados suíços estão a regressar às suas origens onde querem passar a sua reforma.

 

Que tipo de trabalho realiza a vossa Embaixada com esses cidadãos?

 

Desde a minha chegada, tenho tentado manter uma relação próxima com os nossos concidadãos. Para além de lhes oferecer um serviço consular de qualidade através do Consulado reaberto no verão de 2020, organizo eventos esporádicos para os conhecer. Por exemplo, passámos a convidar, todos os anos, as pessoas que atingem a maioridade para celebrarmos juntos esta nova etapa da vida. Além disto, no ano passado, por ocasião da reabertura do Consulado, organizei um concurso. Os vencedores serão convidados, quando a situação o permitir, a visitar as instalações da Embaixada e a encontrar-se comigo e com os meus colegas numa receção. O contato com os meus compatriotas é, portanto, uma parte essencial do meu trabalho. Além disto, quando há problemas com turistas suíços, o meu papel é dar o meu melhor para desbloquear a situação. Por exemplo, no ano passado, no início da pandemia, quando um cruzeiro da companhia suíça MSC atracou em Lisboa com, entre outros, 30 passageiros suíços, intervim para garantir que pudessem ser repatriados para a Suíça o mais rapidamente possível.

 

Como enxerga a relação entre a comunidade suíça e a portuguesa?

 

Dado os nossos estreitos intercâmbios, conhecemo-nos bem uns aos outros. Pela minha experiência pessoal, assim como pelo que vejo nas discussões com os meus concidadãos, os suíços e os portugueses têm muito em comum. A discrição e a humildade são, em termos gerais, as características que aproximam as nossas duas comunidades. Não é, portanto, surpreendente que se integrem tão facilmente, uns na Suíça e os outros em Portugal.

 

Como avalia a ligação diplomática entre Portugal e Suíça?

 

As relações diplomáticas entre os nossos dois países são excelentes. Somos ambos pequenos países do continente europeu e partilhamos os mesmos valores. Em 2019, celebrámos 100 anos de relações diplomáticas! As reuniões bilaterais de alto nível têm lugar regularmente. A mais recente foi uma videoconferência entre os nossos dois ministros das Finanças. No final de 2020, a então presidente da Confederação, Simonetta Sommaruga, pôde também manter conversações à distância com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Primeiro-Ministro António Costa. Os nossos intercâmbios económicos e culturais também são fortes.

 

Em termos de continente europeu, de que forma classifica a interação entre Portugal e a Suíça?

 

Portugal e a Suíça têm semelhanças, mas, também, diferenças significativas no continente. Ambos os países são pequenos na comparação europeia e têm uma população semelhante. No entanto, enquanto Portugal aderiu à UE em 1986, a Suíça escolheu a rota bilateral. Além disso, Portugal está aberto ao oceano, enquanto que a Suíça é um país sem litoral.

 

A Suíça é conhecida por ser escolhida como país de acolhimento para muitos portugueses que decidem viver novos rumos nas suas vidas pessoal, profissional e financeira. Qual é a importância da comunidade portuguesa para a Suíça?

 

As relações entre a Suíça e Portugal são de facto relações entre seres humanos. As melhores testemunhas destas relações são os cerca de 260 mil portugueses residentes na Suíça. Quase todos os suíços conhecem ou têm contato com pelo menos um português ou uma portuguesa ou com alguma pessoa oriunda de Portugal. Os portugueses na Suíça estão muito bem integrados e contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento social e económico da Suíça.

 

A pandemia e o consequente controlo sanitário das fronteiras aéreas entre Portugal e Suíça promovem de alguma forma dificuldades diplomáticas entre os dois países?

 

Pelo contrário, diria que a pandemia reforçou as nossas relações bilaterais. A pandemia não conhece fronteiras, pelo que a cooperação entre diferentes países é mais necessária do que nunca. No que diz respeito às medidas de controlo sanitário nas fronteiras, a Suíça tem sido sempre transparente com Portugal. Por exemplo, a primeira vez que Portugal foi colocado na lista de países de risco da Suíça, informei pessoal e diretamente o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, que compreendeu plenamente os critérios suíços para tal decisão. Além disso, quando Portugal se viu numa situação complicada em janeiro, a Suíça ofereceu apoio logístico a Portugal. Por último, mas não menos importante, a companhia aérea Swiss nunca deixou de voar para Portugal, mesmo no início da pandemia, quando tinha suspendido os voos para a maioria dos seus destinos regulares.

