“Os açorianos estão, maioritariamente, nos Estados Unidos, no Canadá e no Brasil”

O arquipélago dos Açores é um dos orgulhos dos portugueses, quer pela sua localização, proteção ambiental, diversidade cultural e patrimonial, quer pelo apelo turístico ou pela gastronomia. Mas não só. Nos últimos anos, esta região autónoma, composta por nove ilhas plantadas no meio do Atlântico, tem apresentado um grande desenvolvimento, linhas de investimento capazes de modernizar os serviços nas ilhas e a receção aos estrangeiros, em visita ou para viver, é outro destaque neste cenário atual.

Porém, a histórica emigração açoriana não está travada. Ainda acontece, mas com diferentes moldes. Hoje, muitos açorianos têm deixado as ilhas para tentar novas formas de vida em outros locais do globo, como o continente europeu.

Para saber mais sobre esta movimentação migratória e sobre a presença de estrangeiros a viverem no arquipélago, conversamos com José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, da Presidência do Governo Regional dos Açores.

Como o atual Governo dos Açores, está a trabalhar a questão das comunidades açorianas pelo mundo e também as comunidades estrangeiras que vivem nas ilhas?

Os açorianos emigrados no estrangeiro e os estrangeiros imigrados nos Açores são a dupla componente da missão estratégica da Direção Regional das Comunidades, que cumprimos com gosto. Somos menos de 250 mil habitantes nas nove ilhas, mas seremos mais de dois milhões de açorianos e açor-descendentes de várias gerações, desde há cerca de 400 anos, especialmente e respetivamente na América do Sul e na América do Norte. A esses nossos irmãos, filhos e netos que dão dimensão e projeção à identidade açoriana, dedicamos o devido carinho e dispensamos a maior consideração. Queremos estar ao seu lado, mesmo em novas geografias que extravasam as nossas comunidades mais tradicionais e representativas. Queremos aproveitar o seu potencial económico, além das suas características socioculturais, designadamente ao nível da procura turística e do investimento regional. Queremos chegar aos seus descendentes, para incutirmos nas novas gerações as vantagens decorrentes da aquisição da dupla cidadania, da preservação da língua portuguesa, da afirmação da cultura açoriana. Entre outras iniciativas, estamos a alargar a rede mundial das Casas dos Açores e a implementar o Conselho da Diásporas Açoriana. Inversamente, temos hoje o gosto de contar com mais de quatro mil cidadãos estrangeiros, provenientes de mais de 90 nacionalidades diferentes, que escolheram todas as nossas ilhas para nelas desenvolverem o seu projeto de vida e assim contribuírem para o desenvolvimento da própria Região. Para esses novos açorianos, a nossa preocupação e a nossa ação relacionam-se com o bom acolhimento e a plena integração. Entre outras iniciativas, organizámos um Guia do Imigrante (em português, espanhol, francês, italiano, alemão, inglês e chinês), criámos o Encontro Consular dos Açores, reativámos o Conselho Consultivo Regional para os Assuntos da Imigração, reforçámos o serviço permanente de atendimento público da própria Direção Regional das Comunidades nas ilhas de São Miguel, Terceira e Faial.

Nos últimos tempos, muitos cidadãos do arquipélago têm decidido emigrar. A que se deve essa movimentação, na sua opinião?

Não temos essa informação. Na verdade, já não existem dados oficiais que permitam aferir o número de cidadãos que saem dos Açores, designadamente, para os nossos maiores destinos emigratórios dos Estados Unidos da América e do Canadá, porque essa comunicação deixou de ser obrigatório há vários anos. Acompanhamos apenas as saídas para a Bermuda, porque essas dependem de contratos de trabalho que são celebrados através da própria Direção Regional das Comunidades. Mas, em geral, estima-se que a emigração açoriana tenha decrescido consideravelmente e passado a registar, pontualmente, a saída de jovens quadros para diferentes realidades laborais e geográficas, designadamente, no continente europeu.

Quais são os principais destinos desses emigrantes?

Por conhecimento pessoal ou informação pública, sabe-se que um número não muito expressivo de açorianos, sobretudo jovens, procura novas oportunidades de emprego, por exemplo, no Reino Unido, na Alemanha, na França ou na Espanha, mas também os vamos encontrar, ainda, na América ou, também já, na África e até na Ásia.

Tem dados sobre os açorianos que estão a emigrar para a Suíça, por exemplo?

Não existem dados oficiais, especificamente, sobre a movimentação de açorianos no espaço europeu. Sabemos, contudo, que a Suíça é um dos principais destinos da emigração portuguesa na Europa e presume-se que isso incluirá, embora em reduzida percentagem, portugueses oriundos dos Açores. Julo que a movimentação e a ocupação desses açorianos, neste caso, não se distinguirá dos portugueses continentais. Aliás, é curioso constatar que existe quase um “Tratado de Tordesilhas” no mapa global da emigração portuguesa. Os portugueses do continente vão, essencialmente, para a França, a Suíça e o Luxemburgo. Os açorianos estão, maioritariamente, nos Estados Unidos, no Canadá e no Brasil. Os madeirenses foram, especialmente, para a Venezuela, a África do Sul e o Reino Unido.

Na Suíça, por exemplo, que informações têm tido sobre a receção dos cidadãos açorianos nesse país?

Os açorianos são bem-recebidos para onde quer que vão. Somos um povo afável e adaptável, trabalhador e respeitador. Desde sempre procurámos novas oportunidades para lá do horizonte das ilhas, mas nunca esquecemos as nossas raízes. Levamo-las no nosso coração e promovemo-las nas comunidades de acolhimento. No caso da Suíça, curiosamente, encontrei açorianos emigrados quando visitei, particularmente, cidades como Genebra e Zurique. Aliás, até nos alpes suíços fui encontrar, por mero acaso, um açoriano a trabalhar em alojamento turístico. O que confirma, afinal, como costumamos dizer, que os açorianos estão em toda a parte…

O que diria aos açorianos emigrados?

Aproveitaria esta interessante oportunidade que nos é concedida para dirigir um apelo aos açorianos emigrados. Que se identifiquem para que os possamos conhecer e, assim, valorizar, como merecem. Para isso, basta que se registem na nossa plataforma digital www.acorianosnomundo.azores.gov.pt

Podem fazê-lo em qualquer uma de quatro condições: se nasceu nos Açores, se é de ascendência açoriana, se residiu nos Açores por um período mínimo de cinco anos ou se é cônjuge e/ou vive em união de facto com uma das pessoas identificadas anteriormente. Ao fazer o seu registo, ajuda-nos a mapear os açorianos residentes fora da Região e passará a beneficiar destas quatro vantagens: receber informação sobre os Açores, candidatar-se a Conselheiro da Diáspora Açoriana, conhecer os candidatos e participar na eleição através do voto on-line.

Tem dados sobre o número de açorianos hoje espalhados pelo mundo?

São muito mais os açorianos que vivem fora dos Açores do que nas nove ilhas da nossa Região. Por isso, é tão importante ter e desenvolver uma política de proximidade e de valorização da diáspora açoriana. As nossas comunidades mais representativas estão na América, desde o Norte até ao Sul, desde a costa do atlântico até à costa do Pacífico. Nos Estados Unidos, estamos no grande Estado da Califórnia, mas também na costa leste, especialmente na Nova Inglaterra, sobretudo em Massachusetts e Rhode Island. Só na Califórnia, que é o estado norte-americano com o maior número de cidadãos de origem portuguesa, superior a 300 mil, sabe-se que a sua quase totalidade é oriunda dos Açores, neste caso, especialmente das ilhas o grupo central. No Canadá, estamos nas províncias do Ontário e do Quebeque, mas também de Manitoba e até da Columbia Britânica e de Alberta. Na Bermuda, entre açorianos e açor-descendentes, somos quase um quarto da população residente neste arquipélago britânico da América do Norte. No Brasil, encontramos ainda emigrantes de nascimento açoriano a residirem nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, mas encontramos sobretudo incontáveis descendentes de açorianos espalhados por diferentes estados como Maranhão, Espírito Santo, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul. Até no Uruguai encontramos uma cidade fundada por açorianos há 260 anos, San Carlos, no departamento de Maldonado, também aqui com uma Casa dos Açores.

Qual a importância das Casas dos Açores no mundo e qual é o papel dessas associações?

As Casas dos Açores são, porventura, as instituições mais abrangentes e representativas no âmbito do importante movimento associativo da diáspora açoriana, sem desmerecer a igual importância de centenas de outras associações e manifestações que preservam também a nossa identidade em diferentes geografias das Américas. A rede mundial das Casas dos Açores, que gostaríamos de expandir para outras realidades, conta atualmente com 17 instituições, desde a mais antiga, fundada em Lisboa há 95 anos, até à mais recente, criada no estado brasileiro do Espírito Santo já em julho de 2022. Em geral, elas são as “embaixadas” da açorianidade no mundo, preservando a nossa tradição e promovendo a nossa Região. Integram o Conselho Mundial das Casas dos Açores, que reúne anualmente em assembleia geral presencial de forma itinerante pelas nossas comunidades e que se celebra os 25 anos da sua constituição, em novembro, na ilha do Faial.

Em relação aos estrangeiros que decidem viver nos Açores, de que nacionalidades são maioritariamente?

Segundo o último relatório anual do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, de 2021, residem oficialmente nos Açores 4.480 cidadãos estrangeiros, provenientes de 95 países – o número mais elevado dos últimos 14 anos. Vêm maioritariamente do Brasil (878), da Alemanha (534), dos Estados Unidos (382), da China (340), da Espanha (279), do Reino Unido (248), da Itália (206), da França (193), de Cabo Verde (170), da Holanda (122) e do Canadá (118) e ficam-se especialmente nas ilhas de São Miguel (2.025), Faial (714), Terceira (671) e Pico (538). Curiosamente, temos 69 residentes provenientes da Suíça – 1,5% da população estrangeira dos Açores – que correspondem a 33 homens e a 36 mulheres. Importa ainda estudar cientificamente as motivações e as caraterísticas dos cidadãos estrangeiros que escolhem os Açores para viver, mas presume-se que o fazem em busca da nossa qualidade de vida, que associa a natureza, a tranquilidade e a segurança a boas acessibilidades e a bons níveis de desenvolvimento.

Que políticas públicas existem para quem decide viver e investir no arquipélago hoje?

Quem decide viver oficialmente em qualquer ilha dos Açores beneficia das mesmas regalias públicas que estão à disposição dos demais residentes. Temos até a organização regular de um Curso de Português para falantes de Outras Línguas, que permite aos imigrantes cumprir com os requisitos dos regimes legais para aquisição de nacionalidade portuguesa, concessão de autorização de residência permanente e estatuto de longa duração, no que respeita à prova de conhecimento da língua portuguesa. Para que decide investir no arquipélago, estamos finalmente a agilizar o processo. No âmbito da Presidência do Governo, está a ser constituída uma plataforma de apoio ao investimento externo, designadamente associado à diáspora, que vai acolher e encaminhar as diferentes pretensões através da ação articulada entre poderes regionais e locais, entidades públicas e privadas.

E, pelo contrário, existem políticas públicas para quem pensa em deixar os Açores e viver em outros países?

Não existem políticas públicas diretamente direcionadas para isso e na minha opinião, nem tal faria sentido, desde logo, porque gostamos e precisamos de ter os açorianos a viver e a investir nos Açores.

Por fim, que mensagem deixa para quem ainda não conhece os Açores?

Uma mensagem de que vale mesmo a pena visitar e conhecer os Açores. De preferência, cada uma das nove ilhas dos Açores. Por exemplo, a baía de São Lourenço, na ilha de Santa Maria; as lagoas das Sete Cidades, do Fogo e das Furnas, na ilha de São Miguel; a cidade património mundial de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira; a Furna do Enxofre, na ilha Graciosa; as inúmeras fajãs, na ilha de São Jorge; a montanha mais alta de Portugal, na ilha do Pico; o Vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial; o extremo ocidental da Europa, na ilha das Flores; a lagoa do Caldeirão, na ilha do Corvo. Cada ilha vale por si e juntas valem muito mais.

Ígor Lopes

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