Cultura | Entrevista

“No geral, inspiro-me em mulheres negras, porque para elas as dificuldades são muito maiores.” Romise Barreto

Romise Barreto; Cabo Verde; Concurso; Escrita

Romise Barreto, 16 anos, estudante do Liceu São Domingos Ramos, Praia, é a vencedora da segunda edição do Concurso Nacional Contos “Igualdade de Género”, desenvolvido pelo Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG).

A acrescentar a isso, Romise, tornou-se ainda embaixatriz da causa de género em Cabo Verde, o que significa que se propõe a alertar as jovens cabo-verdianas para a não-violência no namoro. A jovem escritora não é uma estreante no que diz respeito ao mundo literário, já publicou diversos livros na sua plataforma e concorreu a diversos concursos literários. “Escrever é como respirar”, justifica.  No futuro, assegura, quer continuar a publicar livros e está nos seus planos seguir uma carreira internacional. Admite também que é extraordinário aquilo que a internet e as novas plataformas digitais já lhe permitiram alcançar.

 

Romise, este foi o primeiro concurso literário em que participou? E do qual saiu vencedora?

Por acaso, não. Aos nove anos, quando comecei no universo da escrita, participei no 42.º concurso de composições epistolares para jovens, a nível internacional, das escolas associadas à UNESCO, cujo tema aqui era Alô Cabo Verde. Depois, no 8.º ano, quando tinha 13 anos participei num concurso organizado pela minha escola com uma redação cujo tema era “o que é ser uma aluna de sucesso” e agora este concurso.

 

Vê-se como escritora, no futuro?

Neste momento, estou inscrita no agrupamento 6, de ciências e tecnologias, porque eu pretendo ingressar no curso de ciências forenses e criminais. No entanto,  não pretendo abandonar a escrita e quero fazer chegar a público mais livros físicos e ver o meu trabalho reconhecido a nível internacional.

 

O concurso, do qual saiu vencedora, foi organizado pelo Instituto para a Igualdade e Equidade de Género em Cabo Verde. Isso tem algum significado especial para si?

Sim, com este conto não quis mostrar apenas o meu trabalho, mas também quis trazer este tema à reflexão das pessoas, sobre o que se passa na nossa sociedade, porque vivemos num tempo em que se nota o empoderamento feminino. Então, o meu objectivo é chamar a atenção, principalmente das meninas da minha idade, em como a violência começa no namoro e se alarga e circula até ao casamento. Muitas vezes esses comportamentos justificam-se, dizendo que a violência é uma forma de demonstrar amor. Mas tem de se quebrar esse tabu, de que a violência é uma forma de amor, levando mais jovens a falar sobre isso, a quebrar o silêncio e a deixar o sofrimento de lado.

 

Em traços gerais, qual é a história desenvolvida no conto “O Preço do Silêncio”? E como é que se poderá ter acesso a esse conto?

Para já, o conto será colocado em formato digital na “Nuvem de Livros da Unitel T+”. A história gira em torno de uma família constituída por quatro pessoas onde o marido tem um grave problema de dependência do álcool, o que gera várias forma de violência no seio da família. Depois da violência verbal segue-se a violência física, até que Elaine, com 11 anos, a filha maior do casal, que não era descendente de Valdo, percebe que a situação não se pode  arrastar mais e decide fazer uma denúncia. O que eu pretendo com este conto é alertar as crianças para que percebam o quão errado é a violência.

 

Quem são os seus ídolos atualmente? Em quem é que se inspira?

No geral, inspiro-me em mulheres negras, porque para elas as dificuldades são muito maiores.  Eu admiro aquelas mulheres que não têm medo de lutar para ganhar voz perante a sociedade. A nível literário costumo ler as obras de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, do universo de Sherlock Holmes e muitos outros artistas cabo-verdianos.

 

Romise, consegue exlicar por que é que é tão bom para si escrever?

Eu sinceramente não consigo explicar muito bem, só sei que sinto uma grande paz quando escrevo, pois é uma forma de me expressar quando não consigo fazê-lo verbalmente, então, a minha escrita reflecte um pouco daquilo que eu sou. Todos os meus personagens têm um pouco do que a Romise tem. Para mim, escrever é tão importante como respirar.

 

Ainda é muito cedo para pensar nisso, mas num futuro próximo pensa sair de Cabo Verde para estudar ou trabalhar?

Sim, eu tenho três destinos em mente, Brasil, Estados Unidos e Portugal. Agora, estou numa busca incessante de oportunidades, mas sim, era algo que eu gostaria muito. Mas independentemente de sair para estudar ou trabalhar, também gostaria de visitar esses países, assim como Moçambique, porque fiz vários amigos lá através da plataforma onde divulgo os meus trabalhos e parece-me um país muito interessante.

 

Essa partilha seria possível sem estas plataformas digitais?

Não, vivemos num mundo globalizado, temos de nos adaptar às mudanças. Para mim foi muito importante navegar nessas plataformas porque eu fiz amigos extraordinários. É incrível a quantidade de amigos que fiz noutros países como Portugal, Brasil e Moçambique. De facto, fizemos até um grupo em que partilhamos ideias e avaliamos o nível uns dos outros. É incrível mesmo perceber o que é que a internet nos possibilita fazer. Claro que há aspectos negativos também, mas se retirarmos o que tem de melhor é fantástico.

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