“Testar produtos brasileiros em Portugal para depois escalar para toda a Europa é uma prática comum para a indústria”

A Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo, no Brasil, conta com uma nova liderança. Após a saída de Nuno Rebelo de Sousa, a presidência da entidade passa a ser ocupada por Karene Rodrigues Vilela, brasileira, de 37 anos, CEO da Portus Cale, formada em Propaganda e Marketing e detentora de pós-graduação em Business.

Com origem nos Açores, esta empresária é ainda enófila e tem à frente um grande trabalho numa das instituições de maior conexão entre Brasil e Portugal, que conta hoje com cerca de 550 associados, em vários setores da economia.

Karene afirma estar ligada à Câmara Portuguesa “há muitos anos, através da empresa na qual estou à frente hoje – a Portus Cale”, uma importadora de vinhos com foco em Portugal, “o que me fez ficar cada vez mais próxima da Câmara por questões comerciais”, há cerca de uma década.

Desde 2020, atua como conselheira nessa Câmara, tendo, em 2023, sido eleita vice-presidente. Alcançou maior protagonismo na entidade ao liderar o Comité de Mulheres e Cultura, onde realizou “muitos eventos interessantes”.

Para perceber os caminhos que pretende seguir nesta nova jornada associativa e empresarial, numa das mais importantes Câmaras Portuguesas do mundo, conversamos com Karene Vilela, que destacou os projetos nos quais está a trabalhar. A actual presidente da Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo ressaltou o esforço da entidade na interação comercial entre Brasil e Portugal, sublinhou aspetos comerciais e de relação entre os dois países e mencionou que papel pretende desempenhar sendo uma líder, no feminino, neste novo cargo.

Como vê a sua chegada à Presidência da Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo?

Vejo como um grande statement da Câmara. A nossa Câmara sempre respeitou muito as tradições, mas teve sempre um DNA de muita inovação. Na pandemia, destacou-se entre as câmaras europeias, liderando eventos online e realizando muitas atividades no ambiente digital, mesmo com todas as dificuldades que o mundo viveu.

Estar na presidência hoje demonstra que a Câmara quer passar uma mensagem de juventude, diversidade, futuro, mas nunca esquecendo os passos que já trilhamos para chegarmos até aqui.

O facto de ser uma mulher a gerir uma das principais Câmaras de Comércio portuguesas no mundo, que responsabilidades lhe trazem?

Eu vejo que o papel de presidente da Câmara deveria ser igual para qualquer género, raça e orientação. No entanto, é inegável que nós, mulheres, precisamos de nos provar, pelo menos duas vezes mais, para estarmos na posição em que estamos. O machismo estrutural é silencioso, mas implacável.

Estar como presidente da Câmara hoje tem o bónus de abrir portas para mais mulheres seguirem os meus passos no futuro. No entanto, sei que o holofote e a pouca margem para errar são o destino de uma mulher numa posição como esta. Vou dar o meu melhor para que os acertos sejam portas abertas para mais mulheres pertencerem e que os erros não sejam motivo para generalizar quem somos como mulheres.

Qual a sua ligação a Portugal?

A minha ligação começou com os vinhos e foi em Portugal que comecei a minha carreira vínica. Depois de alguns anos, descobri os meus antepassados que habitaram os Açores e, a cada dia, descubro mais ligações com a terrinha.

Como avalia a conexão entre Brasil e Portugal do ponto de vista comercial e económico?

Brasil e Portugal, na minha opinião, sempre tiveram e sempre vão ter uma conexão comercial forte. Temos a cultura e a língua muito similares. Além disso, ambos os países têm um capital intelectual importante para aportar nas relações comerciais bilaterais.

Que papel tem desempenhado, neste sentido, a Câmara Portuguesa de São Paulo?

Atualmente, tenho investido bastante na autonomia dos comités de trabalho da Câmara. Temos comité de relações internacionais, jurídico, mulheres e cultura, associados, e a ideia é começarmos um comité de novos negócios que esteja focado no desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países.

As interações que a Câmara faz entre os associados já geraram centenas de negócios entre empresas brasileiras e portuguesas e o objetivo é continuarmos o bom trabalho que está a ser bem feito.

Que áreas de negócio são, neste momento, de importante atenção para os empresários portugueses que desejam investir no Brasil?

Sem dúvida alguma, a transformação digital e a economia verde. Existem milhares de oportunidades entre startups portuguesas e brasileiras, e muitos investimentos no setor de energias renováveis, economia circular e o futuro da economia verde.

No caminho contrário, que interação cria a vossa Câmara entre o mercado brasileiro e o português?

Muitas indústrias (farmacêutica, pet, alimentos, desinfetantes) procuram Portugal como porta de entrada para os seus produtos na Europa. Testar produtos brasileiros, em Portugal, para depois escalar para toda a Europa é uma prática comum para a indústria, uma vez que pode contar com a língua, dimensão do tamanho e entendimento mais prático das legislações.

Que agenda pretende executar agora que está a liderar a entidade e que ações estão previstas para os próximos meses?

Quero incluir na nossa agenda mais espaço para as startups e trazer mais transformação digital e IA para as nossas pautas. Estamos vivendo um momento único de revolução na forma de trabalho e de como fazer negócios e pretendo deixar os nossos associados mais informados sobre essa revolução.

A diferença da cultura empresarial entre Brasil e Portugal tem colocado dificuldades no processo de investimento mútuo entre os empresários das duas nações?

Com certeza existem algumas diferenças culturais entre os brasileiros e os portugueses, mas eu ouso dizer que Portugal é, com certeza, o país na Europa que tem a forma de interagir e pensar nos negócios mais parecida com a dos brasileiros. Temos milhares de brasileiros vivendo em Portugal e o mesmo acontece aqui – milhares de portugueses empreendendo no Brasil.

Hoje, vejo pouca dificuldade cultural para empreendermos juntos. Onde existe respeito e admiração mútua, as dificuldades são mais facilmente ultrapassadas e o que vejo entre Brasil e Portugal é isso: respeito e admiração, apesar de problemas isolados que, às vezes, são noticiados.

Qual a vossa relação com as demais Câmaras portuguesas, no Brasil, e com a Federação das Câmaras no país?

Somos bastante próximos e trabalhamos constantemente juntos. A Federação abre portas para discussões e soluções comuns. Com certeza, existem associados nossos que fazem parte de outras câmaras portuguesas, no Brasil, por conta dessa interação constante.

E quem é Karene Vilela?

Enófila por paixão, Karene Vilela é publicitária formada pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Imersa nos vinhos pela ABS (Associação Brasileira de Sommeliers) e sommelier formada pela Court Master Sommelier (@court_of_ms_europe). É detentora do título DipWSET (Nível 4 da escola Wine & Spirit Education Trust @wsetglobal), certificada pela Wine Scholar Guild (SWS, IWS e FWS) e CEO da Portus Cale (@portuscalevinhos). Além disso, é sócia idealizadora do projeto Got Wine? (@gotwinesp) e educadora da WSET na The Wine School Brasil (@thewineschoolbrasil). Atualmente, é uma das poucas brasileiras que ingressou no Instituto Master of Wine (@masterofwine).

Por fim, de que forma pretende atuar junto da Câmara e desenvolver ações concretas de aproximação empresarial entre Brasil e Portugal?

A minha atuação vai ser marcada por muita cooperação e protagonismo de quem mais importa para nós, que é nosso associado. Vejo a minha atuação com muita colaboração e empenho de todos para que as relações de negócios aconteçam propriamente.

Ígor Lopes

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