Angola | Entrevista

Bilhete de Identidade Associativo – Luís Victorino

O Presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal – AEA, Luís Victorino, caminha a passos largos para o fim da sua carreira académica e aproxima-se  também do fim do seu mandato. É o fim de um ciclo enriquecedor,  como o próprio reconhece; “acabou por ser um estágio.” Desde 2013, ano em que entrou na direção da Associação, até à data, os desafios e os problemas foram muitos, mas destaca dois momentos em particular: a crise angolana e a forma como isso ainda afeta os  estudantes angolanos e a especulação imobiliária em Lisboa, que, a manter-se, “vai afastar em definitivo a chegada de  estudantes angolanos a Portugal”.

 

e-Global – O que  representa a Associação de Estudantes angolanos em Portugal?

Luís Victorino – Eu sou o Presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal que alberga todos os estudantes associados que estudam no país. A associação encontra-se  dividida em várias direções regionais sediadas no Porto, Coimbra, Évora, Bragança, e também em algumas delegações nos sítios onde se encontram menos estudantes, mas é em Lisboa que se encontra a direção.

eG – Como se processa a dinâmica deste movimento estudantil?

LV – A Associação é uma organização de cariz social, cultural e juvenil, sem fins lucrativos que se rege de acordo com a constituição portuguesa de acordo com as leis das  associações juvenis em vigor. Os associados, aqueles que cumprem com os requisitos estatutários, que estejam matriculados numa instituição do Ensino superior podem constituir uma lista e de dois em dois anos podem candidatar-se a um mandato.

eG – Qual a tua área de formação académica?

LV – Formei-me em Contabilidade e Finanças no Instituto Politénico de Setúbal e acabei o mestrado este ano, o que também coincide com o fim de mandato da Associação. É o fim de um ciclo!

eG- E qual o legado que fica desta experiência?

LV – Esta Direção empenhou-se em dar uma nova vida ao movimento associativo dos estudantes africanos. Eu estou na Associação desde 2013 e de lá para cá houve várias atividades que foram bem sucedidas, trouxemos muitos benefícios para os associados, especialmente no período de crise e temos a noção de que nos tornámos um grande porto de abrigo e integração para os estudantes que nos procuraram.

eG – Quais são os maiores problemas com que os estudantes se deparam atualmente?

LV – Há dois grandes problemas que afetam a comunidade de estudantes angolanos;  os atrasos na obtenção da documentação necessária no SEF e a falta de casas, especialmente em Lisboa, que está a impedir que mais estudantes venham para cá e até a levar ao abandono dos estudos.

Durante o período de crise em Angola houve muitos estudantes que contraíram dividas, que não puderam pagar as rendas de casa, tivemos de renogociar com as faculdades programas faseados de pagamento de propinas  para os alunos não perderem o ano letivo, tivemos de pedir ajuda à Caritas, aos bancos alimentares porque os alunos passavam fome, enfrentámos todos esses problemas, que felizmente ultrapassámos, no entanto agora com o mercado imobiliário tão inflacionado, não conseguimos encontrar uma saída, não há quartos, não há casas e asituação está a ficar assim um pouco por todo o país.

eG – O número de estudantes angolanos continua a crescer em Portugal?

LV – Há poucos dias o ministério do Ensino superior e o Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Angola estabeleceram parcerias para que os estudantes angolanos possam continuar a vir para cá estudar, mas claro que o número diminuiu significativamente, até porque já há outros destinos e acordos com outros países europeus.

eG – E a maior parte dos estudantes optam por ficar em Portugal ou regressam?

LV – Depois de finalizarem os estudos,  a maior parte dos bolseiros regressa, mas quem estuda por conta própria acaba muitas vezes por ficar. Eu sinto-me dividido…. Foram sete longos anos e acabei por me integrar de forma muito positiva à realidade do país, fiz muitas amizades, estou a trabalhar na minha área de formação, sou feliz aqui, mas vai tudo depender das oportunidades que surgirem.

eG – Foi difícil conciliar o percurso académico com a direção associativa, ao longo destes anos?

LV – O que se observa muito é que as pessoas quando entram nestes círculos associativos tendem a distanciar-se dos  estudos, mas nós, nesta experiência, aprendemos a ser organizados, aprendemos a conciliar o tempo e tornámo-nos embaixadores da nossa cultura, proporcionando bons momentos para todos os estudantes.  A maior parte dos jovens olha para as associações como sitíos de diversão, mas não é assim. Para quem está aqui com bolsa o tempo está contado e os poucos recursos que dispúnhamos obrigaram-me a ser ponderado, organizados, a decidir com ponderação e isso tanto na associação, como depois ao longo da vida. Os estudantes devem ir para movimentos associativos para acrescentar valor ao seu período académico e não somente pela diversão. Para mim foi estágio, aprendi muito.

eG – Os estudantes portugueses precisam de conhecer um pouco mais do que é a cultura e diversidade angolanas?

LV – Quando cheguei cá notei uma certa ignorância por parte dos estudantes portugueses em relação à realidade angolana e africana, porque muitos limitam-se a conhecer o que os media mostram. O facto de não participarmos nas praxes faz também com que haja um distanciamento entre os estudantes portugueses e africanos. Mas os estudantes passam todos pelos mesmos problemas e se se mantiverem juntos conseguem ultrapassar as adversidades mais facilmente.

eG – Considera que a situação angolana agora está mais estável? Algo mudou depois da grave crise económica de 2014?

LV – Em relação a Angola, a situação ainda não é perfeita, mas nota-se um esforço por parte do atual governo. Contudo, os estudantes ainda têm muitos problemas em relação às transferências bancárias.  Se recorrermos aos bancos, as transferências chegam a demorar meses e durante esse tempo não há dinheiro para nada. No período de 2013/14 em que passámos por muitas dificuldades, as várias universidades estatais ajudaram muito, e de forma geral temos de agradecer às instituições que nos deram a mão. Houve situações em que os estudantes tinham divídas de vários meses, mas os serviços sociais  funcionaram sempre e asseguraram a distribuição de gratuita de senhas de refeição, permitiram o pagamento faseado de propinas… Os estudantes sentiram-se muito apoiados.

eG – Vislumbra-se no horizonte uma carreira política?

LV – Eu não faço carreira política, mas atuo como cidadão. Quando cheguei aqui a Portugal perdi a bolsa e passei por muitas dificuldades, tudo correu mal, mas como tive a capacidade de superar os problemas e de me orientar, sinto que também é meu dever ajudar outros estudantes. Política? Talvez um dia mais tarde, mas atualmente sinto-me feliz e realizado com a minha carreira profissional.

eG – O que leva desta experiência como líder associativo?

LV – Eu formei-me na área de contabilidade e finanças, em relações empresariais. Ajudou-me a trabalhar em grupo, a trabalhar por objetivos a planear e a criar alternativas, percebi que temos sempre de  ter um plano B. Enfrentam-se muitos problemas neste cargo, acabamos por lidar com várias sensibilidades, vários estratos e sofremos muitas pressões. Há também diferenças culturais muito fortes entre Portugal e Angola.  Por exemplo, nós, em Angola, estamos habituados a cumprimentar toda a gente quando entramos no autocarro mas aqui se fizermos isso ninguém nos responde e isso é normal.  No entanto, para quem chega e não conhece como funciona o quotidiano desta cidade é tudo muito estranho… A associação também tenta presta este tipo de informações, o nosso papel passa por acolher, informar e orientar todos os assiados, para que possam adaptar-se o melhor possível.

eG – Qual o conselho que deixa aos jovens angolanos que estão agora a chegar agora a Portugal?

LV – Quando eu cheguei a Portugal descobri que não estava matriculado, tudo correu mal… É difícil chegar cá e descobrir que não havia qualquer processo na Universidade e as implicações que isso gera. Cheguei para ser piloto, tinha esse sonho, mas a realidade dá-nos um abanão e aprendi a não me prender aos sonhos. Correu tudo mal e eu podia ter-me frustrado e perdido por aí, mas aprendi a dar a volta. Afinal, um contabilista não pode ter a cabeça nas nuvens (risos)…

 

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