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Líbia: “Temos de resistir à voracidade das potências estrangeiras”, diz Khaled Kaabar líder da katiba 411

Antigo oficial superior do exército de Muammar Kadhafi, foi também um dos militares do circulo próximo de Khalifa Haftar, a quem abriu as portas de Tripoli em 2011. Khaled Kaabar, 51 anos, natural de Jaddou na Líbia, é o líder da Katiba 411 encarregada pela manutenção da segurança na complexa fronteira no sul da Líbia.

e-Global: Desde 2011 que a Líbia tem mergulhado num caos. Como responsável da Katiba 411, e com base na experiência que teve junto de Khalifa Haftar, como caracteriza as forças do Exército Nacional Líbio?

Khaled Kaabar : O exército de Khalifa Haftar é um amontoado de soldados oriundos de diversos horizontes que, nas circunstâncias actuais, são obrigados a prestar fidelidade a Haftar. O envolvimento destes militares não está todavia assente em convicções pessoais, mas no dinheiro que vão receber. Assim, não acreditam nessa causa, que não é a deles. Quando as convicções são supérfluas, sugere que são mercenários e consequentemente a força da persuasão é inexistente.

Acredita que Khalifa Haftar poderá conquistar Tripoli?

Acredito que sim, tendo em conta que as potências que o apoiam, entre as quais os Emirados e o Egipto, estão a tomar vantagem às que apoiam o Governo de união nacional em Tripoli. Haftar é um homem que eu conheço muito bem, estive com ele durante três anos. Fui eu que lhe abri as portas de Tripoli quando ele não tinha qualquer carisma. Mas quando Haftar decidiu utilizar a força para afirmar-se à cabeça de um exército que ele mesmo denomina exército árabe líbio. Sendo amazigh, decidi afastar-me porque não me reconhecia nessa estrutura que, supostamente, deveria agrupar e unir todos os líbios. É uma opção que continuo a opor-me firmemente, e estou convicto que a última palavra será nossa, tendo em conta que assentamos a nossa acção em convicções racionais e nada poderá nos desviar da nossa lógica combativa, até à vitoria.

Essa atitude é semelhante à que tomou quando decidiu deixar Kadhafi em 2011 e juntar-se aos combatentes na rua que lutavam pela sua queda.

Sim, de facto. Mesmo durante a minha permanência na esfera de Kadhafi tive sempre um comportamento, de certa forma, separatista amazigh, e era o único oficial de língua materna tamazight. Quando encontrei opositores ao regime, falava com eles em tamazight, o que os surpreendeu muito. Decidi então passar para o lado dos combatentes que consideravam prioritária a queda do regime de Kadhafi. A determinação e o altruísmo deram os seus frutos, mas a luta de interesses e a ingerência das potências estrangeiras nos nossos assuntos acabaram por disseminar uma imagem alarmista do nosso combate de libertação.

Está encarregado de garantir a segurança das fronteiras no sul da Líbia, certamente que faz face a várias dificuldades, tendo em conta a complexidade do terreno e a situação na Líbia.

Sim, a situação é das mais complicadas devido ao enorme conjunto de interesses das forças que estão em conflito, e que lutam por um lugar no topo do aparelho do Estado. Este ambiente facilita a porosidade das fronteiras que consequentemente atrai organizações mafiosas que operam e trabalham com grupos armados, de todo o tipo de origens, assim como facilita vagas de aventureiros que entram e saem nas diferentes regiões fronteiriças.

Considera-se um homem político ou um militar no terreno?

É a situação no terreno que obriga-me a unir as duas posturas, particularmente quando testemunho a minha comunidade ser marginalizada e a negociarem tudo sem terem em conta as nossas opiniões. Como oficial do exército tenho de defender a causa da minha comunidade mas também das várias comunidades que compõem a sociedade líbia, independentemente das suas origens. Foi precisamente esta postura que levou à criação da minha katiba, que trouxe ao território que cobrimos um pouco de estabilidade e calma. Graças aos nossos homens, e ao equipamento que dispomos, conseguimos manter a ordem, mas estamos sempre desconfiados sobre o que o futuro nos pode reservar. A Líbia é um país muito rico, o que desperta o apetite e a voracidade das potências estrangeiras que disputam entre si a partilha do bolo líbio. Mas nós não vamos deixar que isso aconteça, por esse motivo vamos prosseguir com a resistência para poder continuar a existir.

KR/RN

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