Ralph Baydoun: Uma perspetiva libanesa em tempos de desglobalização – Parte II

Retomamos a conversa com Ralph Baydoun, libanês perito em comunicação estratégica e análise de dados, para fazer o ponto da situação da guerra em Gaza e o contexto geopolítico atual do Líbano, em particular, e da região do Médio Oriente, em geral. Esta é a segunda parte de uma grande entrevista exclusiva.

EG: Tinha referido que o que garante a segurança de qualquer Estado, na ausência ou redução da influência dos EUA no mundo ocidental, é a presença de um exército forte, com um sistema militar robusto. Como é que a Europa se tem preparado nesta era de desglobalização e potencial militarização?

RB: Desde a invasão da Ucrânia, há dois anos atrás, ficou claro para os governos europeus que o rumo a ser tomado é o da militarização. Por exemplo, a Alemanha está a passar por uma enorme reforma militar. Recentemente, os alemães têm estado a discutir com a Suécia métodos de conscrição no exército e de como fazer com que as pessoas regressem ao exército. A Alemanha redirecionou o seu financiamento ao alocar uma grande parte do seu orçamento anual para as forças militares. E, ainda este ano, fizeram o seu primeiro destacamento militar permanente desde a Segunda Guerra Mundial. Após 1945, as forças aliadas concordaram que a Alemanha não deveria ter capacidades de implantação. Neste momento, eles fizeram a sua primeira implantação. É um erro pensar que a Europa não está preparada. A Alemanha demonstrou que pode, dentro de 10 anos, reconstruir uma força militar massiva porque possuem as infraestruturas para proporcionar este tipo de contingência.

Além disto, o AFD, o partido de extrema-direita alemão, tem estado a crescer nos índices de popularidade. Até a Marine Le Pen considera o AFD demasiado extremista. E, no entanto, ambos (AFD e Le Pen) reuniram-se, recentemente, em Potsdam, para discutir a possível relocalização de imigrantes correntemente na Europa.

EG: E como é que isso poderá ser materializado?

RB: Através de uma invasão. Estou cada vez mais convencido de que a Alemanha poderá invadir a Líbia. Há uma colaboração, cada vez mais forte, entre os alemães e italianos, porque, estrategicamente, estão em concordância. E a ocupação da Líbia vai ao encontro desta estratégia comum, até porque a Líbia é umas principais rotas de migração de África para a Europa. Portanto, invasão e ocupação da Líbia, relocalização de imigrantes no território e colocação das operações de manufatura de recursos naturais em funcionamento. Ou seja, a Alemanha fará com que todos os sírios muçulmanos que fugiram para a Europa sejam forçados a mudar-se para a Líbia para trabalhar a partir de lá (mesmo mantendo a cidadania alemã).

Prevejo que ainda vamos revisitar esta entrevista daqui a 5 anos.

EG: Estamos, então, numa fase em que tudo é possível?

RB: Tudo o que poderia acontecer, aconteceu em algum momento da História. Vamos olhar para o Médio Oriente. Houve sempre uma potência dominante, seja global ou regional. Vamos recuar 2000 anos. Os Faraós estiveram aqui. O Egito era a potência global naquela altura. Depois, tivemos os Assírios, os Romanos, os Persas, e por aí fora, até ao Império Otomano. O Médio Oriente teve sempre alguém a dominar a região. E agora, neste período de desglobalização, vemos, cada vez mais, três potências a criar influência: os Turcos, os Persas e os Egípcios.

EG: E onde podemos situar o Líbano neste cenário? E quem tem real influência sobre o Líbano?

RB: O Egito não tem capacidade para projetar influência no Líbano. O Irão tem essa capacidade e tem estado a pô-la em prática. Mas este é o pico da influência iraniana na região. O Irão tem demasiadas vulnerabilidades dentro do seu próprio território, porque é um país multi-étnico com recursos limitados por causa das sanções. Então, o único jogador viável, neste momento, para influenciar e projetar poder na região é a Turquia. Porque com a saída dos EUA, a Turquia terá de intensificar e proteger cada acordo comercial, cada transporte marítimo, passando pelo Bósforo de leste a oeste. Esta é uma oportunidade de ouro para os turcos, até porque eles têm opções para expandir para todas as regiões circundantes: Cáucaso, Balcãs, Egito e Palestina.

EG: E a integração na União Europeia ainda faz parte dos planos da Turquia?

RB: Não é do seu interesse adquirido. Até os formuladores de políticas do Reino Unido perceberam isto há muito tempo. A Turquia, dada a variedade de opções à sua disposição, está mais interessada em dominar o Mar Negro, fortalecer as alianças com o Azerbaijão e o Paquistão, e, potencialmente, remover os arménios. Portanto, tanto o Líbano como a Síria não fazem parte dos interesses estratégicos turcos.

EG: Refere a Arménia. Qual é ponto da situação do país?

RB: A Arménia é o maior perdedor com a influência russa em decadência. O Azerbaijão só invadiu a Arménia porque a Rússia, como garante da segurança, deixou a região. E a Arménia foi desarmada e desmantelada. Podemos dizer que Putin acabou por trair os arménios no sentido em que estes estavam a contar com os russos em termos de contingências de segurança. Mas tudo desabou para a Arménia.

EG: A situação da Arménia é, de facto, bastante preocupante. Entretanto, as sinergias comerciais entre a Rússia e a China (com o Irão possivelmente envolvido) poderão contrabalançar a ascensão da Turquia na região?

RB: Não é uma possibilidade. Estas sinergias entre a Rússia, China e o Irão não se traduzem em ações tangíveis. É tudo um jogo de retórica porque a China é a maior beneficiária da globalização americana. A China, hoje em dia, depende da segurança americana para garantir o seu comércio. Quando acontecem ataques militares no Mar Vermelho, a China é a maior perdedora. 50% do seu solo vem do Médio Oriente. A China é dependente de alimentos e de petróleo.

E os seus investimentos no comércio com o Irão traduzem-se em apenas entre 15 e 20 milhões de dólares. Estes são números ridículos. Os chineses têm mais interesse em Israel, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos do que no Irão.

EG: Relativamente ao isolamento do Líbano por associação com o Irão e a Síria – e apesar das manobras de normalização diplomática com a Arábia Saudita e a Liga Árabe – é possível voltar a um Médio Oriente pré-7 de outubro?

RB: Acho que não. Considero que a região mudará para sempre. Mas certamente veremos acordos depois da guerra. Por exemplo, quem reconstruirá Gaza? Os intervenientes que reconstruirão Gaza estarão envolvidos numa solução política para a região. No entanto, isto ainda não está claro. Teremos mais respostas à medida que o Ramadão deste ano chega ao fim. Até então, será complicado concluir se a região irá assistir a um escalar de conflitos, porque há sempre a possibilidade de uma guerra total com Israel.

EG: Uma guerra total é um cenário tangível? Israel estará interessado nesta possibilidade?

RB: Não é claro. Israel está a delinear cada linha vermelha possível. E a forçar o conflito cada vez mais. Não só porque Netanyahu precisa de permanecer no conflito, para evitar ser detido e ir para a cadeia, mas também porque há um cálculo racional: os civis do norte de Israel têm medo de voltar para suas casas. Há uma pressão política e popular real para fazer algo com o Hezbollah. Portanto, não é apenas uma manobra política.

EG: Esse cálculo contempla a eliminação do Hezbollah no sul para garantir a segurança através de uma zona-tampão entre Israel e o Líbano?

RB: Não, eu não acho que Israel seja capaz de alcançar qualquer garantia de segurança através da expansão de uma zona-tampão ou até através de uma invasão. Estas soluções só irão aumentar as tensões e escalar a guerra. Esta é, basicamente, uma causa perdida. Até porque a liderança, em Israel, não está a efetuar cálculos racionais neste sentido.

