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RCA: Ministro da Defesa, Joseph Bindoumi, aposta numa reforma profunda das Forças Armadas

Para impedir que o terrorismo entre no país, o Ministro da Defesa Nacional da República Centro-Africana aposta numa reforma profunda das Forças Armadas (FACA), como principal desafio do próximo Governo

 

E-Global – Como se desenvolverá o Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) e qual o meio mais eficaz para o colocar em marcha tendo em vista a re-estruturação e reorganização das futuras Forças Armadas do país?

Joseph Bindoumi – O DDR foi um processo aceite pelo Fórum Nacional de Bangui em 2015 e, por isso, as Forças Negativas politico militares aceitaram o desarmamento e acederam ao seu acantonamento, esperando a nova situação política e a reestruturação das Forças Armadas. Neste programa, além da entrega das armas está previsto também o repatriamento dos estrangeiros. É preciso, por isso, que à RCA sejam dadas condições e meios para realizar este processo em pleno.

Qual será o papel dos elementos dos grupos armados, nomeadamente de AB e Ex-Seleka na composição e reorganização futura das Forças Armadas?

Nós só temos um Exército, as FACA, nada mais. O restante não são mais que grupos rebeldes, milícias. Agora no quadro do DDR, e desde que não cometam crimes e estejam de boa saúde e na idade permitida podem vir e ser recrutados. Os restantes não poderão integrar as FACA e este é o único critério a ter em consideração.

Qual o papel da EU na futura implementação do DDR e da restruturação das FA?

A EU tem feito, até agora, um bom trabalho neste domínio, próximo do Ministério da Defesa, sobretudo no domínio da formação militar, reequipamento e reabilitação de infraestruturas militares. Este tem sido um excelente trabalho com o apoio financeiro da EU.

Considerando a ameaça terrorista dos países vizinhos, como avalia a situação de segurança na RCA?

Temos vizinhos com muitos problemas, o Tchad, o Níger, o Sudão, a Guerra do Darfour, o Boko Haram, países que estão em guerra. Também nós conhecemos a guerra. Mas parece haver aqui um certo paradoxo com génese no embargo a que estamos sujeitos. O embargo de armas. Nós queremos tornar-nos num país seguro, mas como podemos avançar nesse sentido se estamos proibidos de comprar armas? Não é possível. É por isso urgente que se levante o embargo à RCA. A Comunidade Internacional (CI) acusa-nos de sermos um pais inseguro, os nossos vizinhos também, mas por outro lado, na altura de decidir, votam sempre a favor da manutenção das sanções sobre a RCA. Assim é difícil securizarmos o país. Quanto ao terrorismo, a sua principal arma é a publicidade. Por exemplo, se um ataque terrorista me atingir, isso não é mediático. Será mais um pobre homem na RCA que foi vítima do terrorismo. Por outro lado, se um ataque atingir interesses de países fortes da Comunidade Internacional, a situação muda de figura. É por isso mesmo que queremos evitar que tal aconteça aqui, temos muitos representantes da Comunidade Internacional. Mas, por outro lado, não nos podemos defender. O Terrorismo é uma ameaça global e será necessário que se responda em conjunto. O Terrorismo não vai atacar o pequeno agricultor, mas os grandes interesses.

Que medidas devem ser tomadas para securizar a cidade e as zonas mais complexas, e torná-las em zonas seguras?

As armas que são detidas pela Gendarmerie, FACA, Policia, etc, são a nossa salvação. Pois vejam, quando há problemas a CI e NU nada fazem, não intervêm, limitam-se a ver os combates e as pessoas a digladiarem-se. Entretanto nós temos que intervir, para terminar com o problema. Aí somos imediatamente acusados pela CI de possuirmos armas, de não as podermos ter, pois estamos sob embargo, etc. Falta a vontade à CI para realmente nos ajudar a securizar o país e é esta vontade que tem que ser efetiva, pois senão a securização do país será impossível. Um pais com 4 milhões de pessoas, 1 milhão em Bangui, o dispositivo securitário internacional – que compreende lança rockets, lança misseis, blindados, drones, etc – e mesmo assim a violência não pára. Ainda hoje em Bangassou foram novamente feitos reféns e a violência continua no Norte. Estamos no terreno e nós afastamos a ameaça e só temos três ou quatro viaturas e nem dinheiro para combustível temos. Mas a resposta da CI é sempre “estão sob embargo, ficam sob embargo”. A MINUSCA limita-se a filmar as pessoas que se matam e…nada mais, nunca intervêm.

Tendo em conta a ameaça que provem dos Camarões, na sua opinião qual é a situação securitária na fronteira RCA/Camarões?

Esta fronteira não tem problemas. Esta via – Douala-Bangui é estratégica para nós porque é a estrada que permite que Bangui seja abastecida a partir dos portos dos Camarões. É, por isso, uma via estritamente económica. Com a guerra esta via deixou de ser assegurada pelas FACA e pela MINUSCA, nem mesmo a Sangaris a protegia. E ficou à mercê dos bandidos, grupos rebeldes, que barricavam a estrada e assaltavam os camiões com mercadorias. E os operadores económicos deixaram de a usar. Mas se tivermos meios podemos securitizar esta via. Mas em termos de segurança entre os Camarões e a RCA essa questão não se põe.

Como vê a presença militar estrangeira e a cooperação estrangeira no domínio da Cooperação técnico militar?

Quando a ONU foi criada substituiu a sociedade das nações, pois esta falhou na sua missão. Permitiu que a primeira guerra e segunda guerra mundial acontecessem e por isso surgiu a ONU. Por isso é fundamental evitar a guerra e a violência. Mas se as NU vêm para impedir a violência – estão cá desde 2013 – a verdade é que a violência não pára. pelo contrário, o efeito é o oposto. Morria menos gente antes da sua chegada. A recomendação que eu faço é que as NU se organizem para que quando vão para qualquer lado impedir e travar um conflito ele de fato termine. Vejam os exemplos: Estiveram no Ruanda, o resultado foi desastroso, foi um genocídio. Estão na RDC há mais de 20 anos e o conflito não pára. Estão aqui e o resultado é o mesmo e o conflito não pára. Será que as NU estão aptas a ir a qualquer parte e a pôr em prática medidas próprias para acabar com os conflitos? Não me parece. Por isso muitos países da região estão a recusar a sua presença, nomeadamente o Tchad, os Camarões, etc.

Como vê a cooperação internacional fora do quadro das NU e da EU? No fundo a cooperação bilateral?

Temos boas relações com os Estados Unidos, China, França, Bélgica, África do Sul. Temos enviado elementos em formação para estes países. Há algum tempo os peritos vinham cá, agora fazemos ao contrário. A cooperação bilateral funciona bem. Mas temos sempre o espectro do embargo sob nós, porque quando queremos cooperar com os nossos amigos e vizinhos eles são os primeiros a dizer que não podem porque a RCA está sob embargo e isso torna tudo muito complexo.

Qual é o ambiente que se vive nas Faca tendo em conta a falta de condições e de armamento?

Sabe, quando os grupos armados – os Ex-Seleka vieram e carregaram sobre as FACA pilharam tudo, as casernas, as armas, tudo. Por isso não temos nada, levaram tudo e as FACA não têm nada. As armas e os Ex-Seleka estão agora no estrangeiro – No Tchad – inclusivamente levaram as viaturas. Temos homens, com muita vontade de defender o seu país…mas sem quaisquer meios para o fazer. Ainda assim, mesmo com coisas muito obsoletas, saem para fazer o seu trabalho, defender o seu país e o seu povo. Se tivéssemos armas esta situação de segurança há muito que estava resolvida. Esta é a situação das FACA, com homens, homens com vontade e motivados, mas…sem meios. Precisamos de segurança, só com segurança podemos desenvolver a nossa economia e avançar com a construção de infraestruturas de saúde, construção de vias de comunicação, fábricas, exploração mineira, florestal, melhorar o serviço de saúde e construir escolas, no fundo melhorar as condições de vida dos centro-africanos. Por isso o levantamento do embargo é um assunto chave para a RCA.

Em 2017 a Sangaris pensa reduzir a sua presença no terreno centro-africano. Qual o seu comentário sobre esta intenção?

Sabe, a Sangaris é uma força francesa, e, por isso, é livre de partir quando assim decidir. Quando a Sangaris veio foi no pior momento, quando haviam combates entre AB e Ex- Seleka. Era o máximo da violência. A França veio para 6 meses e evitar que o país chegasse ao genocídio e se transformasse numa Somália. E conseguiu-o e fez um ótimo trabalho. Mais tarde, em Maio de 2014, deveríamos ter a paz e a França retirar-se, mas tal não aconteceu e a França continua. Mas agora decide retirar-se, numa altura chave em que fizemos uma primeira volta das Presidenciais, a segunda volta é já dia 14, temos o referendo, temos novas legislativas. E os vencidos vão rebelar-se, vão contestar por que não vão aceitar esperar mais 5 anos para voltar ao poder, pois fizeram grandes investimentos em campanha, etc. Por isso, a situação vai complicar-se e a França decide retirar-se. Mas, a França é soberana, lamentamos, mas respeitamos.

Qual a sua opinião sobre a situação de segurança que se vive nos campos de deslocados, sobretudo no KM5 e no Aeroporto?

É preciso que as pessoas regressem aos seus lares. Que recuperem as suas casas. Mas, infelizmente, enquanto esperamos que as pessoas voltem enviamos os nossos FACA para securizar os Bairros. Mas entretanto a desinformação e o rumor tomou conta do quotidiano e é utilizado para provocar reações violentas e por isso as pessoas não querem sair dos campos de deslocados, porque todos os dias surgem notícias a dar conta de problemas nos locais para onde deveriam regressar. Por outro lado, as condições nos campos, nomeadamente no aeroporto, são melhores que nos seus antigos locais. Nos campos possuem casa (tenda), comida, escola, hospitais, médicos e medicamentos de graça, portanto, porque sair para um local que não sabem se é seguro e sobretudo quando as pessoas não têm meios para recuperar as suas casas. Por isso tornaram-se deslocados de longo termo. Contudo sabemos que muitos dos abusos sexuais cometidos pelas forças internacionais se dão nesses campos. É la que vão buscar as suas vítimas. Há tráfico de droga, alcoolismo, exploração sexual, prostituição de jovens sobretudo em bares improvisados, circulação de armas, etc.

Quer deixar uma palavra para o próximo governo?

Serão boas eleições e a equipa que nos substituirá certamente será uma boa equipa. Deverá ter como ponto de partida o regresso dos deslocados, a pacificação da cidade, a reconstrução de escolas e de infraestruturas de saúde, para que se possa desenvolver a economia.

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