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Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola: “Ninguém acreditava que a crise em Angola fosse chegar como chegou”

Presidente da CCIPA - João Luís Traça

Presidente da CCIPA – João Luís Traça

João Luís Traça foi eleito Presidente da Direção da Câmara de Comércio e Indústria Angola-Portugal (CCIPA) em abril deste ano e assume o cargo até 2019. A CCIPA é uma associação empresarial privada sem fins lucrativos, que tem sede em Lisboa e pretende ser o ponto de encontro de empresários no sentido de se criar um mecanismo de associativismo empresarial, com o objetivo de aproximar e criar condições para haver maiores relações entre os empresários de Portugal e de Angola, começa por explicar João Luís Traça em entrevista à e-Global.

A CCIPA assinala em 2017 os trinta anos de existência e, por isso, o Presidente coloca em paralelo a história da associação empresarial com o desenvolvimento do contexto das relações entre Portugal e Angola, tanto pela atividade da Câmara de Comércio, como pela história dos empresários associados desde a criação da CCIPA, em 1987.

Atualmente, a CCIPA tem mais de 300 associados em Portugal e Angola, mas tem diminuído o ritmo com que saem e entram associados, revela o Presidente. As empresas que são associadas desta Câmara de Comércio bilateral têm várias vantagens, esclarece João Luís Traça, tais como o acesso a aconselhamento sobre quais os melhores contactos a realizar em Portugal e em Angola; o direito aos designados “serviços regulares”, tais como o “clipping”, em que é oferecido, semanalmente, um extrato das notícias mais relevantes em Angola que envolvam empresas portuguesas, e ainda a possibilidade de participar nos vários eventos organizados pela própria Câmara de Comércio. Destes eventos promovidos pela associação, destacam-se os “business breakfast”, que reúnem os empresários dos dois países durante uma manhã para que se possam conhecer, e ainda os “Encontros Angola-Portugal” que acontecem na capital angolana, sempre em simultâneo com a Feira Internacional de Luanda (FILDA) e que são já uma tradição da CCIPA. João Luís Traça acredita que muitos empregos que foram criados em Angola e Portugal se deveram a oportunidades criadas por estes eventos, para empresas portuguesas terem contacto com empresas angolanas, e afirma que esse é um dos objetivos da CCIPA: criar condições para que as oportunidades possam acontecer.

“a CCIPA deve ser um dínamo das relações empresariais entre os dois países”

Para dar a conhecer as várias empresas associadas e divulgar as suas atividades, a CCIPA publica o “Anuário Portugal-Angola”, que reúne uma listagem de associados, complementada com alguma informação que nós estruturamos numa perspetiva anual. A publicação é muito lida pelos associados e constitui também uma boa ferramenta para novas entidades que estão no mercado poderem ver as empresas que estão com o olho em Portugal, reitera.

A CCIPA surgiu há trinta anos num contexto económico e empresarial muito diferente do atual. No início da atividade da CCIPA, Angola era um país que ainda estava em guerra e, desse modo, a maioria das empresas portuguesas associadas procuravam apenas exportar e não investir no mercado angolano, explica o Presidente. Com o fim do conflito, as empresas portuguesas deixaram de ser meras exportadoras e passaram a olhar para Angola como um país em que vão criar parcerias para, em conjunto com empresas angolanas, desenvolverem projetos. Para a CCIPA, a transição de Portugal enquanto “exportador” para um país de empresários que desejam investir e implementar projetos, foi bastante clara e refletiu-se também nos perfis dos associados, sublinha João Luís Traça. Para o Presidente, esta é uma forma interessante de olhar a própria história da CCIPA, que acaba por ser um reflexo da realidade do relacionamento entre os dois países.

E não só nas empresas portuguesas se alteraram os hábitos, também nas empresas angolanas se têm verificado mudança, particularmente nos últimos dez anos e prova disso é que existem várias empresas portuguesas que são detidas por capitais angolanos, exemplifica João Luís Traça. Acrescenta que se estamos atualmente perante uma mudança de paradigma, impulsionada pela modernização a que se assiste em Angola, o uso de tecnologias de informação e a educação, que mostram que o país se tem vindo a sofisticar, reforça.

A crise trazida pela redução do preço do petróleo em Angola também foi sentida na atividade dos associados na CCIPA e João Luís Traça confessa: acho que ninguém acreditava que esta crise fosse chegar na forma que chegou, e considera que pode ter sido uma crise com maiores repercussões, porque ninguém conseguiu olhar para os sinais e perceber a sua duração, ressalva.

O associativismo empresarial serve para defender os interesses dos empresários, reforça João Luís Traça, e acrescenta que a CCIPA deve criar condições para que as oportunidades possam acontecer. Enquanto câmara de comércio não devemos ter a ambição de nos pronunciarmos sobre as decisões de investimento dos nossos associados, acho que seria muito arriscado. O objetivo é por isso ajudar, reforça, “porque estamos habituados ao contexto de liberdade de circulação de pessoas em contexto europeu, mas quando as relações são entre Portugal e Angola não é a mesma coisa“, e dá o exemplo da complexidade burocrática que surge por vezes com a questão da imigração.

“em Angola, o que é difícil é ter-se aquele ponto mínimo para ser o ponto de partida”

O Presidente da CCIPA identifica como o maior desafio para as empresas portuguesas que querem investir em Angola a dificuldade de articulação entre os organismos do Estado, e a excessiva documentação. Para dar o exemplo dessas dificuldades com as quais os empresários se deparam, explica que quando uma empresa quer iniciar atividade, o empresário quer ter a certeza que tem um horizonte temporal, a partir do qual o investimento começa a ter uma consumação. Por exemplo, há uma diferença entre começar no dia 1 de janeiro de um ano, ou no dia 1 de janeiro do ano seguinte ou dois anos depois, esclarece. João Luís Traça sublinha que em Angola, o que é difícil é ter-se aquele ponto mínimo para ser o ponto de partida, mas garante saber que as autoridades angolanas estão a tentar conseguir eliminar alguns passos, alinhar-se, acertar-se sobre algumas posições comuns.

Apesar do ritmo de entrada e saída de associados ter diminuído, a CCIPA tem registado um aumento no número de associados angolanos, e João Luís Traça revela que a associação tem feito um esforço para estar mais presente em Angola. Contudo, salienta que para os empresários portugueses,  [Em Angola] Não há muito mais mercado para crescer. Não há infinita capacidade de novas empresas portuguesas em Angola, porque as principais já lá estão. Esta realidade explica-se pelo facto dos empresários portugueses darem atualmente mais importância ao mercado português, porque é um mercado em crescimento, justifica João Luís Traça.

As empresas associadas da CCIPA têm dimensões muito diferentes, pertencem aos mais diversificados setores e, por isso, encontram-se também em diferentes fases do seu negócio. Dessa forma, João Luís Traça acredita que a CCIPA tem que ser relevante e atrativa nos mais diversos momentos da vida de uma empresa. E reafirma o princípio da associação: nós não podemos transformar-nos numa câmara de comércio para o início das relações ou dos investimentos, nós somos uma câmara de comércio sempre presente.

Por fim, o Presidente João Luís Traça frisa que o desejo e propósito da CCIPA é o de juntar as pessoas e partilhar coisas em comum, e considera que o desafio atual é continuar a fazer bem para que os nossos associados não se queiram ir embora e continuem a acreditar que a CCIPA acrescenta valor ao seu negócio, pois a CCIPA deve ser um dínamo das relações empresariais entre os dois países. 

SC

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