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Retratos de um Brexit anunciado II

As Associações e grupos de apoio aos portugueses em Inglaterra são peremptórias no seu discurso. Não há necessidade de entrar em pânico e alertam para o aparecimento de burlões. As pessoas deverão manter-se informadas e recorrerem às associações ou grupos de apoio à comunidade. A verdade é que algo mudou.

 

 

Edson, Coordenador do grupo Amigos Help Center, Brighton, Sul de Inglaterra

“As perguntas das pessoas vão no sentido de saber se quando o Brexitse acontecer irão continuar a ter os seus direitos garantidos, se terão de sair do país, como é que vai ficar a questão dos seus filhos… “

O Brexit permanece ainda uma incógnita, mas até ao momento ainda não há nenhuma mudança efetiva. Na nossa instituição temos procurado informar as pessoas e ajudá-las a fazer todos os procedimentos no sentido de regularizarem a sua situação com brevidade.

Há informações diversas mas ainda não há um quadro com medidas concretas. Não há uma definição nem do parlamento Europeu nem do parlamento britânico e se não houver nenhum tipo de acordo isso vai causar transtorno para todos. As perguntas das pessoas vão no sentido de saber se quando o Brexit se estabelecer irão ter os seus direitos garantidos, se terão de sair do país, como é que vai ficar a questão dos seus filhos…  Há portugueses que nunca regularizaram a sua situação aqui porque tinham um passaporte europeu, mas agora isso vai mudar, cada cidadão estrangeiro terá de comprovar a sua residência na Grã-Bretanha. No entanto, os europeus aqui residentes há mais de cinco anos, que pagam os seus impostos não terão qualquer problema, já aqueles que virão já no próximo semestre terão que lidar com mais burocracia.

Estou há nove anos e meio em Inglaterra e fiquei surpreendido com o Brexit, havia a certeza que não seria este o desfecho e em termos percentuais a diferença foi muito pequena. Muitas das pessoas que votaram no Brexit, fizeram-no sem ter consciência do que estavam realmente a fazer. Há interesse em que se faça um novo recenseamento e eu creio que se isso acontecesse o Brexit não passaria. No aspeto económico vão haver algumas dificuldades nos primeiros 2, 3  anos e já se verificam aumentos em alguns artigos alimentares e nota-se que faltam alguns produtos importados.

 

Ana Szabo, Professora de Ciências e Secretária do Conselho Fiscal da Associação da Cultura Portuguesa na Grã-Bretanha, Wrexham, Manchester

“(…) A Alemanha decide, a França concorda e os outros obedecem. Além disso, o sentimento perante os emigrantes (tal como em qualquer outro pais, mesmo em Portugal) não é o melhor.” 

Estou em Inglaterra há dezasseis anos e sempre em Wrexham. A Associação da Cultura Portuguesa na Grã-Bretanha existe há cinco anos. Como todos os cidadãos a residirem aqui, até os próprios britânicos, a nossa comunidade sente-se insegura, não assustada. Aqui em Wrexham temos um caso de uma pessoa que anda a tentar espalhar o pânico junto da comunidade portuguesa e a alarmar as pessoas, mas é um caso isolado. De resto, o sentimento é de aguardar tranquilamente o que aí vem.

Para já todos teremos de nos inscrever no settlement status– gabinete da administração interna- a fim de obter a necessária legalização perante as autoridades britânicas e a Associação teve que se inscrever como prestadora de servicos junto do governo britânico para poder ajudar todos aqueles que queiram fazer essa inscrição, pois nem toda a gente se sente à vontade para fazer isso pela internet.

Era já claro para nós que havia um grande descontentamento no seio da população britânica e pela forma como a UE está a ser manobrada, o eixo germano-francês, que deixa de fora todos os outros… A Alemanha decide, a França concorda e os outros obedecem. Além disso, o sentimento perante os emigrantes (tal como em qualquer outro pais, mesmo em Portugal) não é o melhor.

Em relação aos portugueses, ninguém que tenha conhecimento regressou por causa do Brexit. De facto, alguns têm regressado, como outros têm vindo. Apenas as pessoas com cadastro, com mais de um ano na prisão, seja em Portugal ou aqui, ou alguém que possa ser considerado de risco para a segurança do país, terá dificuldades em obter documentos.

