Cabo Verde | Entrevista

“Falta acreditar, apostar mais, se derem sempre oportunidade às mesmas pessoas, as outras nunca serão descobertas” Cremilda Medina

Cremilda Medina é uma das vozes mais vibrantes da morna cabo-verdiana. Um retrato da nova geração vibrante, que recupera as tradições do seu país e lança as bases para um futuro mais próspero e equilibrado no meio musical.

O ano de 2020 fica marcado por uma pandemia que virou o mundo do avesso, logo no mesmo ano em que Cremilda tinha decidido dedicar-se à música por inteiro. Com espetáculos adiados e outros cancelados tanto em Cabo Verde, como em Portugal, aproveitou o tempo para gravar em estúdio e preparar o novo álbum, que contará apenas com a participação de músicos cabo-verdianos. Nas palavras de Cremilda, Cabo Verde é um país repleto de talento, ousadia e gente jovem, falta apenas acreditar mais um pouco, assim como existirem mais oportunidades.

Em Lisboa, à beira do cais, passeou-se pelas ilhas de Cabo Verde, de mão dada com recordações de infância e com a Morna.

 

Cremilda, como é que está a decorrer este ano, atípico em todos os sentidos?

Antes de toda esta pandemia começar estava em Cabo Verde, na Cidade da Praia, a preparar-me para vir para Portugal para o concerto de dia 18 de março em Santo Tirso. Cheguei a Lisboa no dia 10 de março e na semana a seguir fecharam os voos e o concerto de Santo Tirso foi cancelado.

E eu estou em Portugal desde março, nunca tinha ficado cá tanto tempo e muito menos numa situação destas. Mas, há males que vêm por bem, como eu costumo dizer. Agora, finalmente, tive tempo para descansar, já andava muito cansada, porque além da música também tinha outro trabalho e decidi que a partir de janeiro iria dedicar-me a 100% à música.

 

E no mesmo ano que essa decisão é tomada, acontece isto. Foi assustador de alguma forma?

Sim, (risos) por instantes pensei, será que isto é algum sinal? Mas não, esta fase serviu para descansar, para meter as ideias em ordem e para trabalhar no próximo álbum.

 

O primeiro trabalho, Folclore foi considerado um sucesso. Ultrapassou as expectativas?

Sim, não estava nada à espera desta receção tão positiva. Já tinha um single, Raio de Sol, mas longe de mim pensar neste sucesso. O que eu gosto mesmo é de partilhar a minha playlist com as pessoas que me ouvem, porque são músicas que eu gosto, de escritores, compositores que me dizem algo e gravar só por gravar não me diz nada, pois considero ser um desrespeito para com o criador.

 

É uma preocupação sua destacar os autores das suas músicas?

Sim! No início, quando comecei não me interessava muito em saber quem era o autor daquela letra e depois com o passar do tempo as pessoas começaram a dizer-me, “olha, tens de dar o devido valor ao compositor!” Acontece que eu ia cantar, recebia o meu caché e ia para casa. Quem compôs a música não beneficiava de nada, nem ao menos atribuía créditos àquela pessoa e isso tem sido uma das minhas lutas desde aí, fez parte da minha prendizagem, atribuir o crédito a quem merece. Ultimamente têm surgido imensos compositores novos que têm muita qualidade. No meu CD conto com a participação do Fany d´Anu Nobu, do João Carlos Silva, do Jon Luz…

 

Também foi uma surpresa conseguir trabalhar com vários compositores de renome, logo no primeiro álbum?

Foi estranho! No Fado que gravei, composto por José Eduardo Agualusa musicado pelo Ricardo Cruz, aquando dos ensaios ter ali comigo o Luís Pontes, o Luís Guerreiro e o próprio Ricardo Cruz, um produtor renomado que já produziu a Mariza, eu não estava a acreditar naquilo, mas eles puseram-me muito à vontade.

Eu não sei a partir de que momento é que me tornei a Cremilda, em que consegui ficar à vontade no palco, interpretar cada uma letras e mostrar este respeito pela Morna, mas estou muito orgulhosa de mim por ter conseguido alcançar o que alcancei.

 

Voltando a esta situação que se vive hoje, como é que se planeia a agenda daqui para a frente?

Nós vamos agendando os concertos a pouco e pouco. Dia 5 de Setembro haverá concerto em Oeiras, mas o grande problema para este ano é que os concertos estão a ser reagendados e os artistas que não tinham concertos confirmados, dificilmente conseguirão algo, pelo menos até ao primeiro trimestre do próximo ano, pois as agendas ficam preenchidas só com os reagendamentos.

 

Neste caso, as plataformas digitais deram uma grande ajuda?

Eu provavelmente sou uma das artistas mais estranhas que existem. Não gosto de fotos, de câmaras, de filmagens… mas um dia, num jantar de aniversário de uma prima nossa, o marido dela sugeriu; “uma vez que têm muitos pedidos dos fãs e se fizessem um concerto em direto e pedissem o apoio da câmara de Cinfães?” E por que não?

Desde o primeiro momento a câmara de Cinfães disponibilizou logo o auditório, a equipa técnica, nós chamámos o Humberto Ramos, o pianista que me acompanhou, ensaiámos as músicas e fizemos acontecer aquele concerto… mas foi muito estranho, porque eu gosto de ter público, para além disso, o meu primeiro concerto internacional tinha sido feito naquela mesma sala, que estava lotada na altura! E agora estavam lá cinco pessoas, as cadeiras todas para baixo, tudo escuro. Não é igual… Enquanto atuava só tinha em mente aquele primeiro concerto… mas foi muito bom, houve muita interação com o público que me via em casa.

 

Mas como se obtém dividendos através dessas performances?

Essa é a pior parte. Ou se tem patrocinadores, porque existe sempre um custo associado à produção do evento, mas depende dos planos promocionais que se tem. Para quem pertence a grandes agências e quem tem patrocinadores fixos é mais fácil, pelo menos cá em Portugal.

No meu caso fiz mesmo tudo à minha custa, porque também tinha recebido imensos pedidos dos meus seguidores a dizerem que tinham saudades de me ouvir cantar.

 

Mas, mesmo assim como artista independente, a Cremilda tem feito o seu caminho, conseguindo mesmo alcançar prémios internacionais…

Sim, tem sido muito interessante. Da primeira vez quem me candidatei aos Internacional Portuguese Music Award, foi o Miguel que o fez (agente) e não me disse nada, só depois de receber o email de confirmação em como eu era uma das nomeadas é que eu soube do que se tratava. Foi a primeira vez que estive nos E.U.A e com essa nomeação surgiu muita coisa boa, tive a oportunidade de conhecer vários artistas. Nos anos seguintes acabei por ser nomeada mais duas vezes e nessas duas vezes consegui levar o prémio para Cabo Verde. Foi inacreditável em dois anos seguidos trazer para casa dois trofeus de World Music, um com uma Morna e outro com uma Coladeira, os estilos musicais com que mais me identifico…

 

E nessa altura ainda não se dedicava a tempo inteiro à música?

Não… trabalhava, trabalhava, trabalhava. As minhas férias eram para a música, mas a minha atividade principal era outra.

 

É a única artista da família?

Sim, e o mais interessante é que o meu pai quando éramos pequenos inscreveu os meus irmãos nas aulas de flauta e a mim e às minhas irmãs, não. Até que surgiu um concurso de música enquanto eu ainda estava a estudar e apesar dos protestos da minha mãe, que queria que eu me dedicasse aos estudos, eu insisti, não fiquei nos primeiros lugares, mas nem sempre vencemos. No entanto, continuei a insistir e agora os meus pais são os meus maiores fãs.

 

Agora estamos aqui, em Lisboa, perto do porto, do cais e sei que esta imagem traz lembranças da infância, não é verdade?

Sim, muitas! O meu pai trabalhava nos escritórios do Cais do Porto Grande em Mindelo, mas andava sempre no cais e convidava-me sempre para beber um sumo e comer um queque ou um donut e aquilo sabia-me tão bem… depois ia para o escritório dele e rodava na cadeira… na escola, quando perguntavam o que é que os nossos pais faziam, eu dizia; “o meu pai consegue levantar a casa com um dedo!”

 

Isso é muito poético…

Antigamente lá de casa, do nosso portão, via-se o aeroporto, os aviões a aterrarem e a levantarem voo e do outro lado vê-se a ilha de Santo Antão, para onde a minha mãe se virava a cantarolar e quando eu lhe perguntava porque é que ela cantarolava sempre virada para aquele lado ela respondia-me que era para ver se a sua mãe ficava mais próxima e vice versa, porque a minha avó vivia na ilha de Santo Antão e nós na ilha de São Vicente. Então, são muitas as recordações que eu tenho e as músicas foram ficando na memória. O meu pai também sempre gostou de ouvir rádio, eu gosto de ouvir mornas por volta das 11h ou às 5 da tarde, porque o sol não está muito forte e é naquele momento que se recarregam as energias.

