Entrevista

Entrevista psicólogo Jorge Silvério: “Os atletas profissionais têm a tenacidade para ultrapassar as adversidades”

“Há aqui uma grande vantagem que eles têm em relação aos não-atletas, que é esta capacidade a que dou o nome de tenacidade conceito que tenho vindo a estudar e desenvolver, que é, no fundo, a capacidade de ultrapassar situações difíceis. E os atletas têm isso, porque ao longo da sua vida, independentemente de estarem num patamar mais alto ou mais baixo, se já estão a terminar a carreira ou a iniciá-la, a verdade é que já se confrontaram com muitas adversidades”.

 

Por Ana Gonçalves

 

Jorge Silvério, psicólogo de Desporto há quase 30 anos, traça um retrato dos desportistas de elite portugueses, que por esta altura se prepararam para os Jogos olímpicos, o maior evento desportivo dos tempos modernos, adiados para 2021. Seis meses volvidos após o confinamento despoletado pelo novo coronavírus, os atletas olímpicos viram-se encerrados em casa, como quase toda a gente, sem poderem voltar às competições e, acima de tudo, sem poderem participar nos Jogos, “o sonho de uma vida”. Mas, atendendo a todas as contrariedades, Jorge Silvério reconhece a importância da prática desportiva no momento de enfrentar as adversidades, pois a carreira de um atleta de alta competição é feita de tantos sacrifícios e dificuldades que há quase sempre a capacidade de dar a volta por cima –  aquilo a que chama “tenacidade”.

Considera-se um otimista por natureza e nem hesita em afirmar que Portugal e a grande maioria das organizações desportivas têm feito um trabalho valoroso em relação à melhora de infra-estruturas e valorização do desporto, contudo ainda há um longo caminho a percorrer pois faltam equipas multidisciplinares que acompanhem os atletas e falta valorizar o papel do psicólogo junto dessas equipas, até porque os valores que a prática desportiva transmite não têm preço.

 

 

Até que ponto é que esta paragem forçada pode afetar realmente a vida de um atleta de alta competição, que funciona quase como um relógio suíço?

Baseado na experiência dos atletas olímpicos com quem trabalho é evidente que isto foi, eu diria, um retrocesso. Ainda por cima quando se fala de um evento que acontece de 4 em 4 anos, como é o caso dos Jogos. A expectativa que se vai criando, os sacrifícios que se vão fazendo… depois quando há este adiar, é óbvio que se sente ali um impacto extremamente importante. Há atletas que estão, por exemplo, a estudar, ainda na Universidade ou a trabalhar e programam a sua vida em função dos jogos. Normalmente, muitos atletas no ano dos Jogos, aquele em que é preciso investir mais, até porque muitas vezes ainda estão a lutar pelas qualificações, acabam por deixar o resto da vida em Stand by, nomeadamente, a vida académica, a vida profissional, a vida pessoal se estão a fazer planos para engravidar, se forem atletas femininas, os masculinos que queiram ser pais… há aqui todo um conjunto de actividades diárias da vida que acabam por ser afectadas, até porque os atletas põem sempre a área desportiva, digamos assim, em primeiro lugar.

Dito isto, o que acontece é que há aqui uma grande vantagem que eles têm em relação aos não-atletas, que é esta capacidade a que dou o nome de tenacidade, conceito que tenho vindo a estudar e desenvolver que é, no fundo, a capacidade de ultrapassar situações difíceis. E os atletas têm isso, porque ao longo da vida deles, independentemente de estarem num patamar mais alto, ou mais baixo, se já estão a terminar a carreira ou a iniciá-la, a verdade é que já se confrontaram com muitas adversidades. No fundo, esta é mais uma adversidade, é o adiar de um ano, mas os Jogos são um sonho e um objectivo tão grande que, seguramente, vão conseguir dar a volta, usando essa tenacidade e conseguirão projectar o próximo ano, como mais um ano de esforço e investimento.

 

É preciso que os índices de motivação estejam sempre nos píncaros?

Essa motivação é importante. Eu diria que, na nossa vida, independentemente do que fazemos, essa motivação tem de estar sempre lá e nos atletas ainda mais. Essa metáfora que estava a utilizar do relógio suíço, parece-me muito feliz, porque é mesmo isso. Para conseguir atingir o sucesso é preciso que os ponteiros fiquem bem alinhados naquela altura e nem todos conseguem isso, caso contrário seriam todos atletas olímpicos.

 

Eventualmente participar nos Jogos já por si seria uma vitória, mas a maioria dos atletas não põe de lado a ideia de vencer. É uma mudança que se nota no perfil dos novos atletas portugueses?

Essa é uma grande mudança que se tem vindo a verificar. Para muitos atletas, até há alguns anos, de facto, o ir aos Jogos, e não há como negar, são poucos aqueles que conseguem lá chegar, era já uma vitória. Agora, essa ambição, essa vontade de querer mais caracteriza os excelentes atletas portugueses que temos. E Portugal tem muitos, felizmente.

 

Há também os casos de atletas que nasceram noutros países, mas representam Portugal e nunca sequer equacionaram representar outro país. Essa é uma situação comum? Não importa mesmo o sítio onde se nasceu?

A questão dos países e das nacionalidades, com a globalização, veio alterar-se um pouco. Um país já não é só aquele onde a pessoa nasce, mas também aquele onde se consegue constituir uma vida, onde se tem apoios para construir uma carreira, portanto, é absolutamente normal que os atletas também partilhem desse sentimento. Portugal acaba por ser o país escolhido, porque foi aquele onde desenvolveram a sua carreira, que lhes permitiu chegar onde chegaram.

 

Outro fator importante prende-se com a família. É preciso um grande envolvimento de todos nesta trajectória olímpica?

Esse é um ângulo interessante, a questão familiar. Lá está, tudo isto que o atleta tem de fazer, o tal relógio suíço, depende muito da estrutura familiar. Há o sacrifício de ter de levantar cedo, ir levar os atletas aos treinos, ir buscá-los, muitas vezes, o pagamento das competições, das viagens, dos hotéis. Há aqui toda uma logística que se a família não estiver disposta a fazer esse investimento, os atletas podem ficar pelo caminho. Para além, obviamente, do apoio extremamente importante da família. Mas essa logística é um fator decisivo e muitas vezes não se fala disso.

 

Não sabemos nada do que irá acontecer amanhã e os Jogos, que são uma grande festa, irão realmente acontecer nos moldes a que estávamos habituados? E se isso não acontecer, pode ser muito frustrante, sofrer tanto sem que os retornos financeiros sejam assim tão grandes, comparativamente, por exemplo, com o mundo do futebol…

Monetariamente esse retorno não é assim tão grande, mas há outras fatores que não têm preço, como o reconhecimento, o atingir o sucesso, a aprendizagem, há aqui um conjunto de valores que a vida desportiva transmite, que depois podem ser redirecionados para outras etapas da vida, que não são quantificáveis, não conseguimos quantificar esse conjunto de valores.

Em relação aos Jogos, eu penso que estes se irão realizar, até porque os atletas estão com muita vontade de competir, para a grande maioria deles – claro, que houve alguns casos em que foi um choque -, vai haver ainda uma vontade maior de lá estarem e de darem o máximo.

 

É possível para qualquer um de nós poder  vir a ser um atleta de alto rendimento ou tem de ter certas características que não estão ao alcance de todos?

Claramente é necessário ter certas características. Eu diria que há quatro componentes que são importantes para o rendimento desportivo; a técnica, a táctica, a física e a psicológica. Nem todos os seres humanos têm essas características que depois levam ao sucesso, porque não basta, por exemplo, ser uma pessoa muito confiante, falando do ponto de vista psicológico, se não houver empenho, trabalho e muito treino não conseguirá lá chegar… os factores físicos, por outro lado, também são muito importantes para a prática de determinadas modalidades, os aspectos técnicos e tácticos… portanto, não é fácil conseguir a conjugação de tudo isto e, por isso mesmo, não está ao alcance de todos.

 

Mas pode ajudar, se a prática desportiva for iniciada numa idade precoce? Em Portugal ainda se pratica pouco desporto, por vezes devido à falta de infra-estruturas?

Ao nível de infra-estruturas, nos últimos anos foi dado um imenso salto nesse sentido. Claro, que não temos mesas de ténis suficientes para toda a gente jogar, porque provavelmente não é um desporto que culturalmente seja muito valorizado no nosso país, como outros. Agora, é evidente que quanto mais jovem um atleta começar a trabalhar, melhor.

Aí sim, pode falar-se de uma lacuna, porque todos os jovens deveriam poder escolher a prática de um desporto e depois de experimentarem alguns ficarem mais dedicados a um. Não quer dizer que todos eles almejassem ser atletas olímpicos, mas até do ponto de vista da educação desportiva, dos valores que estávamos a falar há pouco, da tenacidade, do espírito de sacrifício, do respeito pelos outros, pelas regras, isso, mesmo para aqueles que não chegassem a um grande nível desportivo, seria importante, porque depois eles vão ser membros ativos de uma sociedade em que esses valores vão ser importantes.

Às vezes esquecemo-nos que o desporto tem este papel, numa altura em que toda a gente fala de uma crise de valores, o desporto é extremamente importante nesse sentido.

 

Alguns atletas disseram que no fim da carreira desportiva, não querem de modo nenhum voltar à atividade que praticavam e preparam-se para outras profissões, outras vias. É normal este tipo de discurso?

É normal. Durante algum tempo há esse afastamento nalguns casos. Por exemplo, na natação, são tantos dias, tantas horas a ver uma piscina que depois quando se decide terminar a carreira, durante algum tempo há esse afastamento, claro. Não quer isso dizer que seja para sempre, mas o atleta pensa, “ok, eu agora vou aproveitar e fazer tudo o que não pude fazer, porque andei a fazer estes sacrifícios todos”, há aquele momento em que se pensa, se eu já atingi os meus objectivos todos aqui, vou dedicar-me a outra coisa.

Há também casos de atletas que sentem uma saturação precoce, que investem de tal forma e, por vezes, não conseguem ter os resultados que almejam, que acabam por deixar a carreira a meio. Lá está, daí a importância dos psicólogos. Às vezes esquecemo-nos dos factores psicológicos, que são essenciais para obter um rendimento desportivo de excelência.

 

Atualmente, todos os atletas olímpicos portugueses têm apoio de uma equipa de psicólogos? 

Não, ainda não… já houve um grande avanço, mas ainda estamos longe de conseguir isso. É ainda uma minoria de atletas que recorrem a alguém habilitado e com competência a poder ajudá-los nessa área.

 

Muitas vezes, o treinador acaba por ser o psicólogo?

Os treinadores acabam por ser os psicólogos, motoristas, têm de marcar hotéis, têm de fazer quase tudo… mas eles não são as pessoas mais habilitadas para serem psicólogos. Ainda estamos longe do ideal que era ter uma equipa técnica, multidisciplinar, incluindo o psicólogo sob liderança do treinador.

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