Os funcionários do consulado português em Manchester, por sua vez, têm sido inexcedíveis. O Consulado tem feito tudo que e possível dentro das suas competências. Toda a gente terá que preencher um formulário até Março para obter a residência temporária ou permanente cá e para os que estão a pensar em vir, que venham antes de dia 28 de Março e comecem a trabalhar no dia seguinte. Literalmente.

Pedro, Responsável pela informação tecnológica na restauração e membro do Grupo Portugueses 4Europe, Londres, Inglaterra

“Durante as campanhas jogou-se muito com a emigração e os dinheiros públicos, ninguém pensou naqueles problemas do dia a dia, naquelas coisas pequeninas, por exemplo carta de condução, o que é que vai acontecer se os ingleses quiserem conduzir na Europa, o roaming que ia acabar e agora já vai entrar outra vez.”

O nosso grupo foi criado há cerca de três anos, por incentivo de Guilherme Rosa, um político português e, atualmente, somos cerca de 12 administradores e cerca de mil membros. Já estou em Londres há cerca de 20 anos e o Brexit é muito uma opinião pessoal, a verdade é que a realidade mudou, do ponto de vista político, as coisas mudaram, ainda que as pessoas digam que nada mudou. Há um outro aspeto mais pessoal, que é a atitude dos ingleses em relação aos estrangeiros. Aquilo que eles sentiam por dentro mas nunca teriam coragem de expor em público, agora com o Brexit, parece que têm carta branca para exprimir publicamente sentimentos de xenofobia, especialmente em Londres, uma cidade muito aberta culturalmente, que se vê por exemplo nos transportes público onde se nota uma atitude dos ingleses mais fechada para com os emigrantes.

Quem pense em emigrar para aqui agora terá de ter determinadas skills, terão de falar a língua, se ficarem mais de três meses terão de pedir visto em relação a quem já cá está, a situação não irá mudar assim tanto.

Muitos portugueses, não se sabe se por falta de informação ou por não se interessarem, estão a ignorar a situação, mas o Brexit vai mudar certos aspetos da nossa vida, porém não há necessidade de entrar em pânico, mas é preciso entender que as pessoas terão de fazer aquilo que lhes é pedido.

O principal objetivo do nosso grupo é mesmo lutar contra o Brexit. Foi uma surpresa para nós, mesmo para o partido que estava no governo, ninguém esperava que os ingleses escolhessem sair da União Europeia, mesmo a campanha que lutava para que o reino Unido se mantivesse na Europa, não lutou o suficiente para desacreditar a campanha do Brexit. Todos pensavam que aquilo não iria dar nada.

Durante as campanhas jogou-se muito com a emigração e os dinheiros públicos, ninguém pensou naqueles problemas do dia a dia, naquelas coisas pequeninas, por exemplo carta de condução, o que é que vai acontecer se os ingleses quiserem conduzir na Europa, o roaming que ia acabar e agora já vai entrar outra vez, todos os dias recebo notificações do Ministério da Administração Interna sobre regras para conduzir na Europa, regras para o IVA, importações e exportações, se as pessoas tivessem noção disto, provavelmente não teriam votado como votaram.

Um dos principais ativistas do Brexit, Nigel Farel, criou um partido totalmente dedicado ao Brexit, é um indíviduo cheio de contradições, mas é uma pessoa a quem os outros ouvem. Ele usou a emigração durante a campanha e o populismo aqui está a crescer bastante, mas a retirada do Brexit é um suicídio político.

O problema é que há muitas fake news e falta de informação oficial, mas reforço, as pessoas que já cá estão não podem nem ignorar completamente o que está a acontecer nem podem entrar em pânico. Há uma necessidade de fazermos chegar às pessoas a informação correta sobre o que é preciso fazer. Este novo formulário que toda a gente tem de preencher agora até Março é um processo muito simples, mas tem de se ter os dados todos em ordem.

Não tenho planos para voltar, sinto-me muito bem aqui e volto a enviar a mensagem a todos os portugueses que querem voltar, em Portugal também nada é fácil.