EG: Por falar em cálculos racionais, e analisando aquilo que está a suceder em Gaza, há uma estratégia clara por parte do executivo de Netanyahu na manobras militares? Ou estamos simplesmente a testemunhar um genocídio?

RB: O que está a acontecer em Gaza está a atingir um objetivo político. E está a mudar a equação da região. Os meios para chegar aos objetivos estão corretos? Claro que não. Israel tem um exército genocida que foi educado ideologicamente e passou por todo um processo de lavagem cerebral e não tem limites. E não há consequências visíveis para as suas ações criminosas. Os militares israelitas têm liberdade para fazer o que querem e com o cérebro genocida em ação.

Mas, ao mesmo tempo, há pressão política e diplomática americana para que a violência ocorra de forma menos devastadora. Sem a pressão dos EUA, qual teria sido o número total de mortos em Gaza? Acredito que o número teria triplicado. Talvez Israel tivesse até usado armas nucleares táticas contra o povo palestiniano, se os EUA não estivessem envolvidos. O resultado teria sido, definitivamente, muito pior.

EG: Então é graças à pressão dos EUA que o genocídio em Gaza não tem adquirido contornos mais catastróficos?

RB: Não apenas isso. A região estava a seguir um caminho de normalização com Israel. Quem facilitou isso? A Administração Trump, com Kushner e sua equipa. Eles facilitaram os Acordos Abraâmicos entre os Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein e Israel. E foram os americanos a liderar as negociações com os Sauditas. E até instalaram a embaixada em Jerusalém e reconheceram Jerusalém como a capital. Tudo isto porque Trump e o seu executivo informaram Israel que a influência dos EUA iria, de certa forma, ‘abandonar’ a região. Sem a presença dos EUA, a única fonte de segurança para Israel seria garantida pelos fiadores regionais, como os países acima mencionados. E é dentro desta perspetiva que os EUA têm pressionado Israel a não exercer mais violência em Gaza. O objetivo final desta guerra não é defender Israel de Gaza e do Hamas, mas sim protegê-lo de todo o mundo árabe.

EG: Mas o ataque do Hamas no dia 7 de outubro veio, de certa forma, perturbar o rumo dos acontecimentos e as manobras de normalização na região.

RB: Os ataques do 7 de outubro foram uma decisão exclusiva do Hamas, porque o Irão já estava no caminho da normalização com a Arábia Saudita antes desse dia. Tudo mudou desde então. Acredito que vamos observar um conflito de baixa intensidade e possivelmente um acordo nuclear. O Irão e os EUA não cessaram os seus diálogos em Omã e têm estado em negociações há dois anos. E, precisamente, pela primeira vez este ano, permitiram que os monitores da agência atómica entrassem nas suas instalações. O Irão reconectou as câmaras e as instalações da agência atómica. Reduziram também a produção de urânio para a bomba nuclear. Portanto, estes são todos indicadores de que o Irão estava no caminho da normalização com o sistema global.

EG: E que benefícios traria para o Irão este processo de normalização?

RB: A principal fonte de rendimento do Irão é o combustível. Eles poderiam produzir cerca de 3 a 4 milhões de barris por dia. Agora estão a produzir 1 milhão por dia por causa das sanções. Então, esse 1 milhão era de certa forma sustentável. Mas quando a guerra com a Ucrânia começou e as sanções foram impostas ao petróleo russo, o que aconteceu? Os Estados Unidos concordaram em impor um limite máximo e não em proibir o petróleo russo, porque isso afetaria o mercado global. Mas era importante para os EUA estabelecer um limite máximo para o preço do petróleo russo. Então, em vez de pagar o valor total, o petróleo russo poderia ser comprado com 40% de desconto. Portanto, quem começou a competir com o petróleo iraniano? Os russos! E assim, subitamente, o Irão entrou em concorrência direta com o petróleo russo, pelo que a sua fonte de rendimento diminuiu mesmo com a frota-sombra do Estado russo. Portanto, dadas as circunstâncias, o Irão necessitaria de lucro. Em última análise, o Irão necessitaria do sistema global.

João Sousa

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