 

Em Cabo Verde a música é algo muito natural, todos cantam, mas mesmo assim parece que ainda falta qualquer coisa para que esse talento todo seja reconhecido…

Sim, há muita gente a cantar, quase todos tocam um instrumento musical, é incrível. Mas eu partilho dessa opinião, acho que falta acreditar mais. Há muitos jovens talentos, instrumentistas, compositores, intérpretes, músicos… falta acreditar, apostar mais, se derem sempre oportunidade às mesmas pessoas, as outras nunca serão descobertas.

Em Cabo Verde gostam muito de chamar alguns artistas para eventos de angariações de fundos, mas quando se trata de eventos onde existem cachés já não nos chamam a nós, chamam outros… agora é uma questão de profissionalismo, respeito, pois se eu enquanto artista não me respeitar, ninguém me vai respeitar.

 

À medida que a carreira avança, equaciona a hipótese de sair de Cabo Verde?

Antes desta pandemia tinha tido muitos concertos em Cabo Verde, em quase todas as ilhas e também tenho concertos fora do país. Agora vou ter de ficar em Portugal até meados de Setembro, porque ir e voltar não é possível, atendendo ao preço das viagens. Há muita gente que me pergunta se penso vir para a Europa, mas não, ainda não. Enquanto der para conjugar, fico em Cabo Verde. Perceber que estou longe, afastada, com esta pandemia, faz-me sentir muitas saudades da minha terra.

 

Mas ainda está a gravar o próximo álbum?

Sim, em Lisboa. Ainda não posso adiantar muito, mas posso dizer que neste álbum só irão participar músicos cabo-verdianos. Ainda não podemos adiantar a data de lançamento, porque ainda estamos a fechar o reportório.

 

Gosta mais de trabalhar no estúdio ou de estar em palco?

Eu gosto mesmo é de estar no palco. São muitas horas em estúdio, a gravar e às vezes depende do produtor com quem estamos a trabalhar. Gosto de ver as pessoas a dançar, a mexer, a cantarem comigo.

 

Nesta passagem pelo interior do país, sente que os portugueses conhecem bem a morna?

Depende um bocadinho, para ser mais fácil eu digo que a morna é o fado, mas em Cabo Verde, transmite os mesmos sentimentos. Mas as pessoas conhecem, associam bastante por exemplo a Cesária Évora.

 

Cantar em crioulo, sempre?

Sim, é a minha voz. É onde eu me consigo expressar melhor e há dias estive a reparar que estive a cantar uma letra que tinha crioulo de São Vicente e da ilha de Santiago e eu sentia alguma dificuldade na dicção, há sempre pequeninas coisas.

 

E uma mudança de registo, está no horizonte?

Não, quero ficar neste registo, a cantar Morna. Sinto que já encontrei o meu caminho.

 

Quando surgiu a Madonna em Portugal, de repente toda a gente se começou a interessar pela Morna, aconteceu o mesmo em Cabo Verde?

Normalmente é assim também em Cabo Verde. Quando um artista cabo-verdiano sai para o mundo e tem sucesso, é o maior lá. O público cabo-verdiano adora a Madonna, que já conhecia a Cesária Évora, mas não deveríamos esperar que fosse necessário vir alguém de fora para dar valor à nossa cultura, às nossas tradições.

 

Já se nota este agravar da crise em Cabo Verde com toda esta situação de pandemia?

Desde que fecharam as fronteiras, os turistas deixaram de ir, só se fazem voos essenciais. Tudo vai depender da evolução da situação… mas já sentem muitas dificuldades, pois Cabo Verde em parte depende muito do turismo.

 

Em Cabo-Verde tem havido algum apoio aos artistas?

É uma situação que se vai notando já a algum tempo, mesmo antes da pandemia, em relação aos músicos. Em primeiro lugar, muito poucos músicos estão inscritos na segurança social, depois em muitos casos não há respeito por parte de quem contrata e nesta altura da Covid, piorou tudo. O governo tem tomado algumas iniciativas de valor, por exemplo ao promulgar o programa dos 100 artistas em palco onde muita gente me perguntou porque é que eu não me inscrevi, mas eu disse que há gente que precisa mais do que eu, existem artistas a passarem por muitas dificuldades.  Não participei também porque há gente que precisa de ser ouvida, que precisa de ser reconhecida, que necessitam de uma oportunidade.

 

Falta regulamentação no sector?

Não existe! O problema lá é um pouco como aqui, se alguém não quiser atuar por um preço qualquer, surgem outros que hão-de querer. Tem de haver mais união. Mas eu contra mim falo, já cheguei a cantar várias horas por quantias muito baixas e isso é exploração. O músico tem de aprender a valorizar-se e tem sido isso que eu tenho aprendido e tenho vindo a fazer.

 

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