Entrevista | São Tomé e Príncipe

“Se a doença é nova, não há nenhuma planta medicinal que tenha sido testada para essa mesma doença” – Maria do Céu Madureira, cientista

Maria do Céu Madureira, Investigadora, Doutorada no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, tem-se dedicado há mais de duas décadas “ao trabalho de uma vida”, em São Tomé e Príncipe. O seu trabalho de pesquisa, recolha e aprendizagem “com os verdadeiros terapeutas tradicionais”  na preservação e protecção de conhecimentos ancestrais que estavam em vias de desaparecer, é um trabalho que nunca acaba, mas que tem sido recompensador “a todos os níveis”. No entanto, perante o surgimento do novo SARS, as ameaças são mais do que muitas pelo surgimento de “remédios miraculosos” que ameaçam romper a ponte criada entre “a medicina tradicional e a medicina convencional”. Situações como estas só podem ser combatidas através do “conhecimento e formação de cientistas nacionais”.

 

Por Ana Gonçalves

 

Maria do Céu, antes de mais é especialista em etnofarmacologia? Do que trata esta ciência?

No fundo, é uma ciência que estuda a relação entre os homens e as plantas que têm uso terapêutico em diferentes etnias, diferentes lugares, em todo o mundo. Portanto, esta relação entre a medicina, o homem e a natureza,  esta trilogia, está associada a conceitos filosóficos, a conceitos de medicina tradicional, que variam com as culturas e com a forma como os homens se relacionam com a natureza nos diversos pontos do mundo. Esta ciência pretende relacionar esse conhecimento e, de alguma forma, depois tirar proveito para a humanidade destas ligações tradicionais e ancestrais para construir uma base científica que credibilize o uso terapêutico de determinadas plantas e outros compostos.

 

E é essa busca pela cientificidade que tem sido a base do seu trabalho ao longo destes últimos anos?

Sim, eu comecei aqui, em São Tomé, em 1993, vim com uma colega farmacêutica, Ana Paula Martins, no âmbito de uma bolsa de doutoramento da actual FCT. Viemos fazer uma  colaboração entre a Universidade e o Ministério da Saúde local, para fazermos a recolha de conhecimentos tradicionais  e o estudo da etnofarmacologia de algumas das espécies que nos parecessem mais importantes para obtermos outro tipo de estudos.

 

E como é que surgiu esta escolha por São Tomé em específico?

Foi num congresso em Lisboa onde conheci um farmacêutico santomense, o Doutor Sardinha e fiquei tão apaixonada pela comunicação dele naquele congresso de farmácia de países lusófonos, em que ele falava da riqueza das plantas medicinais do seu país, como já tinha feito algumas recolhas, mas era o único farmacêutico da ilha,  sentia-se um pouco isolado na tentativa de recuperar essas tradições orais dos terapeutas tradicionais e gostaria muito de estabelecer pontes de ligação com universidades que lhe dessem uma ajuda neste contexto. A história é esta, foi assim que tudo começou.  O trabalho inicial foi mais de recolha, começámos a aperceber-nos logo, desde logo, que a medicina tradicional estava em vias de desaparecer, porque os mais velhos tinham cada vez menos hipóteses de passar os seus conhecimentos às gerações seguintes. Numa primeira fase, acabámos por fazer uma rede muito importante de contactos, que queriam partilhar o seu saber. Foi um trabalho muito, muito interessante, porque nos foi dada a oportunidade de trabalhar na natureza, com personalidades extraordinárias, foi muito enriquecedor do ponto de vista de experiência pessoal e profissional, foi muito bom.

 

Esse trabalho ainda continua a ser feito nos mesmos moldes?

