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RCA: “Somos um grupo de autodefesa” garantiu Eze Djudikaele

E-Global – Quais as principais diferenças entre Anti-Balakas e ex-Selekas?

Eze Djudikaele –  A divisão entre AB e ES não é nem religiosa nem política, mas sim o facto de que eles (Selekas) torturam, pilham, oprimem e massacram as pessoas. Esta é a única diferença. Nós (Anti-Balakas) estamos com o povo, somos um grupo de autodefesa de e para o povo. Defendemo-nos das pilhagens, da tortura e dos massacres. Os ex-Selekas vieram aqui – e todos nós somos vítimas deles – ao nosso bairro e  mataram crianças, adultos, inclusivamente uma jovem com o seu bebe ao colo à  porta do salão das testemunhas de jeová.  Pilharam – porta a porta –  violentaram, torturaram, fizeram o que quiseram com uma violência atroz. As pessoas pensam que é uma guerra religiosa, mas não é nada disso.

Os Anti Balaka não fazem política, somos tão só um grupo de autodefesa. A Seleka, por seu turno,  é essencialmente muçulmana e composta por inúmeros elementos estrangeiros, nomeadamente mercenários e djihadistas do Sudão, Mali e Tchad, com o único objetivo de oprimirem e pilharem tudo o que encontram. Por exemplo Nourredinne Adam, que é tchadiano e Alinda Aras que e peuhl nigerino, baseados em Bambari, não são centro-africanos, nem sango falam.  E são eles os responsáveis por trazer este espírito de violência para a  RCA. Mesmo muitos peulhs do Níger estão com a Seleka. Quanto aos centro-africanos, há alguns na Seleka, mas não são eles o problema. Neste momento a ex-Seleka é mais um grupo mais terrorista e djihadista que outra coisa. A grande parte dos seus operacionais são mercenários, por isso foi fácil para eles massacrar os centro-africanos.

A Seleka começou todas estas ações logo após a partida de Bozize. Ficaram no poder e o que fizeram foi matar a população centro-africana.

Por nós, Anti-Balaka, sempre vivemos em paz com os nossos irmãos muçulmanos centro-africanos, sem problemas, mas agora os muçulmanos andam sempre com as catanas por baixo das suas vestes, especialmente no KM5 e ferem e matam as pessoas. Esta situação só se alterou após a vinda dos mercenários para a Seleka, do Sudão, Níger, Chade, Mali etc.

Entretanto, esta situação provocou uma divisão nos ex-Selekas e mesmo no KM5.  Os muçulmanos – Selekas – tiveram que organizar grupos de autodefesa para se defenderem dos Selekas estrangeiros – deste novo grupo Seleka composto por mercenários – os homens de Nourredine Adam – que atacam, matam e pilham os próprios muçulmanos da RCA. São eles os responsáveis pelos distúrbios e violência no KM5.

Pedimos então à Minusca e as FACA e aos Sangaris para os atacar e perseguir, mas infelizmente a Minusca não está de acordo. Para evitar uma guerra civil e fundamental que a Minusca assuma as suas responsabilidades.

Quais são, na sua opinião, as principais diferenças entre Taoudera e Dologuele?

Touadera é nacionalista, é alguém que sempre esteve ao nosso lado em todas as crises e sempre esteve em Bangui em todas as batalhas e venceu-as connosco. Só saiu quando foi perseguido. Ele conhece os problemas da RCA e todas as causas em todos os golpes de estado,  esteve connosco, e é um de nós. Conhece o problema da fome, conhece os problemas do país. Ele habita mesmo neste bairro – 4 eme arrondissement – e está sempre connosco. Sempre esteve com os estudantes por exemplo. Quem conhece os problemas do povo é que deve governar porque estará  em boas condições para resolver os problemas que bem conhece.

Ao contrario,  Dologuele nunca viveu em Bangui e por isso não conhece nada dos problemas do povo nem da RCA. Sempre viveu nos Camarões, Paris, Costa do Marfim, Brazzaville, etc. Está completamente alheado e desconhece os problemas dos centro-africanos.

Sabem, quando falamos de eleições há muitos candidatos iguais, que sempre estiveram no estrangeiro mas nas eleições aparecem. Como podemos eleger alguém que nunca esteve do nossos lado? Que não conhece os nossos problemas? Impossível. Aqui não há trabalho, não há salário, nada.  Como pode alguém que vive bem no estrangeiro, de forma confortável vir resolver os nossos problemas? Vai achar, claro, que todos aqui vivem bem também.

 

Qual a sua opinião sobre a presença das forcas estrangeiras na RCA?

Acerca desse assunto eu tenho muito prazer em que cá estejam. Eles tem um papel muito importante na paz e estabilização do país. É o papel de arbitragem. Tentam conciliar as partes e impedem-nas de se afrontar. Mas outros há que  falharam esta missão. A Sangaris muitas vezes deixa a sua missão para fazer “outras coisas”. Só se ocupam dos recursos naturais. Também uma parte da  Minusca – a do Burundi –  está cá para proteger a ex-Seleka. Inclusivamente a Seleka dá dinheiro à Minusca e a Minusca deu diverso fardamento das NU aos Seleka. Quando vemos algumas patrulhas pensamos que são as Nações Unidas mas são os Selekas com as fardas do Burundi.

No entanto, devo referir o bom trabalho na securitização do eixo rodoviário com os Camarões, o que para nós é muito importante.

Qual o papel das FACA na manutenção da segurança?