 

Como andam as relações comerciais entre a Suíça e Portugal?

 

As trocas comerciais entre a Suíça e Portugal estão desde há muito bastante equilibradas, embora nos últimos seis anos o saldo tenha sido por cinco vezes positivo para Portugal. Nomeadamente em 2020, mesmo que Portugal tenha exportado menos 100 milhões de euros para a Suíça do que no ano anterior, sempre exportou mais 55 milhões de euros do que a Suíça exportou para Portugal. Em termos absolutos, as trocas comerciais entre os dois países, que de 2015 a 2019 têm vindo a aumentar constantemente, rondam de cada lado os mil milhões de euros. Portugal exporta principalmente veículos, têxteis e calçado e produtos agrícolas para a Suíça e importa produtos da indústria química-farmacêutica, relógios e instrumentos de precisão, bem como máquinas e eletrónica.

 

A pandemia impactou essa movimentação comercial?

 

Como no mundo inteiro, a pandemia também afetou negativamente as relações comerciais entre os dois países e as economias de cada um. As exportações de Portugal para a Suíça diminuíram em 2020 em 8,7% relativamente ao ano anterior e as exportações suíças para Portugal ficaram em 12,6% abaixo das de 2019. Também os investimentos diretos (fluxos) nas economias dos respetivos parceiros desaceleraram nitidamente em comparação com 2019.

 

Em que domínio acontecem as maiores trocas culturais entre os dois países?

 

Todos os anos, são vários os eventos culturais suíços organizados em Portugal, como filmes, concertos e peças de teatro, mas também a edição, em português, de livros de autores suíços. Existem muitas colaborações entre artistas suíços e artistas portugueses, nomeadamente na música. Nessa área, vários maestros suíços trabalharam em Portugal nos últimos anos como Baldur Brönnimann e Stefan Blunier na Casa da Música no Porto ou Michel Corboz e Lorenzo Viotti na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

 

Hoje, cidadãos portugueses que queiram sair da Suíça para virem a Portugal e retornar ao vosso país encontram restrições? Se sim, quais?

 

No que diz respeito ao regresso dos residentes portugueses à Suíça, estes têm simplesmente de respeitar as medidas sanitárias em vigor para a entrada na Suíça. As medidas atualmente em vigor são a realização de um teste e uma quarentena de dez dias à chegada à Suíça. No entanto, as regras mudam à medida que a pandemia evolui e que existem exceções. A Embaixada está a monitorizar ativamente esta situação e a fornecer informações no seu site, por telefone e por e-mail.

 

Há cidadãos suíços a passarem por essa dificuldade em Portugal?

 

Não tenho conhecimento de quaisquer dificuldades particulares. No entanto, gostaria de aproveitar esta oportunidade para salientar que o Conselho Federal continua a desaconselhar as viagens não urgentes ao estrangeiro.

 

Como está o funcionamento da Embaixada da Suíça em Portugal neste momento?

 

O Consulado continua a funcionar em pleno, embora o balcão esteja aberto apenas por marcação, sendo obrigatória a utilização de uma máscara. De facto, muitos suíços aproveitaram a reabertura do Consulado para se inscreverem no registo dos suíços no estrangeiro, renovarem os seus passaportes, resolverem os seus assuntos administrativos, etc. Do ponto de vista político, a Embaixada está a acompanhar de perto os desenvolvimentos da Presidência Portuguesa do Conselho da UE. Também fazemos démarches (iniciativas ou providências) junto das autoridades portuguesas e mantemos uma relação estreita, apesar do contexto pandémico. No entanto, a pandemia mudou obviamente a nossa forma de trabalhar, uma vez que agora é impossível encontrar presencialmente os nossos interlocutores, o que limita as atividades típicas de uma Embaixada.

 

Por fim, que mensagem deixa o Senhor Embaixador para a comunidade luso-suíça?

 

Lisboa é o meu último posto de Embaixador. Vou reformar-me em outubro. Terminar a minha carreira diplomática num país como Portugal é uma honra. Aqui, como em cada um dos meus postos anteriores, conheço pessoas extraordinários e lugares maravilhosos. Só posso esperar que o meu trabalho tenha contribuído para reforçar os laços humanos, económicos, políticos e mesmo culturais entre os nossos dois países. Por conseguinte, encorajo a comunidade luso-suíça a continuar as suas trocas, com a curiosidade e a abertura de espírito que tanto a caracteriza.

 

Ígor Lopes

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