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RCA: Paradis apela à coragem do povo e pede mudança de políticas

Entrevista com o deputado Gbadora Paradis do partido URCA, apoiante da candidatura de Dologuele às presidenciais de 2016.

E-Global – Quais são as consequências imediatas da anulação das legislativas?

Gbadora Paradis – Estou muito contente pela vossa presença aqui. Relativamente à anulação das eleições não vejo nenhum inconveniente, antes pelo contrário, isto acaba por compôr a situação.  Eu mesmo que sou candidato, verifiquei, à saída das urnas, um total de cerca de 4800 votos e estava em primeiro. Mas na contagem final e anúncio dos votos da ANE contabilizei somente 4056 votos. Isto é um problema. Como se podem imaginar eleições assim, quando ainda não se votou e os boletins de voto dos candidatos ja estão queimados. Por isso mesmo há muitas irregularidades e a decisão do TC é completamente legítima e é de louvar. As pessoas que não representam a unanimidade do povo não podem estar como deputados. Isso remete o país para o atraso e a injustiça. A decisão do TC é muito boa.

Qual o impacto da anulação das Legislativas para o partido?

Não há impacto, tudo o que fazemos é no interesse do país do povo,  eu respeito o que o povo decide, respeito a decisão do TC e não tenho mais comentários a fazer. A questão da anulação é uma questão nacional, de justiça, não podemos colocar pessoas que não representam o povo  numa assembleia, e que não podem representar a nossa juventude, que é uma juventude consciente. A nossa geração não pode pagar os 50 anos dos nossos pais e que nós estamos a pagar. Antes de tudo o povo. O nosso partido respeita a decisão do TC. Nós damos tempo ao povo para se esclarecer. Do ponto de vista destas eleições há muita coisa que não está bem. A Comissão Técnica da ANE não está preparada  para as eleições e se os resultados fossem validados, aí sim haveria problemas. O que o povo decide é o que nós respeitamos. São eleições mal organizadas, pessoas do aparelho do Estado que organizaram estas eleições e que não estão preparadas, que as fizeram mal, por isso não podem ser validadas.

Quais são as causas da má organização e irregularidades?

As irregularidades são responsabilidade das nossas autoridades e da Comunidade Internacional (CI). Não se podem fazer eleições imediatas num pais que acabou de sair da guerra. Ainda não nos refizemos da guerra nem procedemos ao desarmamento, portanto não podíamos fazer eleições. Segundo ao nível da ANE não ha pessoas qualificadas para organizar as eleições. Há membros da ANE locais que nem sabem escrever nem ler, não podem sequer estar numa mesa de voto, mas estavam.

As eleições foram amadoras e mal organizadas?

Sim, foram. As eleições foram agora porque a pressão internacional foi grande e  para que os centroafricanos possam virar a página, mesmo na desordem, foi fundamental para eleger um novo presidente e governo, e começar a partir daí. Foi um mal necessário. Relativamente aos presidentes, que foram uma escolha legítima do povo, precisam de ter deputados dignos e participativos e não os que foram eleitos,  nem os antigos deputados que contribuem para que tudo se mantenha na mesma. Não podemos continuar com estes deputados na Assembleia. Precisamos de ter deputados capazes de defender a população, o país e quem os elegeu.

Esta situação pode ajudar os deputados a reflectirem melhor sobre o seu papel na política?

Sem dúvida. É preciso corrigir os erros do passado. Ainda há muitos que se julgam melhor que os outros mas esse tempo já passou. Mesmo ao nível dos candidatos a  deputados há muita desconfiança. Muitos compraram cartões para dar à população para que votassem fraudulentamente. Com os deputados que foram eleitos iríamos insultar o nosso país. Esta situação curou a ferida aberta pelas eleições.

Podemos dizer que é um grande momento da RCA? Da grande mudança?

Sim, é um grande momento.

A anulação das eleições vai colocar em causa o ambiente de segurança?

Não, não creio e podem ver por vocês próprios que tudo é calmo. Se assim fosse a esta hora já estaria tudo sob descontrolo. Os centroafricanos perceberam a necessidade desta anulação. Se houvesse contestação por causa da anulação, hoje veriam os centroafricanos na rua.

Ontem foi um ponto de viragem na consciência social dos centroafricanos?

O silêncio prova-o, não há contestação e isso prova a  civilização e o respeito pelas instituições. A paz existe e a que não existe é feita pelos homens de ma fé e não pelos centroafricanos. Esta violência não é nossa, é importada, veio de fora e estamos prestes a combater este fenómeno que vem de fora, que não é daqui.

Que mensagem quer deixar aos centroafricanos?

A mensagem que quero deixar é que numa primeira fase dizer obrigado e agradecer ao TC pelo seu tempo e pelo seu trabalho que é definitivo para a paz no país. Fizeram um bom trabalho que içou a bandeira da RCA que estava a meia haste.

Outra mensagem é dizer aos centroafricanos que tudo o que sofreram é fruto da transformação da política do ódio, mas agora a política mudou e pedimos ao povo que sigam os políticos que possuem uma ideologia de desenvolvimento, de paz, de  segurança e não de ódio. Todos os dias os centrofricanos quando saem de casa devem perguntar-se o que vou fazer? E quando chegam a casa devem pensar o que fiz hoje? Para onde vou? Por isso votar em Dologuele é importante. É bom que o povo faça uma boa escolha dos políticos, de políticos que façam desenvolver o pais, e não o contrário que pensem somente no seu benefício e benefício dos seus grupos de amigos. Agradeço ao povo centroafricano pelo seu respeito e pela sua maturidade e encorajo-os a continuarem este caminho.

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