Parte II: Entrevista a António Ricoca Freire, embaixador de Portugal na Suíça

No final do próximo mês de setembro, António Manuel Ricoca Freire vai deixar de ocupar o cargo de Embaixador de Portugal na Suíça, cerca de quatro anos depois de iniciar funções nesse país europeu.

Em entrevista à nossa reportagem, este Embaixador deixou claro que a Suíça possibilitou-lhe viver “uma interessante e variada experiência em muitos aspetos”. Este membro da diplomacia portuguesa na Suíça falou também sobre o trabalho na movimentação económica em favor da comunidade portuguesa, na promoção da imagem de Portugal no estrangeiro e na sensibilização das grandes empresas suíças para as vantagens de Portugal como destino de investimentos.

Qual é a relação da comunidade portuguesa e lusodescendente com a Embaixada e os postos consulares de Portugal na Suiça?

À exceção de casos pontuais e normais de reclamação, julgo que a relação da comunidade com os postos consulares na Suíça é boa, baseada no princípio da confiança e respeito mútuos. A comunidade portuguesa sabe que tem acesso direto aos respetivos postos consulares, por telefone, e-mail ou redes sociais.

Espelho disso é o facto de chegarem diariamente à Embaixada numerosos pedidos de apoio e de informação sobre assuntos pessoais da mais diversa ordem, a par de outras questões que preocupam a nossa comunidade. Posso citar, a título de exemplo: questões fiscais, regresso definitivo a Portugal, “Programa Regressar”, problemas laborais e, desde que começou a pandemia, as questões inerentes às restrições de viagem.

Tem dados sobre o pedido de nacionalidade portuguesa na Suíça?

No ano de 2020 – porventura devido à retração causada pela pandemia Covid-19 na generalidade dos setores da vida – o número dos nacionais portugueses que adquiriu a nacionalidade portuguesa desceu drasticamente para 120, face aos 413 casos registados em 2019, um decréscimo de 70%.

Há, neste momento, restrições na deslocação de cidadãos entre a Suíça e Portugal?

Neste momento, não há restrições específicas nas deslocações da Suíça para Portugal. Todavia, aplica-se o regime geral: todos os passageiros com mais de 12 anos devem apresentar, no momento do embarque, o resultado negativo de um teste Covid, que pode ser um PCR, feito nas 72 horas antes da viagem, ou um teste antigénico, rápido, que deverá ser feito nas 48 horas antes da partida, num laboratório ou farmácia.

Esta resposta tem por base informação válida no dia 29 de junho, mas que, à data da publicação da entrevista, a regra já será distinta, pelo que, a população deverá informar-se junto das autoridades competentes das medidas que estiverem nesse momento em vigor.

Como é vista e recebida a comunidade portuguesa na Suíça?

Ao longo destes três anos e meio de estadia, foi-me grato testemunhar o generalizado apreço pela comunidade portuguesa, a terceira maior comunidade estrangeira na Suíça, depois da italiana e da alemã.

Na verdade, desde o presidente da Confederação, Alain Berset, quando lhe apresentei as minhas cartas credenciais, e outros Departamentos Federais, passando por Governos cantonais e até às autoridades municipais, incluindo ainda associações empresariais e sindicatos suíços, de todos os meus interlocutores eu recebi palavras de estima e de confiança nas qualidades profissionais e humanas dos cidadãos portugueses – lealdade, dedicação e qualidade do trabalho, caráter pacífico e amabilidade.

Na sua opinião, qual é a importância das casas regionais portuguesas na manutenção da cultura lusa na Suíça?

O papel das associações portuguesas pode e deve ser relevante a diversos níveis: i) apoio aos cidadãos mais vulneráveis; ii) ajuda na integração de portugueses que aqui chegam desconhecendo o sistema de funcionamento e, muitas vezes, a língua do local de instalação; iii) articulação com as autoridades cantonais e comunais; iv) como centros de manutenção e de divulgação da cultura portuguesa.

Todavia, para poderem desempenhar eficazmente este papel fundamental e corresponderem aos interesses e necessidades da comunidade que devem servir, as associações têm de ser capazes de rejuvenescer os seus quadros diretivos e de atualizar objetivos, programas e práticas. Neste tempo em que convivi com a comunidade portuguesa, foi-me dado testemunhar um marcado declínio da generalidade das associações, tendência que urge reverter de forma construtiva.

Frequenta associações portuguesas no país?

Em 2018 e 2019, convivi intensamente com a comunidade portuguesa – de Genebra a Zurique, de La Chaux-de-Fonds (Neuchâtel) e de Delémont (Jura) ao Cantão do Valais.

Nestas minhas digressões pela Suíça, frequentei as festas das muitas associações que me convidaram, participei em espetáculos de música portuguesa (fado, cante alentejano e folclore) e noutros eventos por elas organizados, dos quais, pela sua elevada qualidade, o Portugal Open no Cantão do Valais é um exemplo a assinalar.

Quais são os desafios de se promover a língua portuguesa nesse país?

Os desafios são muitos, até porque a língua portuguesa é uma entre as dezenas de Línguas de Herança presentes na Suíça e aqui ensinadas como a nossa. Mas o maior desafio é consciencializar as famílias portuguesas a manter a língua portuguesa enquanto meio de comunicação ativo e vivo dentro da família, não descurando o seu uso e a sua promoção através da leitura.

Ao longo do meu mandato, foi-me dado presenciar e participar no enorme esforço de apoio que o Camões I.P., através da rede EPE Suíça, presta às famílias ao criar as condições para que as crianças e jovens possam expandir e aprofundar os seus conhecimentos linguísticos e culturais.

A realização de projetos e atividades variadas, sob a responsabilidade e orientação dos professores do EPE, permite aos alunos o contato com diversas temáticas e textos dos géneros diferentes e complexidade crescente, que complementa e enriquece a vivência da língua e cultura no seio das famílias.

Que ações foram desenvolvidas para celebrar o dia 10 de junho na Suíça?

Não tendo sido possível realizar um programa de mais ampla participação e maior visibilidade, dadas as restrições ainda em vigor na primeira quinzena de junho, destacarei pelo seu significado as seguintes ações: com a colaboração do Cônsul-Geral de Zurique, a Coordenação EPE Suíça organizou duas palestras on-line do escritor José Luís Peixoto com as crianças e jovens, alunos de língua portuguesa; na Residência, recebi e ofereci um lanche a um grupo de 25 alunos, vindos de uma escola com ensino de Português junto a Lausanne, que me tinham escrito a dizer que gostavam de me conhecer e cumprimentar no dia 10 de junho.

Esta tarde de convívio com os jovens portugueses substituiu a habitual receção para 350 a 400 convidados e eu não a esquecerei.

Que balanço faz do seu trabalho? Que ações, atividades e projetos mais lhe deram prazer executar?

Em termos pessoais, tenho a certeza de que dei a este posto, como Embaixador de Portugal em Berna, o melhor do meu esforço, a mais aberta dedicação e disponibilidade, bem como o compromisso firme de servir o Estado português e a comunidade portuguesa na Suíça.

Neste espírito, não discrimino entre atividades e projetos, porque foram tão importantes as diligências oficiais junto do Governo suíço, como um almoço de confraternização numa das associações portuguesas. Isto dito, entrego ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e à comunidade portuguesa na Suíça o balanço do trabalho que aqui desenvolvi.

Referiu que deve deixar o cargo de Embaixador de Portugal na Suíça em finais de setembro. Que sentimentos leva ao partir da Suíça? Qual será o seu destino profissional?

Em todos os postos em que servi, procurei combater o distanciamento de estrangeiro, procurei integrar-me no país e acabei sempre por aprender a gostar do seu povo. Por isso, nunca saí com indiferença de nenhum posto. Antes senti, sempre, que uma parte de mim ficava para trás e que, em contrapartida, levava comigo pessoas, lugares e vivências.

É isso que, a poucos meses de distância, está já a acontecer com a Suíça. Acabo este cargo por ter atingido o limite de idade fixado pela lei para o serviço no estrangeiro, mas não parto já para a reforma, pelo que estarei disponível, caso surja a oportunidade, para prestar serviço ao Ministério em Lisboa.

Ígor Lopes

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