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Retratos de um Brexit anunciado

Vivem atualmente no Reino Unido cerca de 400 mil portugueses, desses pelo menos 100 mil vivem em Londres. O perfil do emigrante português é muito variado e estende-se pelas mais diversas profissões abrangendo muitas áreas. E como é que encaram o Brexit (expressão inglesa que significa “saída britânica” da CEE)? Com tranquilidade, embora atentos a um futuro próximo.

 

Henrique Vilhena, Engenheiro de Inovação, Cardiff

“O principal problema é a incerteza do futuro já próximo. A maior parte das pessoas com que falo estão desacreditadas com a classe política e têm relutância em falar do assunto.”

O meu nome é Henrique Vilhena, sou engenheiro de inovação e vivo em Cardiff. Cheguei ao Reino Unido há 6 anos. Antes de Cardiff vivi em Glasgow e Leeds. Durante os dois anos desde o referendo não tenho notado grandes diferenças a não ser uma certa frustração da população com a incerteza do futuro e um crescimento da polarização da sociedade. Nunca senti que o cenário fosse tão catastrófico (para já) como é relatado na comunicação social. Em particular, sempre me pareceu que as notícias portuguesas do Brexit me pareciam mais pessimistas do que realmente tenho visto por aqui. Isto leva a que muitos amigos e familiares me tenham contactado com alguma preocupação. Tenho tentado apaziguar muita gente mas estando, mesmo assim, alerta da situação.

Para já vou fazer um pedido de Residência Permanente antes do fim de Março e eventualmente peço de forma oficial a cidadania. Tenho alguma preocupação com a parte económica no caso de não haver acordo a partir de Abril. Em termos de polarização, tenho presenciado algumas discussões mais agitadas entre brexiters e remainers mas por enquanto as coisas têm estado relativamente calmas. Pessoalmente, não tenho presenciado de forma direta ou através de conhecidos meus os casos mais extremistas relatados pelos jornais tais como ataques a minorias ou armazenamento de comida ou remédios. Acredito que tenham ocorrido mas não acho que sejam tão generalizados como se tem dito. Em conversas mais privadas, muitas pessoas preocupam-se com a polarização. Os brexiters queixam-se de não poder discutir abertamente a sua posição e os remainers preocupam-se com a subida da extrema direita.

Como disse, o principal problema é a incerteza do futuro já próximo. A maior parte das pessoas com que falo estão desacreditadas com a classe política e têm relutância em falar do assunto. Nota-se muita frustração com o governo britânico como com Bruxelas e ninguém parece saber ao certo como vai ser o futuro.

 

Dina, Empregada de limpeza, Wrexham

“O custo de vida em Portugal é muito semelhante ao de cá, mas os ordenados são muito mais baixos (…) Estou com esperança que toda esta situação não afete a comunidade portuguesa.”

Já estou em Inglaterra há 17 anos, trabalho como empregada de limpeza e nunca tive qualquer problema aqui, nunca tive problema com ingleses nem antes nem depois do brexit e não penso voltar a Portugal, considero que este é o meu país e nunca conseguiria em Portugal alcançar o nível de vida que alcancei aqui, embora não seja fácil arranjar trabalho neste momento, mas penso que isso acontece em todo o lado… Tenho três filhas, duas gémeas de 22 anos e uma de 27, que já acabou o curso, e as gémeas estão a estudar na universidade, vivem aqui desde pequenas, é o país delas. Gosto muito do meu país, mas sinto que não conseguiria dar um futuro às minhas filhas como consegui aqui.

O custo de vida em Portugal é muito semelhante ao de cá, mas os ordenados são muito mais baixos e temos de pagar tudo para os nossos filhos, por exemplo, terem acesso ao ensino superior, aqui temos mais ajudas. Estou com esperança que toda esta situação não nos afete a nós (comunidade portuguesa).

 

Diana, Analista Financeira, Londres

“Quando foi decidido que o referendo iria avançar fiquei surpresa, no sentido em que é uma questão muito complexa para trazer às pessoas.”

A questão do Brexit gerou mais impacto através dos meios de comunicação e o que me preocupa para além das implicações que terá na economia é que, neste momento, com o parlamento tão dividido, ninguém se sente muito seguro. Como trabalho na área financeira discutimos o Brexit diariamente pois na minha área temos de estar a par de tudo o que acontece, do impacto que poderá vir a ter nas empresas e a criar cenários para nos prepararmos para o que poderá acontecer.

A nível pessoal a maior fonte de preocupação é realmente o facto de o governo em si não ter um consenso sobre a forma como pretende encaminhar a saída do Reino Unido e com toda a questão das negociações que continuam a andar para a frente e para trás… É mais esse clima de agitação que se sente, mas, no geral não é palpável, deixa-nos um pouco alerta.

Há oito anos e meio que estou em Londres e quando foi decidido que se ia realizar o referendo fiquei surpresa, no sentido em que é uma questão muito complexa para trazer às pessoas. A campanha, em si, também teve algumas falhas de ambos os lados, não foi a mais informativa que se poderia ter tido, os resultados foram muito próximos, pois, é claramente uma questão que divide o país e depois temos diferenças de resultados a nível geográfico bem patentes nas diferenças registadas entre as cidades mais pequenas e os grandes centros urbanos. Como ganhou o brexit e o parlamento decidiu aceitar esse resultado, pensei logo em que termos se iria concretizar essa saída.

Quando vim para cá, sempre pensei em Inglaterra como fazendo parte da Europa, sempre senti que somos uma grande comunidade, mas de qualquer maneira já havia um controle de passaporte nos aeroportos, visto que o Reino Unido não pertence ao espaço Schengen e já tínhamos um pouco esse transtorno.

Aqui sinto-me muito valorizada a nível profissional e não sinto a pressão de ter de sair, o que fiz no imediato foi submeter a candidatura para a naturalização e em termos de documentação temos de estar mais preparados, mais atentos e sermos pró-ativos.

 

Ana Oliveira, Manager, Wrexham, Manchester

Quem estiver a pensar em vir para cá agora terá obrigatoriamente de falar a língua”

“Estou em Inglaterra há 15 anos e até ver o brexitnão me afetou em nada. Nunca pensei voltar a Portugal por causa disto, sinto-me muito bem aqui, gosto de Portugal, mas este também é o meu país. Quem estiver a pensar em vir para cá agora terá obrigatoriamente de falar a língua, respeitar novas regras, não terá tanta facilidade em encontrar trabalho como antes e o custo de vida está mais elevado desde o brexit, no entanto não sei, se haverá alguma relação, pois o ordenado mínimo também sobe todos os anos.”

 

Tiago, Desempregado, Wrexham, Manchester

 “Não penso voltar a Portugal nos tempos mais próximos, apesar de ter a minha filha de três anos à minha espera e é isso que me faz  balançar.”

Sinto que em Portugal quando perdemos o emprego é muito díficil sair dessa situação, a facilidade de arranjar trabalho aqui é completamente diferente e  para poder criar uma filha em Portugal tive de me vir embora, porque simplesmente um dia fui com ela a um supermercado e não tinha dinheiro que chegasse para lhe comprar um brinquedo.

Vim para cá há três anos e assinei contrato um dia antes do brexit, comecei a trabalhar numa fábrica de leite, numa área de despacho, como picker, passado duas semanas aumentaram-me o ordenado porque eu estava a trabalhar bem, seis meses depois passei a supervisor até que deixei trabalhar ali, mas em menos de 15 dias já tinha outro emprego e agora já analisaram o meu currículo e já tenho várias propostas.  Penso que aqui há uma cultura de trabalho completamente diferente daquela que existe em Portugal, há outra maneira de gerir recursos humanos. Foi no País de Gales que me senti valorizado e é muito triste sentir o meu ponto de equilíbrio tão longe do meu país.

Em relação ao brexit não estou nada preocupado com o que se está a passar. As pessoas que por vezes falam para a comunicação social incutem-nos medo, por isso é que temos de estar bem informados, pois, a realidade é, muitas vezes,  completamente diferente daquela que passa nas televisões.

Nunca senti qualquer ato de racismo ou xenofobia, antes pelo contrário, sempre me senti valorizado a nível laboral, mas há pessoas ignorantes em todo o lado e aqui não é exceção. Não penso voltar a Portugal nos tempos mais próximos, apesar de ter a minha filha de três anos à minha espera e é isso que me faz balançar.

Em relação ao brexit, o que eu me apercebi é que os ingleses foram muito mal informados, a campanha não foi bem feita, mas agora é esperar para ver o que irá acontecer.

 

Sofia Tavares, Personal Shopper, Londres, perto do Aeroporto de Heathrow

“Há imensas notícias que saem diariamente e algumas delas contraditórias e, pior, às vezes as pessoas que aqui vivem também dão informações falsas ou erradas o que faz criar ainda mais incerteza.”

Estou há cerca de 3 anos e meio em Londres e, na verdade, não notei que tivesse mudado nada de especial, só notei a subida de preços nos produtos, sejam eles bens essenciais ou outros. O único receio que sempre tive com o brexit era que não houvesse acordo, isso seria catastrófico, mas, uma vez que um hard brexit foi reprovado no parlamento inglês, tenho esperança que o Artigo 50º do Tratado de Lisboa seja estendido e que o Reino Unido consiga de uma vez por todas explicar à UE o que realmente quer, já que de momento nem o próprio país parece saber o que realmente pretende. Para já mantenho-me informada e recebo com frequência emails do Home Office com todos os updates.

Na zona onde vivo não temos uma grande comunidade portuguesa, no entanto discute-se o assunto com frequência, não diariamente, nem mesmo com todos os acontecimentos que se sucedem.

Quando se deu o Brexit, sinceramente, fiquei muito surpreendida com o resultado, principalmente quando vi que o País de Gales votou para sair, sendo que esta é a zona do Reino Unido que mais recebe Fundos Comunitários da UE devido à quantidade de quintas e fábricas existentes.

O que mais receio que possa vir a acontecer é o surgimento de uma crise financeira e a recessão que se poderá vir a instalar no país depois da saída, mesmo com acordo formalizado.

As pessoas, atualmente, que pensam em emigrar estão receosas com o que poderá acontecer, porque, infelizmente, o Reino Unido ainda não se decidiu até ao momento.

Há imensas notícias que saem todos os dias e algumas delas contraditórias e, pior, às vezes as pessoas que aqui vivem também fornecem informações falsas ou erradas, o que gera ainda mais incerteza.No entanto, acredito que ainda é um bom país para emigrar, se tiverem vontade de trabalhar e não se importarem de começar por baixo e irem progredindo! Mas, não venham com a certeza de que o vosso curso superior vos dará logo acesso a um bom emprego.

 

 

por Ana Gonçalves

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