As FACA jogam um papel muito importante, o papel principal da segurança. Conhecem tudo de cor, conhecem os bairros de cor, coisa que a Minusca não conhece. A Minusca não entra nos bairros, só as FACA. Eles são o futuro do exército deste pais. Até porque os Anti-Balaka neste momento não podem andar de armas. Mas se formos atacados vamos responder, porque as forças internacionais não intervém. Só chegam depois de tudo ter passado e depois colocam perguntas. Mesmo que venham não apanham ninguém porque nós conhecemos os bairros e eles não, por isso nunca conseguirão apanhar ninguém. Só com a ajuda das  FACA o conseguirão fazer. As Forças Internacionais só conseguem patrulhar as grandes vias. E por isso mesmo em cada bairro foi criado um posto das FACA para patrulhar e securitizar cada bairro. Esta foi uma iniciativa e ideia minha. Muitos bandidos andam por aí e auto-intitulam-se anti-balakas. Estão  bem armados com granadas e armas pesadas, mas não são Anti-Balakas. Mas as FACA conhecem-nos e são importantes para os deter e impedir roubos e violência. Para que ninguém faça distúrbios em nome dos anti-balakas. Esta foi uma iniciativa com a Juventude e a Presidente da Câmara do 4 Bairro – Boy Rabe. Estas ideias foram apoiadas por Patrice Ngaissona. Ele mesmo disse que vai financiar o grupo de autodefesa para que possam comer etc., para que tudo possa estar tranquilo e não caiam na tentação de voltar aos roubos e à violência.

Vejam, antigamente ninguém podia vir aqui, muito menos brancos, roubavam tudo, faziam reféns, pediam resgates, etc. Nem a ‘gendarmerie’ podia vir aqui. Só após esta iniciativa foi possível pacificar o bairro. O Ministro da Defesa veio agora dizer que foi esta a iniciativa dele. Mas tal não é verdade, ele só quer colher os louros da iniciativa que eu com Patrice Ngaissona – que financiou todo este projeto –iniciamos. A Presença e rearmamento das FACA é fundamental para o futuro da segurança do pais e que possam contribuir para o processo de securitização do pais.

Qual a sua opinião sobre a anulação das legislativas? Trará problemas de segurança?

Este adiamento não causa qualquer problema de segurança, e veja-se, nada aconteceu. Estamos fatigados da guerra e por isso esta questão  para nós não é um problema e vamos contribuir massivamente para esta paz. Queremos um governo que provenha do povo. Temos armas, mas queremos que a paz venha. Todos tomaram consciência que para haver paz o povo tem que deixar as armas e  se faça ouvir pelas urnas. Esta anulação é ótima na minha opinião. A ANE não trabalhou bem e isto é ultrajante porque usou  pessoas incapazes e por isso é preciso que se credibilize o ato eleitoral!  É uma grande decisão do Tribunal Constitucional. A ANE mudou tudo, os números de eleitores – que sabiam bem  o seu numero de sempre – passaram a ter um logo, que não sabem sequer o que era tal coisa. E isso confundiu as pessoas, sobretudo as menos instruídas – que são 80% dos votantes. É preciso que as pessoas recuperem os seus antigos números de eleitor e possam votar em tranquilidade sabendo o que fazem. A ANE tornou todo o recenseamento numa amálgama indecifrável. Por isso a anulação permitira ter eleições realmente justas e o povo esta contente com esta decisão. As Presidenciais sim foram bem organizadas,  justas e livres.

Qual a posição da Coordenação Anti-Balaka sobre a anunciada criação pela FPRCA de um auto-proclamado Estado Islâmico no Norte?

A nossa posição é que terão que ser os cidadãos a dar essa resposta e não só os Anti-Balaka. A população é que terá que dar essa resposta e  também o governo. Somos um pais laico, mas um pais uno e indivisível e nunca permitiremos que seja dividido por ninguém. Viveremos em conjunto com os nossos irmãos muçulmanos, mas estaremos sempre juntos e ninguém nos dividirá. E esperamos que as Nações Unidas nos ajudem também a impedir tais intenções. E nos ajudem a viver juntos. Não admitimos nenhuma divisão. A única coisa que queremos é o repatriamento imediato dos mercenários estrangeiros. Queremos viver em conjunto com os nossos irmãos do Norte, do Sul de todo o lado. Alinda Arras, por exemplo,  a única coisa que quer é constituir grupos de mercenários para roubar os diamantes e por isso querem controlar essas zonas. Por isso querem a divisão, para se apropriarem dos recursos naturais vastos.

Qual a mensagem que quer deixar aos seus irmãos muçulmanos e ao novo governo?

Lanço um vibrante apelo ao próximo governo: que possa unir o povo, Cristãos e Muçulmanos. Que seja essa a sua primeira missão,  a Unidade Nacional, a única coisa que pode levar o pais ao desenvolvimento. Depois, dizer aos meus irmãos muçulmanos que estamos juntos e que queremos viver em conjunto e em paz. O pais é laico e por isso cada um pode viver segundo a religião que quer. Não é a religião que nos vai dividir. Cada um tem o seu lugar no país. São os muçulmanos que tem o comércio e os transportes na sua mão, por isso é a eles que devemos os abastecimentos. Os cristão são agricultores, pastores e por isso fornecem bens essenciais. Por isso, como vêem, somos obrigados a partilhar e não será isso que nos afastará,  mas sim o que nos unirá.

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