Angola | Entrevista

“O cidadão europeu comum não se apercebeu de nada do que se passou em 2015, com a crise do ébola”

A tempestade perfeita avizinha-se no horizonte. A combinação entre a pandemia generalizada pelo aparecimento do novo coronavírus, a queda abrupta do preço do petróleo e a um lento retomar do crescimento económico empurram Angola para uma nova recessão. Para o professor e investigador do CEsA- Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento do Instituto Superior de Economia e Gestão, Alberto Oliveira Pinto, o grande problema de Angola continua a ser a existência da economia paralela em grande escala, que impossibilita todo e qualquer crescimento sustentável, já a grande vantagem é o brotar de uma nova geração, cheia de capacidades, “com pensamento crítico”.

 

Atendendo à sua experiência no contexto económico das relações comerciais entre a China e alguns países africanos, como é o caso de Angola, em que medida é que esta crise pode influenciar relações futuras entre os dois países?

Angola tem uma relação próxima com a China desde 2005, quando acabou a guerra e estava com uma dívida crescente em relação aos países ocidentais. Nesse contexto, o ex. Presidente Eduardo dos Santos, com alguma habilidade, aproximou-se da China. Eu sempre fui muito crítico em relação a isso, mas também não sei onde é que Angola poderá ir buscar apoio neste momento. Assim como houve acordos assinados com a China também é possível fazê-los com outros países. O facto é que desde o fim da guerra nada mudou na política económica angolana e talvez esta situação agora possa ser uma rampa de mudança.

 

Angola tem feito vários acordos bilaterais com os países vizinhos, pode ser esse o caminho escolhido sair desta crise?

O problema de Angola, que não foi alterado durante todos estes anos, advém do problema da economia paralela. As críticas que tenho feito ao longo dos anos vão nesse nesse sentido, e eu ainda não vi nada que tivesse sido feito para alterar e combater essa situação. Por outro lado, enquanto o estado angolano estiver dependente em exclusivo do petróleo e do comércio de diamantes, deixando para trás sectores como a agricultura, a situação não se vai alterar.

 

Tendo em conta a situação actual, pode haver um perdão de dívida externa de  Angola de modo a minimizar os impactos causados pelo novo corona vírus?

Teoricamente isso seria possível, mas é muito difícil de ser concretizável, quer se queira quer não tem continuado a haver um distanciamento muito grande entre o ocidente e o continente africano Certamente, algo vai mudar em diversos sectores como, por exemplo, no turismo que é um sector que se vai ter de reinventar para sobreviver e há aspectos da globalização que vão ficar diferentes. Mas, quanto a um perdão total da dívida, não estou muito confiante.

 

Professor, revisitando o passado, em 2015 houve a crise do ébola que acabou por ser uma epidemia em larga escala.  Se nessa altura tivesse havido um olhar mais atento a essa situação, hoje o mundo estaria mais bem preparado?

O cidadão europeu comum não se apercebeu de nada do que ocorreu em 2015, com a crise do ébola. Esta situação pandémica apanhou desprevenido todo um pensamento globalizante e mundial que abrange os países ocidentais e terá apanhado também desprevenidas as elites de vários continentes. Ninguém imaginaria que uma situação como estas ocorresse desta forma.

 

De que forma é que as novas gerações poderão encontrar novos rumos no país e efetuar mudanças?

Os mais jovens pelo menos até aos 35 anos, venham eles seja de que estrato social vierem são profundamente interessados na sua história e isso para mim é algo de promissor. Isso tanto acontece com os jovens que nunca saíram do país como aqueles que estudam fora. Há uma grande preocupação em pensar e reflectir de forma crítica. Infelizmente, a maioria das universidades em Angola são privadas, não reúnem condições desejáveis nem são laboratórios do saber como deveriam ser. Mas a juventude angolana percebe tudo o que se passa à sua volta, está muito atenta e consciente, essa tem sido a grande recompensa que temos tido nestes anos de paz, é o surgimento desta nova geração, de pessoas que andaram nas escolas oficiais e agora demonstram que pensam pelas suas cabeças. É a maior riqueza de Angola para os próximos anos, a sua juventude.

 

Falta agora haver maior representatividade desses jovens no aparelho político?

O problema é que o MPLA é um partido estatal, tudo passa por ali. A ministra da cultura actual é uma jovem independente, não está filiada a nenhum partido e isso é positivo. Mas a minha pergunta é, até quando é que isso será possível?

 

Fazendo uma perspectiva futura, como é que Angola pode sair desta tempestade perfeita?

Já bem antes da pandemia havia sinais negativos em Angola e no mundo. Eu tenho visto o que se passa nos meios de comunicação social e nas redes sociais e, especialmente aí, fala-se de tudo. E antes de tudo isto emergir, notava que havia um certo “radicalismo” que começava a brotar, via-se um século XXI muito fanático, onde as pessoas estavam a ir umas atrás das outras sem pensar. Por um lado, com esta situação, há fanatismos que se podem acentuar, pode haver uma certa moderação, por que o que está a mexer neste momento é o lado afectivo em oposição ao lucro e interesse económico. Mas, claro, temos de ter em conta as questões económicas… há pessoas que vão ficar no desemprego, que vão ficar numa situação muito difícil e como é que se vai lidar com tudo isso? Em Angola, especificamente, muitas pessoas trabalham na rua e, neste momento, estão impossibilitadas de fazer negócio. Esse para mim é o grande drama do país.

 

Num país que existe tanto a cultura de sair à rua, em que a própria economia gera à volta disso, como é que se pode impor um confinamento obrigatório?

Pelo que me é dado a saber, as pessoas sentem-se bastante deprimidas por estarem fechadas. Depois, há um certo poder de cultura de medo, que os governos angolanos impuseram e que João Lourenço apaziguou, mas isso voltou agora. Vêem-se polícias na rua com armas e essa cultura do medo, aos poucos, reinstala-se de forma perigosa.

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