Agora estou numa componente ligeiramente diferente, mas continuo envolvida com plantas medicinais. Mas toda esta fase inicial foi muito importante, porque foi o construir de uma relação sólida, não é fácil conseguir que as pessoas confiem em nós, que nos passem segredos e que queiram que eles fiquem disponíveis. Isto é um ato voluntário, não há nada que possamos fazer, nem pagar, até porque, na altura, era bolseira e não tinha essa possibilidade, então, a retribuição que sempre fizemos, foi baseada no conhecimento recíproco. Por exemplo, para eles foi muito interessante descobrir que havia plantas que eram destinadas para certos fins que as indústrias farmacêuticas já estavam a desenvolver há alguns anos ou então informações sobre o grau de toxicidade de certas espécies. A maior parte dos verdadeiros terapeutas tradicionais tem muito cuidado, empiricamente sabem que há plantas que não podem dar a uma criança ou a uma grávida, mas têm sempre a dúvida do porquê de isso acontecer. Eles têm o conhecimento ancestral que lhes é passado, também já testemunharam esta toxicidade, mas acaba por ser algo extremamente útil para eles conhecer essas ações  secundárias.

Acho que uma ponte que é feita à base de troca de informações, que é útil para os dois lados, é algo sólido, que foi construído ao longo de muitos anos e com uma presença constante. A etnofarmacologia é uma ciência que necessita da nossa disponibilidade total e de vivermos no seio da cultura que estamos a estudar, caso contrário nem sequer percebemos muito bem o que se está a passar e podem ser passadas informações que não são as corretas. Eu tenho tido o privilégio de estar há muitos anos a trabalhar numa mesma sociedade, que conheço relativamente bem, sem grandes crises humanitárias, guerras e isso também ajudou na realização deste trabalho, que é o trabalho de uma vida.

 

Na atualidade, vivemos esta situação de crise pandémica e como é que esta ciência, atendendo à sua relevância, não é mais divulgada ou acarinhada?

Só para perceber um bocadinho, o sistema nacional de saúde de São Tomé é de facto frágil e está ainda mais fragilizado perante esta situação de pandemia, porque não consegue resolver as situações que vão surgindo, em termos de capacitação para esta situação, o que torna ainda mais frágil a tomada de decisões, o pensar nas vertentes todas e nas ajudas todas.

No projecto que estou agora a coordenar- o Projeto Tesouros D`Obô, que é um projecto financiado pela União Africana e visa a implementação de sistemas agro-florestais bio-diversos e o uso sustentável de produtos florestais não  lenhosos como formas de melhorar a vida e a sustentabilidade, quer das comunidades, quer dos sistemas florestais, está a ser desenvolvido em 4 comunidades distintas da Zona–Tampão na ilha de S.Tomé: Plancas I e Praia das Conchas, na zona norte/centro, no distrito de Lobata e, depois, numa zona mais interior e montanhosa temos duas comunidades, a comunidade da Saudade e a comunidade de Abade, no distrito de Mezóxi. Em cada um destes sítios temos vindo a trabalhar com alguns grupos de empreendedores comunitários que vão desenvolver micro-negócios baseados em recursos naturais específicos de cada região, uma vez que temos nas 4 comunidades envolventes microclimas e ecossistemas diferentes.

Por exemplo, nas comunidades da zona norte, temos uma zona de savana, mais seca, com produtos característicos dessa zona, que não existem nas outras (como o Tamarindo ou o Imbondeiro); nesta área deparamo-nos com um sistema de degradação dos solos devido às queimadas e à produção insustentável de carvão. Já nas zonas mais montanhosas temos outro tipo de situações: na Saudade há uma busca por plantas medicinais que é insustentável, ou seja, que já está a pôr em perigo a existência de determinado tipo de espécies medicinais e na zona de Abade existe abate ilegal de árvores. Enfim, nós temos estes problemas e temos de ter soluções. Em conjunto com as comunidades, vimos que potencialidades é que se poderiam obter destas áreas florestais, desenvolvendo produtos de qualidade, aliados a uma marca nacional forte, associada ao respeito pela natureza e conhecimentos tradicionais que pudessem também ajudar as populações a sair de um estado economicamente desvantajoso e fragilizado.

 

O projecto está a avançar a bom ritmo?

Neste momento está tudo parado. Mas antes disso acontecer como já prevíamos que a situação se pudesse desenrolar nesse sentido, organizámos sessões de esclarecimento nestas comunidades sobre a temática da Covid 19, em que provavelmente fomos os primeiros a distribuir máscaras, a falar com toda a gente, depois agarrámos em plantas que existem em cada uma destas comunidades e vimos que poderiam ser utilizadas para reforçar o sistema imunitário, em conjunto com uma alimentação regrada, para fazer face a uma possível infecção. As pessoas das comunidades ficaram entusiasmadas e se não houvesse esta situação, talvez estes pudessem ser os primeiros produtos a serem comercializados, com uma informação etnofarmacológica por trás que lhes dá garantias de segurança e eficácia, com dados fidedignos de atividades farmacológicas sólidas.

 

Estas plantas podem de algum modo impedir ou mitigar os efeitos da Covid 19?

Nós temos de saber passar esta informação, devemos respeitar os conhecimentos tradicionais, mas aliá-los à medicina convencional. A medicina tradicional é muito importante, devemos respeitar os medicamentos tradicionais, contudo se a doença é nova, não há nenhuma planta medicinal que tenha sido testada nunca para essa mesma doença. Aquilo que nos dá segurança no sistema tradicional, é o facto de certas plantas serem usadas ao longo de muitos anos e mesmo não havendo ensaios clínicos, sabemos que essas plantas são seguras, porque já são usadas há dezenas, centenas ou milhares de anos pelos homens. É esta mesma segurança que faz com que a OMS tenha estipulado para este tipo de medicamentos tradicionais metodologias de aprovação diferentes e mais simplificadas, relativamente às necessárias aos novos medicamentos convencionais.

Agora, o que tem surgido por esse mundo fora são novos produtos baseados em plantas tradicionais, essas sim usadas tradicionalmente, mas para outras circunstâncias de saúde e, que, neste momento, se diz que podem curar o Coronavírus ou podem fazer face à sintomatologia da doença. E nisso, eu já sou mais cética.

 

Cética em que medida?

A minha formação como farmacêutica, cientista e especialista nesta área já me leva a dizer, “não, atenção, isto já não são medicamentos tradicionais!” Se eu junto, como é o caso de Madagáscar, uma planta que é realmente, tradicionalmente, usada na China há milhares de anos, para o tratamento de febres e no tratamento da malária, com outras duas plantas diferentes e das quais não sabemos o grau de toxicidade, porque é uma mistura nova, que nunca foi usada antes, já não poderemos dizer que estamos perante um medicamento tradicional e, neste caso, não se podem usar os mesmos métodos simplificados de reconhecimento de medicamentos tradicionais. Tem de percorrer todas as fases dos ensaios clínicos. Ninguém nega que não possam ser eficazes, mas parece-me que houve ali um atropelo da área científica pelos políticos. Todos nós gostaríamos de dar um contributo e de fazer algo que ajudasse a travar esta pandemia, mas não o podemos fazer à base de oportunismos, há notícias que medram num ambiente de desespero.

 

E isso pode pôr em causa a credibilidade da medicina tradicional?

Sim, se não houver este carácter científico, a resposta da medicina convencional é imediatamente não.

 

Estamos actualmente em dois campos separados, de um lado medicina convencional do outro medicina tradicional?

O conhecimento não tem raça, fronteira, nem deve ser transformado em fações. Acho que é uma afirmação triste quando se põe tudo nesses termos. Ideias boas são sempre boas em qualquer parte do mundo para um bom cientista. Acho um absurdo que se limitem descobertas científicas nesses termos. Eu sou totalmente contra o ceticismo puro, sou cética em relação a oportunismos ou obscurantismos por si só. Já relativamente a São Tomé, a situação não está muito boa do ponto de vista daquilo que tem vindo a surgir como remédios miraculosos. Existem duas situações onde eu ponderei muito se deveria tomar uma posição pública ou não, talvez porque toda a minha vida quis ser um elo de ligação entre a medicina tradicional e a medicina convencional. Mas por respeito àquilo que é a verdadeira medicina tradicional, não poderia ficar em silêncio.

 

Essa situação entristeceu-a de alguma forma?

Sim, muito! Apareceram dois maus exemplos, dois casos daquilo que não deve ser a medicina tradicional e quem deveria contrapor essa realidade a nível nacional não o fez. Surgiu recentemente em São Tomé um produto feito com 4 plantas medicinais, oportunamente, denominado xarope COVID 19. Uma das principais plantas deste preparado é uma planta cujo nome vulgar local é “Atlimija”, mas que não é a artemísia usada no medicamento de Madagáscar, Artemisia Annua, nem sequer é uma outra espécie de Artemísia. E é utilizada geralmente como antiparasitário… isto é um erro grave, que não pode ser deixado passar em branco sem um alerta pois pode ter consequências graves para a saúde pública se for utilizada em grande quantidade. É importante que se diga que um médico tradicional não é um investigador, um cientista. Um médico tradicional baseia o seu tratamento- que aplica aos seus doentes- em conhecimentos ancestrais e, para mim, isto que se está a passar agora é tudo menos medicina tradicional, é uma experiência. Mistura-se estas plantas, erradamente e se há uma sobredosagem, por exemplo, de quinino (pois uma das outras 4 plantas é a Quina), é extremamente grave. Está a enaltecer-se algo sem sequer se fazer pesquisa, sem haver uma opinião técnica e, para além de tudo isto, é um medicamento caro. Não faz ideia dos emails que recebo diariamente com dúvidas, de pessoas que estão a fazer chás em casa e a automedicarem-se.  Depois, há ainda uma outra situação, a de uma fábrica que produz bebidas alcoólicas a partir de cana de açúcar, que começou a fazer a produção de um medicamento à base de  uma outra planta medicinal, para tratar síndromes repiratórias, sem qualquer autorização oficial e ao qual se denominou muito oportunamente, “Vacina Oral”.

 

Há uma grande falta de conhecimento sobre estes temas?

Sim, sem dúvida… isto são óbvias táticas de oportunismo. Eu não gostaria de maneira nenhuma que a medicina tradicional saísse descredibilizada. Há milhares de plantas que são usadas há milhares de anos, mas este aproveitamento económico da situação, em que há um aproveitamento da falta de conhecimento da população, vai minando o papel da medicina tradicional. Já houve situações semelhantes com o HIV, que tiveram a intervenção das autoridades. Agora a situação volta a repetir-se, já é uma reincidência e já não posso acreditar que isto seja feito com ingenuidade.

 

A OMS deveria ter uma posição mais forte neste tipo de situações?

A OMS estava a ser atacada por todas as frentes, porque realmente não se comportou lindamente desde o inicio até ao fim desta pandemia. O facto é que tentou também dizer que tem apoiado muito a inserção da medicina tradicional nos sistema de saúde, principalmente em África. A OMS emitiu um comunicado afirmando que estaria disponível para apoiar estudos da medicina tradicional, mas, alertou também para a grande possibilidade de aparecerem este tipo de remédios milagrosos, que não tinham quaisquer evidências científicas que comprovassem a sua eficácia e segurança. No entanto, esta informação não foi suficientemente veiculada, porque estavam a ser atacados em várias frentes…

 

Há formas mais rápidas de conseguir que esta contra-informação não se espalhe com tanta facilidade?

É essencial que se invista na formação de cientistas nacionais, que se possa equipar um bom laboratórios e que se comece a credibilizar cá dentro. Se houver uma investigação feita por técnicos nacionais, vai haver mais respeito. Mas já se está a trabalhar nesse sentido, uma parte do financiamento do nosso projecto vai ser canalizado para isso. Eu acho que é essencial que existam laboratórios nacionais que façam boa formação, que se invista para credibilizar cá dentro. Se esta investigação for feita por técnicos, vão haver mais vozes e pode-se equipar um bom laboratório. Uma parte do meu projecto vai servir para isso mesmo, para arranjar mais equipamentos, que são caros. É muito importante conhecermos a realidade do país, para que não haja medo em contrariar, tem de haver um assumir de verdades, que é fundamental! O que tem faltado também aqui é ouvir a classe médica, ouvir os santomenses sobre como lidar com todas as vertentes da economia com uma linguagem simples que pudesse esclarecer toda a população, deveria ouvir-se mais a população científica.

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