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Forças estrangeiras cada vez mais contestadas por populações do Sahel

O aumento da actividade das organizações terroristas nos países do Sahel tem sido proporcional ao aumento da contestação das populações destes países contra as forças estrangeiras empenhadas no combate aos grupos terroristas.

No Burkina Faso, Mali ou Níger as forças estrangeiras são equiparadas a “forças de ocupação”, um sentimento que se incrustou no imaginário popular alimentado pela imprensa local que, juntamente com as autoridades destes países, não conseguem apresentar mais argumentos que sustentem a ineficácia das tímidas medidas para travar a galopante recrudescência da actividade terrorista. As “forças estrangeiras” tornaram-se no “bode expiatório” útil, tanto para a população como para os governos locais.

Os militares franceses, da força Berkhane, que evitaram in extremis através da Operação Serval que o Mali se tornasse num estado controlado por organizações islamistas, sobretudo a Al-Qaeda, são acusados agora de permanecerem no Mali para “pilharem” os recursos naturais do país. Na mesma dinâmica, os governos destes países são acusados de colaborarem com a antiga potência colonizadora e serem “lacaios de Paris”.

No centro das críticas estão os 4.500 militares da força Barkhane no Sahel e os 13.000 Capacetes Azuis da Minusma no Mali, assim como organizações estrangeiras que também levam a cabo a luta contra as organizações terroristas e têm, igualmente, a missão de garantir a protecção dos civis.

Com a multiplicação dos revezes militares malianos e burkinabes face aos jihadistas, e a repetição de massacres de civis em conflitos étnicos bem como vítimas de grupos islamistas rivais, as populações locais acusam as “forças ocupação” de inacção, e consequentemente de “cumprirem outra agenda” que não prevê a estabilização dos países, manutenção da segurança ou protecção dos civis.

A 12 de Outubro duas acções simultâneas, mas não coordenadas, ilustravam o sentimento das populações locais quanto à missão das “forças estrangeiras”. Enquanto cerca de 50 contentores da Minusma eram pilhados no Mali, um milhar de manifestantes protestavam na capital do Burkina Faso, Ouagadougou, contra a presença das “forças de ocupação”. Um cenário que tem-se reproduzido no Níger desde o início do ano com manifestações sucessivas contra a presença estrangeira.

Quando em Janeiro de 2013 tropas francesas intervêm no Mali, no quadro da Operação Serval, que em 2014 foi absorvida pela Barkhane, a fim de travar a ofensiva islamista que já ocupara metade do país, foram acolhidos como salvadores e com uma acolhedora euforia da população. Mas o Estado de Graça durou pouco. O aparente sucesso militar camuflou uma nova configuração da operacionalidade das organizações islamistas combativas. Os movimentos e grupos terroristas concentrados na metade norte do país dispersaram-se pelos países vizinhos, enquanto outra parte se movimentou para a região central maliana criando novas configurações jihadistas com algumas estruturas autónomas isoladas e outras organizadas com uma coordenação piramidal, tais como a “federação terrorista” liderada pelo tuaregue maliano Iyad Ag Ghali.

Paradoxalmente a dispersão das organizações terroristas fomentou a união com a criação de agrupamentos de facções rivais e federações terroristas, por vezes improváveis e ideologicamente contranatura, no entanto todos com um inimigo comum.

Na noite de 1 a 2 de Novembro 49 militares das Forças Armadas Malianas (FAMa) da base de Indelimane, assim como um soldado francês da força Barkhane em Ménaka, foram mortos em múltiplos ataques levados a cabo pela organização do Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS), uma organização que nos últimos anos tem dado provas de uma crescente capacidade mortífera. Com esta operação, que demonstrou uma elevada organização e tecnicidade combativa, o EIGS, para além das baixas causadas, expôs a vulnerabilidade das FAMa, Barkhane, Minusma e G5 Sahel na manutenção da segurança do triângulo Mali, Níger e Burkina Faso, que faz face a um aumento sem precedentes da actividade terrorista.

Na nova mecânica da espiral da insegurança, e o vazio persistente da autoridade do estado cujo Governo permanece barricado nas respectivas capitais, grupos de autodefesa armados surgiram, que tanto combatem os jihadistas como estabelecem parceria de cooperação, mas também as bases essencialmente étnicas de cada grupo de autodefesa levou à multiplicação do número de incidentes caracterizados como conflitos interétnicos locais no Mali e Burkina Faso.

Sentindo-se abandonada pelo estado, a população das zonas críticas passaram a encarar os islamistas e jihadistas como a única autoridade na região. Para além de um apoio logístico rústico mas fundamental, as populações locais passaram também a fornecer o maior número de jovens candidatos à jihad, os quais absorveram a propaganda dos grupos jihadistas que qualificam as “forças estrangeiras” como “forças de ocupação”.

Os críticos à presença das “forças estrangeiras” no Mali, Burkina Faso e Níger, têm como principal argumento uma fórmula aritmética que assenta no número de militares da Barkhane e Minusma que reúnem cerca de 20.000 efectivos que são, segundo os críticos, incapazes de derrotar 3.000 jihadistas. Mas também, com base na incompreensão sobre os mandatos da Minusma e Barkhane, e limitações inerentes a estes mandatos, acusam estas forças de não impedirem os mortíferos conflitos intercomunitários, mantendo uma postura de “observadores”. As ONG locais participam nas acusações apontando à França o facto de não contibuir no desenvolvimento local como uma das soluções para travar os conflitos intercomunitários e combater a influência dos jihadistas. Seria necessário acrescentar que a Barkhane e a Minusma, apesar de alguns sucessos militares, não beneficiam do apoio nem simpatia das populações locais, dificultando a operacionalidade destas forças no solo.

Segundo observadores internacionais e locais, os enormes meios militares empregues pelas tropas francesas no Sahel são insuficientes para combater os 24 grupos jihadistas identificados e dispersos no Sahel, em que apenas o Mali tem um território com uma superfície equivalente à Europa ocidental. Assim, os contestatários à presença francesa alegam que a França está, por um lado, a perder a guerra no Sahel, e por outro insiste em marcar presença na região com uma postura “colonialista” apenas para proteger os seus interesses económicos e garantir a manutenção no poder de dirigentes “lacaios” de Paris, tal como definem os opositores.

Após os sucessos militares no Mali em 2013, o sucesso diplomático com a criação da força G5 Sahel, que dificilmente consegue manter coesão e operacionalidade, a força Barkhane estagnou por motivos financeiros e falta de recursos humanos suficientes para o vasto teatro em que opera. A contenção dos recursos limita, consequentemente, o campo de acção e os critérios das prioridades operacionais. A piorar a situação, a França que representa as “forças estrangeiras” está perante um novo inimigo incarnado na hostilidade das populações locais.

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