Entrevista | Exclusivo

Martin Ziguele, um candidato que pretende abraçar o futuro da RCA

Martin Ziguele (MZ), nascido em 1957 é o presidente do partido político Movimento de Libertação do Povo Centrafricano (MLPC), já foi primeiro-ministro e é o atual candidato às eleições presidenciais de 2015, pelo MLPC, e pretende abraçar o futuro do seu país, República Centro-Africana (RCA), apostando, para isso, na reforma das forças de segurança e na formação dos jovens.

E-Global – Fale-nos da questão da segurança na RCA.

Martin Ziguele – A situação securitária do nosso país, sobretudo em Bangui, conhece melhorias notáveis mas não se passa o mesmo no resto do país. Infelizmente nos últimos tempos assistimos a atos de violência num bairro muçulmano, em Zagba na região de Bassa Kotto. Esses terríveis episódios que conduzem à perda de vidas humanas mostram que o nosso país se encontra debaixo de golpes duros de bandidos armados, de rebeldes, e que a segurança não está totalmente assegurada.

Ziguele é um socialista. A sua candidatura é apoiada pela França?

É uma questão que vejo surgir habitualmente na imprensa e nas redes sociais, e eu creio que é uma iniciativa dos meus adversários às eleições presidenciais que pretendem apresentar-me como um candidato pela França. Eu quero esclarecer e lembrar aos centrafricanos que é um desafio que nós temos desde 1991, em que são os centrafricanos que votam e que escolhem, eu jamais vi um avião chegar com um milhão de franceses para substituir as filhas e os filhos deste país para votarem no meu nome. Assim sendo, eu penso que não devemos distrair os centrafricanos com argumentos “ad hominem”, ou seja, com argumentos que descredibilizem uma pessoa. Em 2005 fui eu que trouxe os Bayamoulegue (soldados de Jean Pierre Mbemba), em 2012-2014 fui eu quem trouxe os Seleka (coligação hostil ao Governo), e hoje os meus adversários dizem que sou apoiado por França. Acredito que, aqueles que o dizem, procuram ser apoiados por França, o que não conseguiram.

Sob o regime de François Bozize, a França voltou as costas no último momento à RCA, mas hoje procura as vias e os meios para tecer esta relação consigo. Pode explicar-nos?

Eu ignoro que a França procure estabelecer uma relação comigo, eu não sou nem chefe de estado, nem primeiro-ministro, sou um simples cidadão e eu não penso que a França queira fazer acordos com um indivíduo, mas talvez queira fazer com um Estado. Nas ligações entre a República Centro-Africana e a França não se estabelecem ligações com um indivíduo; as ligações são entre Estados.

Ziguele é acusado de ter relações de cumplicidade com os Seleka mas hoje pratica o método de Pilatos. Pode dizer-nos se está implicado nestas relações?

Vou responder a essa questão tal qual a penso. Desde 2013 que sou regularmente acusado por Tiangaye Nicolas, presidente da Convenção Republicana para o Progresso Social (CRSP), de sermos aqueles que introduziram a Seleka no país ou financiaram este movimento, mas eu recordo que existe um princípio de direito que toda a gente conhece em democracia. Quando alguém é acusado deve haver provas que sustentem essas acusações. Apoiar uma rebelião quer dizer o quê exatamente? Que eu participei em reuniões para colocar em palco os Seleka? Tenho um passaporte centrafricano e não tenho outra nacionalidade que não seja cantrafricana e não possuo dois passaportes; o meu passaporte está à disposição das autoridades centrafricanas e das autoridades judiciais; eles verificarão se eu estive onde eles pensam que os Seleka se reuniram para se constituir. Para fazer uma rebelião são necessárias armas, é necessária uma verdadeira fortuna, o que quer dizer que existem transações financeiras, então se eu financiei os Seleka existem certamente provas do meu financiamento ou de transferências. Por outro lado, para se fazer uma rebelião são necessários homens, então deve perguntar-se à Seleka se eu forneci homens ou se esses homens dizem que fui eu quem os recrutou. Eu estou numa situação de um acusado a quem se pede que obtenha a prova da sua inocência e isto é um contratempo jurídico e histórico. Eu lembro a todos aqueles que alimentam este género de rumores que eu os convido já há dois anos a irem ao Tribunal Penal Internacional (TPI), para que se investigue todos os crimes cometidos na RCA e mesmo crimes contra a humanidade. Todas as acusações devem ser entregues no TPI, todas as informações e todas as provas de que dispõem devem estar ao serviço do TPI. Nós saudamos a criação do tribunal penal na RCA, em Bangui, e eu convido todos os que pensam ter provas contra mim para irem depor em tribunal. Eu não sustento aqueles que repetem mil vezes uma mentira para se tornar verdade contra um cidadão. Há muito tempo que solicito um debate televisivo sobre os Bayamoulegue e até ao presente foi recusado. Hoje acusam-me de ser candidato por França mas sempre sem provas.

Ziguele foi primeiro-ministro sob o reinado de Ange Félix Patasse, na altura dos atrasos salariais dos funcionários e agentes do Estado. Isso não constitui um obstáculo para si e para o partido MLPC?

Quando fui nomeado primeiro-ministro a 01 Abril de 2001, o Estado centrafricano já se debatia com 24 meses de salários em atraso. Durante os meus 23 meses a liderar o Governo eu paguei todos os salários dos meses correspondentes à minha presença no Governo. Não se trata de uma afirmação, qualquer pessoa pode verificar ao nível do tesouro público. Eu não tive um cêntimo de ajuda orçamental exterior, nem de financiamento exterior, e durante os 23 meses e 15 dias eu paguei 23 meses de salários. A 15 de Março de 2003 preparava-me para proceder ao pagamento do mês de Março e foi por isso que o novo regime, assim que tomou posse, teve a possibilidade de pagar imediatamente o mês de Março.

Atualmente a RCA não dispõe de soldados nas suas fronteiras e as forças não-convencionais aproveitam para desestabilizar o país. Como pensa gerir estes problemas em caso de vitória?

A situação na qual se encontra o nosso país é a consequência direta do desinvestimento nas nossas forças de defesa e de segurança, a recusa de seguir o programa de reforma de segurança que foi adotado depois de 2008 e a recusa ou a quebra de fundos que estava alocada ao Desarmamento, Desmobilização e Reinserção (DDR) para permitir a segurança do país. Consequentemente, temos de reformar o setor da segurança, que permita ter um Exército nacional centrafricano operacional e guarnições presentes ao longo de todo o território nacional e ter forças de polícia que garantam a segurança interior, ter um quadro penal e justiça que constitua o garante da segurança ao nível da justiça e ao nível das prisões. Conceber uma estrutura que percorra as forças armadas até à justiça e prisões, alfândegas e outros. É este o coração do nosso projeto político, o coração da nossa ação política se o povo centrafricano nos der o seu voto de confiança. Se um país não tiver a sua segurança garantida, tudo aquilo que se investir em desenvolvimento não terá retorno, tal como mostram os acontecimentos passados. O país foi destruído porque não tinha proteção, não tinha o sistema de segurança estruturado, e para construir um país de forma sustentada é necessário ter as forças armadas profissionais representativas de todas as sensibilidades nacionais, o Exército deve ser independente e representativo de todas as etnias. Devemos tirar lições do passado para conceber uma política de reforma no setor da segurança, que não se limita a um mandato positivo mas que se pense para durar, procurando o consenso político centrafricano a fim de estabelecer a segurança da nação como uma política de prioridade. Como nos EUA, em França, na Alemanha, onde a segurança do país é a preocupação principal.

Fale-nos do seu ponto de vista em relação ao voto dos refugiados centrafricanos.

Há uns dois meses o MLPC, através de um comunicado, afirmou a sua posição, em que declarou que o partido defende o voto dos refugiados por razões bastante simples. Nós somos um partido político, nós trabalhamos para a reconciliação e união, e temos consciência que os acontecimentos que se produziram no nosso país provocaram a saída de milhares de compatriotas contra a sua vontade para fugirem à morte, procurando asilo, sobretudo, em países vizinhos. Estas pessoas têm o direito de exercer o seu dever cívico e constitucional. É necessário colocar em marcha um processo de verificação de nacionalidade de todos, e assegurar os meios aos partidos políticos, numa base igualitária, para se deslocarem até aos refugiados de modo a fazer passar a mensagem política de cada um dos candidatos, para que possam votar em nós em consciência.

Como vê o trabalho das forças internacionais (Sangaris e Minusca) presentes na RCA?

Eu penso que nós teríamos capacidade para resolver os problemas por nós próprios. Se a crise centrafricana fosse simples nós dispensávamos a presença das forças internacionais. Se nós fizemos um apelo de ajuda das forças internacionais, isso prova que a nossa crise é difícil, complexa. É necessário reconhecer que a intervenção das forças internacionais e da ONU permitiram ao nosso país não ficar esquecido ao ponto de chegarmos a uma somalização da RCA.

Uma última palavra antes de prosseguir a campanha.

60% da população centrafricana são jovens com menos de 20 anos, eles têm necessidade de fazer os seus estudos, de aprender um ofício, necessidade de ter um emprego e fundar uma família como nós o fizemos. Nós pudemos fazê-lo na nossa época porque a república tinha paz, e agora a nossa responsabilidade é devolver essas garantias aos jovens, fazer tudo para que os jovens de hoje ajudem a construir um melhor presente com os olhos postos no amanhã.

Ngonzo Israel, Correspondente em Bangui 

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