Crise | Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Medidas contra Coronavírus provocam revoltas e protestos em Bissau

As forças da Polícia da Guiné-Bissau interditaram em todo o país, a partir desta quinta-feira 19 de Março, os vendedores guineenses de prosseguirem com as suas actividades comerciais. Como fundamento, as autoridades policiais evocam a decisão do Governo que na véspera ordenou o encerramento dos mercados.

Esta medida de prevenção contra o surto de Covid-19 foi mal acolhida no Mercado de Bandim e Caracol, nos arredores de Bissau, resultando em confrontos entre forças de ordem e os feirantes e demais comerciantes, tendo a polícia recorrido ao lançamento de granadas de gás lacrimogéneo para dispersar os comerciantes que resistiram à ordem.

Pressionado pelo descontentamento popular face às medidas preventivas contra a epidemia Coronavírus, o Governo de Nuno Gomes Nabiam foi obrigado a promover no mesmo dia uma conferência de imprensa para explicar melhor o que pretendia proibir com as decisões que tomou.

O ministro do Interior, presente na Conferência de Imprensa, prometeu que aqueles que ordenaram a carga policial contra vendedores serão responsabilizados, segundo a gravidade dos seus actos, porque nem o Governo, e muito menos o seu ministério, deu tal ordem.

Guineense apanhados de surpresa

Esta quinta-feira foi marcada por um ambiente de pânico em Bissau após as medidas anunciadas pelo Governo para a prevenção contra o Coronavírus. Medidas que não foram apenas mal interpretadas, mas também apanharam desprevenidos todos os cidadãos. Tendo em conta que o Conselho de Ministros deliberou a decisão no dia 18 e em menos de 24 horas já estavam a ser aplicadas.

O erro do anúncio começou com Umaro Sissoco Embaló a 17 do corrente mês. Numa mensagem dirigida à Nação, na qualidade de Presidente da República, depois de qualificar o surto de Coronavírus de “pandemónio”, em vez de “pandemia”, anunciou o encerramento das fronteiras e medidas restritivas internas. Referiu também sobre o fecho dos estabelecimentos comerciais, mercados, restaurantes, bares, espaços de diversão e demais locais de aglomerações.

No dia seguinte o chefe de Estado presidiu o Conselho de Ministros (segundo desde que chegou à Presidência no dia 27 de Fevereiro) e no final reiterou as decisões anteriormente anunciadas, salvaguardando que seria autorizada a venda de produtos de primeira necessidade, excepto carne.

O comunicado do Conselho de Ministros integrou essas restrições, mas a sua aplicação foi problemática. Na manhã do dia 19, os espaços de venda em todo o território nacional, pareciam zonas fantasmas. Não se sabe quem deu ordem em concreto, mas as forças de ordem impediram a venda até de legumes. Quem vendia materiais de construção, foi sujeito às mesmas restrições de quem vendia sacos de arroz. Os vendedores de peixe puderam prosseguir com as suas actividades, contrariamente aos magarefes nos talhos. Em menos de uma hora, os cidadãos das grandes cidades do país (Bissau, Bafatá, Gabú e Canchungo), já não conseguiam adquirir os mais básicos géneros alimentícios.

A confusão instalou-se quando algumas vendeiras, com os seus argumentos, começaram a resistir à ordem de encerramento dos cacifos ou remoção dos seus produtos de venda. Face a esta resistência a Polícia começou a usar a força, mas também espancou pessoas, apoderando-se daquilo que estava exposto, o que agravou mais ainda o clima de revolta.

Face à atitude das forças de ordem, cidadãos presentes interpretaram a acção da polícia como uma actuação com cunho político. Isso se verificou mais nas zonas de Caracol. Este mercado, com forte presença de estrangeiros, sobretudo nacionais da Guiné Conacri, viveu momentos de turbulência quando as comerciantes de hortaliças começaram a questionar o motivo de serem impedidas, mas não os “Nanias” (nome popular, pejorativo, que os guineenses atribuem aos emigrantes provenientes da Guiné Conacri), considerando ser uma medida discriminatória e alegaram que seria devido ao facto de os “Nanias serem fulas como Umaro Sissoco”, lançando assim o rumor, contou uma testemunha.

Face à reacção dos comerciantes, a Polícia aplicou a mesma medida a todos os comerciantes. De um momento para outro, todos os mercados ficaram desertos e começaram a circular cada vez mais protestos através dos órgãos de comunicação social e redes sociais, sendo o alvo das criticas a actuação do Governo, considerando alguns críticos que prevalecendo estas medidas contra a epidemia Coronavírus “os guineenses todos morreriam de fome”.

Escassez e o aumento dos preços

Logo no primeiro dia da aplicação das medidas, o mercado foi inflacionado. Os produtos de primeira necessidade foram os primeiros afectados com uma subida dos preços. Um quilograma de peixe (onde for possível encontrar) passou de 2500 Fcfa (cerca de 3,8 euros), para 4 a  5 mil Fcfa, perto de 8 euros.

A escassez de pescado deveu-se às medidas restritivas impostas no Porto de Bandim onde é efectuado o desembarque da pesca industrial e artesanal. O ambiente de revolta aumentou quando os magarafes começaram a questionar, como era possível aceitar a venda de pescado, mas não de carne. O silêncio da polícia contribuiu para agravar o clima de tensão já patente.

Os comerciantes “mais teimosos” continuavam a especular. Por exemplo, uma garrafa de um litro de lixívia, que habitualmente é vendida a 1000 Fcfa, passou para 1700 Fcfa nas zonas do Mercado Central, que ainda aguarda pela conclusão das obras. Também no mercado, 25 quilos de cebola que custava 4000 Fcfa atingiu agora 5000 Fcfa. A especulação não foi de maiores proporções porque os comerciantes não conseguiam abrir as suas lojas. O mesmo aconteceu com os comerciantes domésticos de bairro.

A Sociedade Civil organizada já se posicionou ao lado das restrições adoptadas, e deslocou-se à Presidência da República para incentivarem Umaro Sissoco a prosseguir com as medidas preventivas contra o Covid-19.

Governo face à pressão popular

À medida que a Polícia e a Guarda Nacional actuavam, a revolta popular dava sinais de aumentar. Nas ruas os cidadãos criticavam a decisão e simultaneamente exigiam igualdade de tratamento. Por exemplo, tendo em conta que a decisão é impedir aglomeração de pessoas, exigiram que fosse proibida a circulação dos transportes urbanos e táxis.

Um pouco por todo o lado a acção do Governo era criticada em duas vertentes. Primeiro, por não ter sido capaz de explicar o que estava interdito e em segundo, a precipitação de o Governo reunir num dia e estar a aplicar as medidas no dia seguinte, sem que a população tivesse possibilidade adquirir provisões. A agravar a situação, estão os funcionários públicos, que para além do seu fraco poder de compra, há cerca de três meses que não recebem os salários.

Durante a conferência de imprensa promovida pelo Governo, Mamadú Serifo Djaquité aproveitou para alertar os comerciantes que, todo aquele que pensar que a restrição de vendas pode ser uma oportunidade para inflacionar os preços, o Governo vai aplicar medidas punitivas. Djaquité destacou também que os produtos de primeira necessidade podem continuar a ser comercializados e garantiu que o Governo vai criar condições para que não faltem.

Sobre alguns rumores que já circulam, Djaquité disse: “Mas como é que vocês acham que vamos até restringir as vendas nas farmácias, se os doentes precisam de ser curados!? Portanto, tudo isso é falso o que estão a dizer. É por isso que está aqui o ministro do Interior para mostrar o que Executivo decidiu”.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo