Entrevista: “Só fazendo crescer a ciência, é que se vai ver África a avançar”, Teresa Zinga

A Fundação Calouste Gulbenkian tem vindo a apostar no reforço do Ensino da Matemática com iniciativas diferenciadas em vários países de Língua Oficial Portuguesa, especialmente no que diz respeito à envolvência das mulheres no mundo científico e matemático. Teresa Zinga, angolana, natural de Cabinda, apaixonada pelos números desde sempre, foi uma das participantes no Estágio de Doutoramento apoiado pela Gulbenkian na área de Álgebra Computacional. Atualmente, é investigadora no pólo científico da Universidade da Beira Interior- UBI. A ciência, reforça, “é para todos, homens e mulheres” mas é preciso mais apoio e é prioritário  que se criem mais condições para a matemática e para outras áreas do conhecimento.

 

Foi uma das escolhidas para participar no projecto da Gulbenkian, que incentiva novos talentos da matemática nos países PALOP? Como é que surgiu esta oportunidade?

Na altura, tomei conhecimento deste projeto da Gulbenkian, que oferecia estágios de doutoramento, quando estava na Universidade 11 de Novembro, em Cabinda. Pesquisei mais sobre a Gulbenkian, percebi que era uma instituição séria e acabei por enviar a minha candidatura. Fui seleccionada e comecei o estágio em Álgebra Computacional, na faculdade de Ciências do Porto, em setembro do ano passado e terminei este ano, em janeiro.

 

É essencial para Angola ter mais profissionais nesta área?

É um processo de extrema importância. Quanto mais crescemos em termos científicos, mais facilitamos o crescimento da nossa economia. Como é uma país que está a renascer, é preciso desenvolver novas políticas de investimento, especialmente no campo da ciência e esta área pode ser adaptada a muitos outros sectores como o financeiro. Embora ainda haja muitas dificuldades no apoio à investigação. 

 

Em Angola há grandes questões no ensino, que estão a ser debatidas, especialmente no que diz respeito à qualidade do ensino nas escolas públicas. O que é que se pode fazer para que os jovens se interessem mais por áreas científicas como a matemática?

Desde sempre que a matemática é vista como um bicho de sete cabeças. Um dos maiores desafios é mostrar o outro lado, dando a entender a todos a importância que a matemática tem, não só como ciência, mas também  como podemos utilizá-la no nosso dia a dia. Desde a contagem do tempo à aritmética simples, usamos matemática para tudo, é algo que nós, querendo ou não, vamos precisar sempre. Para comparar, medir, fazer transformações no mundo que nos rodeia.

 

Já deu aulas em Angola? Notam-se diferenças ao nível da participação feminina nas áreas científicas?

Sim, já dei aulas no secundário e superior. Há algumas diferenças. Hoje há mais pessoas interessadas nas áreas científicas, não só homens como mulheres. Na altura em que eu estudei, numa turma de 55 alunos, éramos apenas 4 alunas, agora o número é bem superior. Ainda há muito trabalho para fazer, é verdade, mas estamos a ir no caminho certo. Em Angola, por exemplo, fazem-se olimpíadas da matemática, workshops, e os jovens já conseguem vislumbrar a presença da matemática na música, em ciências, percebem que se podem divertir utilizando a matemática.

 

Tem em vista algum projecto que faça desenvolver o gosto pela matemática?

Sim, tenho um projeto, que ainda não foi divulgado e que não está só ligado à matemática, pretendíamos puxar também outras áreas do saber. Pretendemos contar com a presença de profissionais, sem ser só professores, em salas de aula e queremos tornar mais firmes os conhecimentos matemáticos. O objectivo será também estender este projeto a todo o país e, quem sabe, para outras partes do mundo. Por outro lado seria também importante acabar com tabus que ainda hoje existem acerca da presença das mulheres na ciência. A ciência é para todos, faz-se com interesse e dedicação. É para quem quiser.

 

Sentiu isso ao longo da sua carreira, esse tabu em relação à sua profissão?

Na instituição onde eu trabalho em Angola, na Universidade 11 de Novembro, somos só duas investigadoras nesta área e não digo que isso aconteça em exclusivo ali, acontece em todo o lado. Sempre que digo o que faço, as pessoas ficam espantadas. Mas porquê? Não sei como é que isso ainda causa admiração. O mundo é movido pela matemática. Eu defino a matemática como ciência do raciocínio, que abre a nossa mente, que nos faz pensar e descodificar o que te rodeia.

 

É importante para um investigador passar pela experiência de estar fora do país?

Sim, claro, é fundamental sair da zona de conforto. Para se fazer ciência não podemos ficar conformados, a ciência é dinâmica, está em constante movimento. Aqui, na UBI, eu vejo tudo de outra perspectiva e o mesmo se passou quando estive no Porto e também tive acesso a outras experiências. É fundamental sair da nossa zona de conforto.

 

Quais são os principais entraves ao trabalho dos investigadores actualmente, especialmente no que diz respeito à livre circulação?

É muito difícil. Na Europa há o espaço Schengen e as pessoas podem movimentar-se à vontade. Não há grandes dificuldades em realizar seminários ou workshops, já para nós esse processo não é tão acessível, tem de haver um estatuto especial para a investigação e um maior estímulo dado a estas áreas. Agora o desafio é fazer com que se invista mais na investigação e é isso que nos faz querer avançar e continuar a publicar artigos, mas para publicar é preciso mais apoio. Nós, por exemplo, em Angola não temos um espaço só para trabalharmos em investigação. É preciso mais condições. Só fazendo crescer a ciência é que se vai ver África avançar. O mundo é movido pela matemática, daí que se for dado espaço às áreas de investigação científicas, isso também vai trazer benefícios a outras áreas como a física, música, biologia, artes. Eu acredito que já existam vários projectos em curso, mas é preciso haver condições para que se desenvolvam.

 

por Ana Gonçalves

 

One Comment

  1. Domingos Sumbo

    Realmente temos de dinamizar mais no campo da matematica.
    Teresa, parabens pela excelente entrevista.2

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.




Artigos relacionados

Banco de Moçambique cancela registo de 15 operadores de microcrédito

Banco de Moçambique cancela registo de 15 operadores de microcrédito

O Banco de Moçambique decidiu cancelar o registo de 15 operadores de microcrédito. Estes passam a estar assim proibidos de…
Cabo Verde e Suíça decidem facilitar vistos de curta duração

Cabo Verde e Suíça decidem facilitar vistos de curta duração

Cabo Verde e Suíça acordaram que vão facilitar a emissão de vistos de curta duração, divulgou o Ministério dos Negócios…
Timor-Leste: Debate de candidatos presidenciais adiado para 15 de março

Timor-Leste: Debate de candidatos presidenciais adiado para 15 de março

O Vice-Presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE), Domingos Barreto, informou que o debate público dos candidatos à Presidência da…
Moçambique: Maleiane ocupa cargo de primeiro-ministro

Moçambique: Maleiane ocupa cargo de primeiro-ministro

O chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, confere posse a Adriano Maleiane nesta sexta-feira, 04 de março. O ex-ministro da…
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin