Entrevista | Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Os países lusófonos entre si não se conhecem bem, diz Fodé Mané

© Pxhere

O actual reitor da Universidade Amílcar Cabral, a única pública na Guiné-Bissau, Fodé Mané, traça um esboço da situação educativa guineense, aludindo aos vários anos de experiência acumulada como docente nos vários níveis de ensino. É um retrato fiel à realidade que se vive hoje; o analfabetismo ainda é muito alto e falta quase tudo nas escolas públicas guineenses. Mas o sector mais carente ainda é o ensino superior, que carece de uma política de apoio por parte dos parceiros, de mais investimento e cooperação, especialmente por parte dos membros da CPLP, que devem ser mais solidários e cooperantes, visto que o ensino superior é o pilar de uma sociedade.

Atendendo à sua experiência enquanto docente como caracteriza a realidade que se vive hoje na Guiné-Bissau ao nível das estruturas educativas?

Actualmente, sou professor de Direito na Universidade Amílcar Cabral (UAC), mas tenho experiência de ter trabalhado em vários níveis desde o ensino básico, ensino liceal e agora no ensino superior. Também fui Director-Geral do Ensino Superior. Nesse sentido posso apresentar diversos pontos de vista sobre o assunto. Em primeiro lugar, o ensino pré-escolar é muito insuficiente, especialmente nas zonas rurais, devido à falta de infra-estruturas, falta de educadores e também devido ao facto de não haver o hábito de colocar as crianças cedo na escola, pois a maioria das mães trabalha em casa ou em actividades ligadas á agricultura. No ensino básico e liceal, por outro lado, verificou-se uma democratização do ensino que se traduziu na abertura de escolas em todas as zonas do país, mas isso não veio acompanhado de criação de condições básicas em termos de infra-estruturas e formação de qualidade dos docentes.

A instabilidade política que se vive na Guiné-Bissau tem afectado o sistema de ensino vigente?

A instabilidade crónica é o principal problema da educação. Essa instabilidade faz com que não se possa conceber, delinear ou aplicar uma estratégia na área da educação na prática. Primeiro, os ministros não duram tempo suficiente nas respectivas pastas, durante cinco anos não pode haver cinco, seis, sete ministros da educação, assim não há estabilidade. Depois, quando sai um ministro, sai toda a equipa técnica, até os directores-gerais das escolas, pois não há um sistema colectivo como um órgão colegial nas escolas, que permita a um director que foi nomeado pelo ministério continuar a trabalhar e a administração escolar está toda concentrada no papel que o director geral ocupa nas escolas. Por fim, a inspecção escolar como uam forma de acompanhar, seguir e dar instruções não tem estado a funcionar nos últimos anos e têm ainda um problema de enquadramento. E claro, há um problema de financiamento por resolver. Há algumas escolas que tentam envolver os encarregados de educação num sistema de financiamento básico, de auto gestão, mas esse sistema, por falta de regulamentação, não tem estado a trabalhar de uma forma uniforme, isso depende da dinâmica determinada comunidade. Estamos a pôr em causa aquilo que é o pilar fundamental de uma sociedade, que é a educação e o bem fundamental de um país que são as pessoas.

Aonível do ensino privado verificam-se os mesmos problemas?

O mesmo não acontece em relação ao ensino privado ligado a certos indivíduos ou ligadas a instituições religiosas ou evangélicas. Estas escolas conseguem funcionar e serem mais exigentes em relação aos programas aos horários, à selecção dos docentes. Nos últimos anos o ensino devido à massificação tornou-se comercializado.

E quais as implicações desta fragilidade verificada no ensino médio ao nível do ensino superior?

Nós no ensino superior sentimos estes efeitos todos. Como o número de estudantes já é mais reduzido e há o estabelecimento de numerus clausus, existe a capacidade de filtrar melhor, mas os resultados são catastróficos. Por isso criou-se o ano zero para colmatar as dificuldades sentidas pelos estudantes e os cursos continuam a durar quatro, cinco anos, para que se possa formar pessoas com maior qualidade e capacidade.

Até que ponto é que a colaboração com parceiros externos está a ser importante para o desenvolvimento do sistema educativo na Guiné?

É muito importante! O ensino básico é quase na sua totalidade assegurado pela UNICEF, através da formação de professores e materiais de apoio, pelo Programa Alimentar Mundial através do programa da cantina escolar que tem incentivado a permanência de crianças na escola, há também várias ONG portuguesas e instituições de cariz religioso que têm ajudado bastante na melhoria do sistema educativo. Hoje em dia também se deve enaltecer o papel da diáspora guineense; os chamados “filhos da terra” têm estado a mobilizar fundos e a criar parcerias para ajudar as suas comunidades, nessas escolas as coisas funcionam muito bem. Ao nível do ensino superior é que continua a haver carências, porque estes parceiros vão atrás das prioridades do governo, que passam pela alfabetização e o incremento do ensino básico, da escolarização das pessoas. Então, o ensino técnico, profissional e superior não está a conseguir responder aos desafios apresentados, por isso, há várias universidades, politécnicos portugueses e de países vizinhos que abrem vagas para os estudantes guineenses irem estudar, embora a maioria não tenha condições económicas para ir para o exterior. Ou quando conseguem ir há relatos por parte dos nossos estudantes de dificuldades de inserção social, fruto da falta de preparação que sentem quando vão para instituições de ensino mais estruturadas e rigorosas.

Quais as carências mais visíveis ao nível do apoio ao Ensino Superior?

Por exemplo, a edição de manuais escolares tem estado quase parada, há três, quatro anos que a produção é praticamente inexistente e os estudantes têm recorrido a fotocópias e livros emprestados. Quanto aos computadores não são em número suficiente para poderem ser utilizados por todos. Há ainda outro problema importante de que é preciso falar, que é o da energia eléctrica, quando há cortes constantes de electricidade não é possível que as faculdades funcionem no período da noite, que se utilizem projectores ou que os alunos tenham aulas à distância. Mesmo os docentes deparam-se com problemas técnicos de vária ordem, não há mapas, slides, livros… o mercado de venda de materiais lúdicos e equipamentos também não é atractivo, é bastante caro, atendendo ao custo de vida que se verifica na Guiné. Há uns anos houve uma tentativa de criar um programa semelhante àquele que existe no Senegal, o Programa Plus, que faz com que os livros que saem de França custem um terço do seu valor real, e faz com que sejam equipadas as bibliotecas escolares, mas, mais uma vez, devido a esta instabilidade crónica dos últimos anos não se deu continuidade ao programa.

Falando de uma questão importante, da questão dos países vizinhos. A Guiné-Bissau está rodeada de países francófonos. Falar português é uma luta diária neste contexto?

Há falta de apoio por parte dos países lusófonos com mais possibilidades, que estão neste momento mais voltados para outros países fora da CPLP. Por exemplo, na UAC não há um leitorado de português, e isso é inadmissível num país lusófono. Os países vizinhos da Guiné também se interessam muito pela língua portuguesa. Se contarmos com as novas formas de comunicação, as redes sociais, rádios locais e televisão, vemos que há uma enorme difusão da língua. O problema é a falta de investimento na cultura portuguesa e a língua não é só a expressão. Os países lusófonos entre si não se conhecem muito, não sabem qual a gastronomia, a geografia, o clima, as particularidades de cada país. É necessário utilizarmos a CPLP para reforçar os laços que nos unem. Há pouco a minha organização tinha um relatório preparado sobre a situação dos Direitos Humanos mas ainda não seguiu porque tem de ser traduzido, porque o português não é uma língua oficial das Nações Unidas. É necessário investimento na língua, deve haver bastante solidariedade entre os países, por isso é que eu digo que o ensino superior poderia fazer esta ponte, estender esta cooperação que falta e consequentemente criar a solidariedade que falta em termos culturais.

Pegando nesta questão da entreajuda entre países lusófonos, como olha para a questão dos vistos no seio da CPLP?

É acima de tudo necessário ter um pouco de compreensão. Por exemplo no passado dia 10 de Novembro não participei no lançamento de um livro em Portugal, do qual fui co-autor, porque recebi o convite uma semana antes, e é impossível que se consiga todos os documentos necessários com tão pouco tempo de antecedência. É urgente resolver esta situação. Para viajar eu tenho de comprovar meios de subsistência, mostrar convite, tudo … por vezes a entidade que quer convidar um académico ou uma personalidade da Guiné prefere descartar essa hipótese por causa de todas as dificuldades criadas em torno disso. Eu sou um académico, não vou fugir do meu país. Em conversa com uma amiga portuguesa, eu dizia-lhe que a solução para a crise migratória era possibilitar a saída e entrada de pessoas. O intercâmbio académico ou cultural está a ser aniquilado mas isso deve-se ao negócio de vistos, os trâmites são dificultados para se poder exigir compensações

O que espera que possa vir a acontecer no próximo dia 29 de Dezembro. Está aberto o caminho para uma estabilidade política duradoura?

Neste momento há dois cenários em cima da mesa. Por exemplo, temos dois candidatos; um dos candidatos anunciou claramente que, se ganhar eleições, vai demitir o governo, então entraremos num ciclo de um governo de iniciativa presidencial sem sustentabilidade do parlamento sem enquadramento legal e isso conduz a mais um ciclo de instabilidade. Por outro lado, temos outro candidato que já foi primeiro-ministro e aquele governo já está a trabalhar num programa no qual ele foi um dos mentores, que já teve o aval dos parceiros, que já garantiram o apoio em quase 100% deste programa. No entanto nenhum dos cenários pode ser afastado. Na Guiné há uma alta taxa de analfabetismo e há vários factores que condicionam o voto como factores religiosos, étnicos de afinidade, manipulação, compra de consciência e isso pode resultar em qualquer um dos cenários. Aqui nenhuma sondagem funciona a não ser a votação.

Acredita que nos próximos 10 anos, os níveis de analfabetismo poderão ser reduzidos para números bem inferiores aos que existem hoje?

Isso é uma necessidade, uma dinâmica que já acontece. Mesmo nas zonas mais longínquas há cursos de alfabetização a pedido de várias pessoas, até idosas. Porquê? “Quero ligar para este número de telemóvel”, “quero fazer pagamentos”, há algumas necessidades que impulsionam esta procura de alfabetização. Os próprios pais estão a investir o pouco que têm para a alfabetização dos seus filhos. As pessoas já não dependem tanto do estado, estão a tomar a iniciativa de capacitar os seus filhos. Penso que a médio longo prazo a situação vai mudar.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo