Entrevista

“Estar no NRP Sagres, nestas funções, é um orgulho”, afirmou o comandante do navio-escola português ao atracar no porto do Rio de Janeiro

António Manuel Maurício Camilo

Entre os dias 10 e 15 de fevereiro, o icónico navio-escola “Sagres” ajudou a moldar um belo cartão-postal no porto do Rio de Janeiro. A bordo, muitos eventos e autoridades que promoveram a necessária aproximação entre Brasil e Portugal, apesar da chuva torrencial que insistiu “invadir” a cidade maravilhosa. Mas nem mesmo o mau tempo afastou os visitantes. Dezenas de pessoas passaram pela embarcação e se deslumbraram. Se as velas desse grande veleiro são um dos seus principais marcos no oceano, uma das cenas mais “elegantes” dessa sua passagem pelo Rio foi captada de um avião. Quando o navio-escola chegava à cidade, desfilando com muita propriedade a sua iluminação inconfundível no leito da Baía de Guanabara, responsáveis pelo governo português aterravam no Rio, perto dali, no aeroporto do Galeão. E foi de uma das pequenas janelas de uma aeronave que Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, capturou imagens inigualáveis desse momento e as partilhou nas redes sociais.

Mas esse foi apenas um dos factos curiosos que marcaram a passagem do imponente “Sagres” pelo cais sete carioca. Nesse equipamento, estavam cerca de 144 tripulantes, que contam com o objetivo de realizar, desde o dia 5 de janeiro, uma viagem de circum-navegação ao longo de 371 dias, regressando a Lisboa dia 10 de janeiro de 2021. A missão está enquadrada no programa das comemorações do quinto centenário da Circum-Navegação, feito conquistado pelo português Fernão de Magalhães e pelo espanhol Juan Sebastián Elcano. Ao todo, o navio irá atracar em 22 portos de 19 países diferentes, passando em 12 cidades da Rede Mundial de Cidades Magalhânicas. Essa jornada marítima prevê ainda a presença do “Sagres”, como Casa de Portugal, na capital japonesa durante a parte inicial das olimpíadas, além da participação nas festas em torno dos 500 anos da descoberta do Estreito de Magalhães e a visita à locais conhecidos por contarem com afluência da diáspora portuguesa.

Tão logo o “Sagres” ancorou no Rio de Janeiro a e-Global foi recebida a bordo pelo comandante António Manuel Maurício Camilo, que ocupa o posto desde 2017. Dono de uma grande experiência na área marítima, este capitão-de-fragata, que entrou para a Escola Naval portuguesa em 1988 e que acumula condecorações como as medalhas de Comportamento Exemplar Ouro, Simon Bolivar al Mérito Militar e Cívica de Cartagena Almirante Padilla, falou, numa conversa intimista, sobre a função que exerce hoje, os desafios e os detalhes da viagem atual, o relevo histórico da primeira volta ao mundo, os projetos científicos que o navio está a liderar e a questão de saúde envolvendo o coronavírus.

 

De que forma podemos explicar o feito de Fernão de Magalhães às gerações atuais?

A viagem em si foi uma viagem que inaugurou um conceito que não se conhecia na altura, de que o mar era único, ou seja, era possível sair de um ponto, navegar o mundo inteiro e voltar ao mesmo ponto. Percebeu-se que era possível ligar toda a terra através do mar, do mar único. Fernão de Magalhães conseguiu cumprir esse desafio porque, naquela altura, atingiu-se um patamar de conhecimento de técnicas de navegação e dos mapas. Foi um dos primeiros indícios da chamada globalização. E que não parou! Magalhães aproveitou aquilo que já existia de conhecimento e acrescentou muito mais. E tudo isso continua a ter impacto passados 500 anos.

Portugal é um dos grandes nomes nas conquistas marítimas e auxiliou, inclusive, na mudança do mapa-múndi. Qual é o sentimento de deixar a costa portuguesa e navegar por outros países, por outros mares? O que traz no peito sabendo que Portugal carrega toda essa história?

É uma boa pergunta, mas eu não penso muito nisso! Já fiz viagens desta dimensão há alguns anos e a ideia sempre é a de que há desafios, há sempre novidades. Por muito que a tecnologia tenha evoluído, ou que haja muito conhecimento e cartas de navegação precisas, e até que conheçamos de forma muito pormenorizada o planeta, há sempre desafios. E este navio navega à vela. Um navio mais clássico como este conta sempre com desafios. Pensar nessa dimensão histórica não é um dos meus grandes focos. Ficamos mais ligados à gestão do dia a dia, da chegada ao porto seguinte, o cuidado com as velas, o vento, o que é preciso fazer. Quando está mau tempo, devemos proteger o navio e as pessoas. Quando há mau tempo, há bom tempo a seguir.

E como é ser comandante do “Sagres”?

É um sentimento inexplicável. Já tenho muitos anos no navio, em outras funções, claro, até chegar a comandante. O que eu sinto é um grande orgulho, é uma realização pessoal e profissional. Estar no “NRP Sagres”, nestas funções, é um orgulho. Particularmente, com uma viagem destas, de um ano de circum-navegação, sinto um grande orgulho, tenho um grande sentimento de realização.

Quais são os objetivos da embarcação?

Há duas componentes. Uma é que continua a ser um navio-escola a fazer a parte da formação dos cadetes da Escola Naval de Portugal, complementando com a parte de embaixador de Portugal, a fazer presença nos países, realização de eventos etc. Este ano, existe um aspeto extra que é a questão dos projetos científicos, que é algo inovador para esta viagem. Ou seja, vamos aproveitar o percurso que o navio vai fazer, passando por sítios mais remotos, com menos navegação, e trazer um conjunto de projetos que visam medir o ar e o oceano, e, portanto, porque não aproveitar o facto de estarmos a fazer esse percurso e não aproveitar para medirmos o estado da atmosfera e do mar? A ideia foi essa. E isso sim é uma inovação para esta viagem. De resto, é sempre aquela dualidade. A navegar, é um navio-escola, atracado, é uma embaixada de Portugal.

Atualmente, fica mais em casa ou a bordo?

Depende das alturas. Quando estamos em fase final dos preparativos, fico mais a bordo do que em casa. Vivo perto de Lisboa. Por exemplo, este ano, ficarei cerca de 75 por cento do tempo a navegar.

Como é o convívio dentro do navio?

Dentro do navio somos uma família. Não deixa de ser um navio militar e existem regras, procedimentos e hierarquias. Assim, mantemos uma estrutura funcional, mas, depois, também há momentos em que estamos todos literalmente no “mesmo barco”, pertencemos todos à uma família e, neste navio, mais do que num navio mais moderno, o trabalho de equipa é fundamental. Ninguém faz nada sozinho aqui! É preciso sempre juntar uma equipa para trabalhar por um determinado objetivo, quer seja içar uma vela, preparar algo no convés, ou seja, todas as manobras são feitas em equipa.

A rota até ao Brasil é complicada?

Não é muito complicada. Comparativamente com outras partes da viagem, é uma rota mais tranquila, e desta vez foi novamente tranquila.

Até a chegada a Tóquio, o que espera encontrar no caminho?

Há vários desafios, como a travessia de Buenos Aires, na Argentina, para a Cidade do Cabo, na África do Sul, que são cerca de 25 dias sempre em alto mar. Há um desafio também no Cabo da Boa Esperança, que é sempre uma zona complicada em virtude das correntes e temos ainda uma componente grande que tem a ver com a navegação nas Filipinas e na Indonésia, que são grandes arquipélagos, ou seja, é uma região onde se navega de forma diferente do que quando se cruza o Atlântico. Estaremos sempre juntos à terra. Essa é uma zona na qual eu nunca naveguei. Há aí também alguns desafios, até mesmo com pirataria e, por isso, devemos ter mais atenção. Depois, vamos ter os cadetes a embarcarem e vão criar outra dinâmica, outras rotinas no navio. Nesse momento, a embarcação terá mais vida, mais atividades, serão dadas instruções. Teremos cerca de 200 pessoas a bordo. Em seguida, chegaremos a Tóquio. Essa vai ser uma parte animada, com alguns desafios inerentes à viagem. Ficaremos no Japão durante a parte inicial dos jogos olímpicos. Em seguida, iremos para Punta Arenas, no Chile, para as comemorações dos 500 anos da descoberta do Estreito de Magalhães. Há aí uma parte da viagem que vai ser o trânsito de Tóquio para o Estreito de Magalhães, onde vamos cruzar o Pacífico.

Sobre a questão do coronavírus, há orientações? Isso preocupa a tripulação?

Para já, não! Estamos a acompanhar o tema. Quando surgiu a situação do coronavírus já havíamos deixado Cabo Verde e as notícias nos chegaram ao longo da navegação até atracarmos no Rio de Janeiro, onde não existem problemas. Claro que, no decorrer da viagem, vamos chegar a Xangai, na China, mas ainda faltam muitos meses, portanto, até lá, estaremos atentos.

Receberam alguma orientação por parte do Ministério da Saúde de Portugal?

Não, até porque não faz sentido nesta altura. Mas estamos a acompanhar todos os desenvolvimentos. Temos um médico no navio que está sempre em contato com as autoridades e com a marinha portuguesas e, se houver necessidade de alguma precaução, tudo será tratado a tempo.

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