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Novo colaborador da E-Global.pt: Mbona Paulo, um olhar de lince sobre o regime.

O novo colaborador da E-Global.pt é o jovem Mbona Paulo, de 27 anos, formado em Arquitetura e Urbanismo desde sempre se notabilizou pelo jeito para o desenho. Ao seu traço natural juntou uma pitada de humor e uma dose de pensamento crítico  e assim nasceu a sua paixão pelo Cartoon, bem como personagens inesquecíveis- Nsigui, Mbuka e Zoa.

A ida para o Brasil ajudou-o a crescer enquanto artista e a desenvolver a suar arte, pois o mundo do cartoon fora de Angola é também muito abrangente, mas sem dúvida que as suas vivências de infância e a os livros moldaram o seu pensamento crítico e hoje, o jovem cartoonista já não é uma promessa, mas sim uma afirmação. Ao e-global, em entrevista via telefone, Mbona não esconde o desejo de uma mudança para o país, para que se “abra a porta aos jovens”. 

 

 Paulo, é cartoonista desde sempre?

 É difícil ser só cartoonista em Angola, especialmente, quando temos este papel tão crítico. Eu comecei a ser cartoonista há muito pouco tempo, apesar de desenhar desde sempre e de fazer banda-desenhada, mas fazer crítica, análise social através do cartoon, só comecei em 2014-2015.

 

Que coincide também com um período de grande agitação em Angola?

Sim, foi exactamente nesse período de transição de um presidente que se manteve no poder 38 anos para um novo presidente e das promessas que foram feitas na altura. Nessa altura comecei a sentir-me motivado para fazer cartoons sobre esta nova fase do país.

 

Essa inspiração também se deveu ao facto de ter vivido no Brasil?

De facto eu vim para o Brasil em 2015, mas comecei ainda em Angola, em 2014,  apesar desta área do cartoon não ser muito explorada no meu país, é uma crítica muito mais leve. Agora, quando cheguei ao Brasil deparei-me com um mercado bem abrangente, bem aberto e eu senti-me muito motivado, até que, em 2015, comecei a criar as minhas primeiras personagens, a ter um discurso mais crítico e fui recebendo as influências de cartoonistas brasileiros. Fui percebendo também que havia um grande mercado nesta área, conheci cartoonistas independentes que colaboravam com vários jornais, revistas e é possível perceber que a democracia no Brasil é bem visível, as pessoas não são perseguidas ou penalizadas por fazerem crítica.

 

E em relação a Angola? O país atualmente já lida melhor com a crítica?

Angola é um país que ainda se está a descobrir, a libertar dessa repressão muito gritante que existe. Os jovens angolanos, por exemplo, ainda têm muito receio de se expressarem ou até de questionarem certas decisões e penso que muitos cartoonistas que têm este traço mais crítico se sentem ameaçados. No meu caso, senti-me muito mais à vontade no papel de cartoonista quando estive fora do meu país, mas a minha família e amigos ficavam muito preocupados com o que eu estava a fazer, diziam-me que era melhor parar com isso, porque se eu estava no Brasil era graças a um programa do governo. Para mim isso nunca importou, pois, eu tenho de chamar a atenção para a realidade que se vive através dos meios de que disponho, ou seja, através dos cartoons. E foi muito interessante, porque eu comecei a ver que a partir daí os jovens angolanos começaram a sentir-se motivados para falar sobre os problemas do país, percebi que havia muita gente incomodada com a situação, percebi que não dava para parar, tinha de continuar…

 

E é um trabalho que nunca acaba, tem de se estar muito atento a tudo… quanto tempo demora a pensar, a elaborar um cartoon?

 Eu sinto que eu comecei a ter um equilíbrio na criação do cartoon, a fazer com que as pessoas refletissem, baseando-me naquilo que vivi. Eu nasci num dos sítios mais precários da cidade de Luanda e aquela vivência ali sempre me fez reflectir muito sobre o que o governo nos prometia, mas nós já sabíamos que era uma armadilha, que servia para nos manipular… então isso sempre me fez sentir injustiçado, insatisfeito com aquelas promessas e comecei desde muito cedo a desenvolver estes traços de criatividade e humor.

Mas também houve algo essencial neste processo; a leitura que fui fazendo! Chegou um momento em que eu quis entender como é que chegámos a esta situação. Angola é independente desde 75 mas até 2010, 2011 nós ainda vivíamos uma situação muito complicada, de pobreza! O discurso que impera é que a culpa não é nossa, mas se os angolanos tomaram o poder em 75 como é que não temos culpa de nada? É complicado… então através das leituras que fui fazendo, consegui perceber como é que os governantes foram crescendo, como é que os líderes se foram organizando e a pouco e pouco consciencializei-me de que há muitas histórias mal contadas e senti-me enganado. Senti que nas escolas aprendemos algo que não é real. Além disso, o desenho sempre fez parte de mim…

 

E a sua formação sempre foi nesse sentido, no ramo das artes plásticas?

Eu fui estudar para o Brasil no âmbito de um programa internacional e formei-me em arquitectura urbanista. Atualmente estou a fazer mestrado em Design. A minha formação em arquitetura também vem nesse sentido, o de tentar deslindar os problemas, especialmente nas cidades, como se estava a preservar o património, senti que havia um certo descaso pela preservação das cidades e minha tese de mestrado vem nesse sentido, há problemas em todo o lado.

 

E  segue habitualmente algum cartoonista? Em quem é que se inspira?

 Eu deparei-me em 2012 com Sérgio Piçarra, um dos cartoonistas mais conhecidos de Angola. Eu costumava reproduzir todos os seus personagens, porque ele não tem receio de fazer crítica, desde os anos 90 que ele enfrenta o governo.

 

 

Estando quase no final de 2020, como é que olha para Angola no futuro?

O país está a despertar! O surgimento destes activistas, jovens preocupados é importante. Do ponto de vista democrático está a fazer-se um caminho interessante, já é possível haver manifestações, o que antes era quase impossível e os próximos governos talvez dêem mais liberdade às pessoas. Agora, eu espero sinceramente que se possa mudar de governo, o que está lá já teve todas as oportunidades e não fez o que era necessário ou suficiente.

É o momento de se dar espaço à visão dos jovens, muitos dos problemas sociais de Angola estão vinculados a questões políticas, por isso se não de mudar este sistema, os problemas vão continuar. É importante haver uma transição, porque a voz da população ainda é muito reduzida e não é respeitada.

Está na altura da “velha guarda” sair e está na altura de entrar uma nova geração. É difícil entender hoje o que está a acontecer, porque os problemas são os mesmos que existiam quando ainda estavamos em guerra civil; há falta de luz, água potável, liberdade… essa mudança de governo é um dos maiores sonhos do povo angolano.

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