Entrevista | Exclusivo

Nene Barry : “África esteve amordaçada durante séculos, temos de dar tempo aos africanos para recuperarem”

Nene Barry

Nene Barry conhece bem a realidade africana. De origem senegalesa, eleita Miss Dakar-Senegal em 1982, Nene Barry vive nos Estados Unidos, sendo um dos quadros do partido Democrata. Nos EUA criou a African Bridge Trading House que promove a implantação das empresas africanas no mundo e dinamiza a interacção desta rede planetária de empresas. Nene Barry insiste em prosseguir o seu “combate” na promoção dos potenciais empresariais africanos como meio de travar a fuga de cérebros do continente, assim como fomentar as relações entre as dinâmicas na Diáspora e no continente. Uma iniciativa que para Nene Barry pode contribuir no processo de democratização em curso nos países africanos e no combate à pobreza.

e-Global: Muitos africanos pensam que a solução para os seus problemas surgirá na diáspora africana, a qual absorve valores Ocidentais assentes na democracia e no respeito da dignidade humana. Como faz parte da diáspora, qual é, a seu ver, o remédio do sucesso?

Nene Barry: Sim, todos nós sabemos que a diáspora envia somas importantes para África a fim de ajudar as suas famílias mas também para pôr em prática projectos. A diáspora contribui de forma significativa na economia africana e consequentemente na redução da pobreza. Por esse motivo, os Estados deveriam encontrar um sistema de bonificação para os projectos produtivos financiados pela diáspora a fim de atrair e encorajar mais investimentos.

De facto a diáspora tem a experiência de dois mundos, do Ocidente e do país de origem. As suas experiências e as suas redes podem ser uma mais-valia para África. Assim, acredito que é necessário dar prioridade à diáspora e criar um tipo de balcão único vocacionado para a diáspora, em que esta poderá ser aconselhada e apoiada.

A aplicação da real da democracia em África tem sido problemática. Um número significativo de países africanos vão ter eleições presidenciais e legislativas durante 2019. Qual é a sua opinião sobre o que está em jogo nestes escrutínios e o que pode advir destas eleições?

Queiramos reconhecer ou não, África está a mudar, lentamente mas firmemente. A democracia está a construir o seu caminho em África.

As pessoas são muito impacientes. Toda a gente esquece que os países europeus levaram séculos até conseguirem atingir o molde de democracia que têm hoje. Não quero lançar o debate sobre os enormes meios, e quase gratuitos, que eles tiveram à sua disposição a partir das colónias. A África esteve amordaçada durante séculos, temos apenas de dar agora tempo aos africanos de recuperarem.

Brevemente vão ter lugar no seu país de origem, o Senegal, as eleições presidenciais. Qual é a sua expectativa para estas eleições?

Eu apoio vigorosamente o presidente cessante, que em sete anos levou a cabo acções e obras importantíssimas. Penso que ele está no caminho certo e que deveria ainda prosseguir durante um segundo mandato de 5 anos. Esta é a minha opinião.

A sua experiência na política, tendo em conta que é um quadro no partido Democrata nos EUA, pode a propulsar e a lançar para o topo da arena politica. Qual é a sua ambição política nos EUA?

Nas últimas eleições nos Estados Unidos fui responsável da organização do meu distrito. Fiz parte de uma equipa extraordinária e os Democratas venceram no meu condado. Mas não estava interessada em ser presidente, caso seja essa a sua questão.

Muitos dizem que os dirigentes africanos são peões do Ocidente. Assim como defendem que a missão destes dirigentes é mergulhar o continente na incerteza e servir os interesses das antigas potências coloniais. Acredita que isto pode mudar pacificamente?

Não acredito que os dirigentes sejam peões do Ocidente, a realidade é que o Ocidente não lhes permite que eles assumam as suas responsabilidades. Eu já dissera que a democracia está a seguir o seu caminho em África. Temos tendência a esquecer depressa os dramas que assolaram a Europa, tal como na antiga Jugoslávia, apenas para citar um exemplo. No entanto os dramas que acontecem em África permanecem como clichés durante decénios.

Durante 2011 muitos dirigentes norte-africanos foram forçados a deixar o poder de forma humilhante. Tal como aconteceu a Kadhafi, que foi morto de forma atroz. Acredita que a vontade dos povos pode vencer qualquer ditador?

Absolutamente, não apenas em África mas em qualquer lugar. As populações acabam sempre por triunfar contra as ditaduras. Mas é necessário evitar que se submetam às ingerências estrangeiras, assim como saber ter em conta os prós e os contras. Os dirigentes árabes têm de se unir e tentarem resolver os seus diferendos para acabar com estes massacres no mundo árabe.

Vários intelectuais africanos, fazendo referência ao fracasso das revoluções árabes, são hoje apologistas da ditadura, alegando que a ditadura é o sistema mais adequado para corrigir os povos africanos. Também partilha a esta opinião?

Não, de forma alguma. No entanto um pouco de rigor é sempre necessário quando o ambiente está sob a tensão devido ao desenvolvimento económico e social. A anarquia é um entrave ao desenvolvimento. Mas temos de separar as coisas. Não podemos confundir uma ditadura com a necessidade da aplicação estrita da lei.

KR/RN

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo