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“Biólogos estão a fazer turnos de 20 horas por dia” no combate à Covid-19 – Bastonário da Ordem dos Biólogos

José Matos, Bastonário da Ordem dos Biólogos Portugal

José Matos, Bastonário da Ordem dos biólogos alúde para o papel fulcral dos biólogos na sequenciação do genoma do vírus SARS-Cov-2, que provoca a doença Covid-19. Os biólogos, refere, “estão a fazer turnos de 20 horas por dia, ininterruptamente”. Mas considera que apesar dos esforços de toda a comunidade científica na melhor das hipóteses, na próxima época viral, poderá haver uma vacina. Até lá o melhor remédio é ficar em casa, apesar de, neste momento, não haver condições para um confinamento social em todas as partes do mundo.

 

Por Ana Gonçalves

 

O surgimento de um vírus como o SARS-Cov-2 era expectável entre a comunidade científica?

Não sei se expectável é a palavra certa. Situações como estas já ocorreram no passado, por isso podiam voltar a acontecer, eventualmente. Mas, pessoalmente, tinha mais receio que surgissem outras situações em função das alterações climáticas, uma vez que as temperaturas registadas na Península Ibérica já se aproximam daquelas que se registam em alguns países africanos, o que faz com que os mosquitos que existem em África possam subir, entrar pelo Algarve e trazer malária, Dengue e doenças que até agora não existiam na Europa e para as quais não estamos preparados em termos de vacinas, medicamentos. Daí que a monitorização desses mosquitos e desses vectores de doenças deveria ser feita ainda com mais cuidado e intensidade. Mas, obviamente que a parte viral também é levada em linha de conta. Em Portugal existe um sistema de vacinação muito eficaz para os grupos de risco contra o vírus Influenza e, claro que, poderia surgir outra estirpe associada ao vírus influenza que pudesse ser mais letal e isso era visto com alguma normalidade. O  que não era de todo expectável é o grau de capacidade de contágio deste vírus, que é dez vezes superior a tudo o que se conhece. O que fez com que a sua disseminação fosse muito mais rápida, associado ao facto de vivermos numa sociedade globalizada, onde as pessoas viajam bastante.

Esta pandemia também fez com que os  cientistas, mais do que nunca, unissem esforços na busca de uma solução?

Não é caso único, aconteceu isso no caso do HIV. Neste caso, a união nota-se mais porque é algo que nos toca a todos, é algo muito mais próximo. O fator proximidade é sempre muito importante. Se fosse algo circunscrito, provavelmente, não haveria esta emergência mundial. E há aqui uma envolvência, que é a emergência dos testes, na qual os biólogos estão empenhados que é absolutamente crucial.

E como é que esse trabalho está a ser feito pelos biólogos em  Portugal?

Os biólogos, neste momento, chegam a fazer turnos de 20 horas. O que acontece é que os testes principais que estão a ser feitos são testes genéticos e, em Portugal, quem faz testes genéticos em humanos, são biólogos, bioquímicos. E nas últimas semanas, a necessidade do número de testes subiu exponencialmente e nós, na ordem dos biólogos, de imediato, criámos uma bolsa de voluntários que pudessem ajudar os laboratórios a fazer testes para dar resposta a essa demanda. Foi fantástico! Em 24 horas já tínhamos 2400 biólogos disponíveis, o que foi extraordinário. Ao mesmo tempo, os hospitais e vários investigadores acabaram por eles próprios  criar condições nas suas instalações para se poderem fazer esses testes, uma vez que reúnem a técnica, equipamento, experiência.  O problema passa pela inativação do vírus para se poder trabalhar em segurança, mas trabalhar com o vírus ativo requer um tipo de cuidado e formação muito específicos. Em termos de capacidade para se fazerem os testes, a resposta foi muito grande. Depois, há outro fator muito importante, que é conhecer o vírus que temos cá em Portugal, neste momento.

Que características especiais tem este vírus?

O vírus tem uma capacidade incrível de mutação. Um vírus reproduz milhares de milhões de partículas em algumas horas, o que significa que em seis horas eu posso ter três gerações de vírus. Nestas replicações existem mutações e essas pequenas alterações podem provocar características diferentes nos vírus. Essas mutações podem provocar diferenças no comportamento do vírus, alterações na sua capa, na sua parte exterior o que faz com que mais tarde uma vacina já não seja eficaz para aquela estirpe. É fundamental identificar todas estas partes do vírus, a que chamamos genoma. O que os cientistas começaram a fazer foi a sequenciar estes genomas e cá em Portugal começaram a  enviar estas sequências para uma organização internacional que já começa a fazer o mapa deste vírus, para se ter a noção de como este vírus se começa a disseminar. Para além disso o Instituto Ricardo Jorge já anunciou que vai sequenciar 1000 genomas,  e esse esforço vai ser fundamental para o futuro e para agora também para saber como tudo está a decorrer e para auxiliar o pessoal médico que está a experimentar tudo no tratamento da infecção.

É possível haver uma vacina nos tempos mais próximos a partir destas investigações?

Preparar uma vacina consegue se em dois ou três meses, o problema é que há condicionantes muito grandes que envolvem ensaios clínicos em várias fases, uma vez que não se pode pôr algo no mercado e descobrir depois que tem efeitos secundários gravíssimos na população. Atualmente, um medicamento para chegar às farmácias tem um investimento que anda à volta de mil milhões de euros e, normalmente, demora 10 anos a acontecer. Nesta situação em específico todos os esforços estão a ser feitos para que se consiga uma vacina já no próximo ano. Há também outra parte muito importante que importa salientar, que são os antivirais que quase não existem. A melhor defesa é a vacina e estarmos preparados para não apanharmos o vírus. Por exemplo, não existe medicamento nenhum para cuidar de uma gripe. Enquanto um antibiótico mata a bactéria, há muito poucos antivirais que matem o vírus. Deste modo, esta é uma outra linha de investigação que não deixa de ser importante de analisar.

O vírus SARS-Cov-2 saltou a espécie e agora passa entre humanos. Há quem diga que é imperativo evitar esta aproximação entre seres-humanos e outras espécies. Concorda? Esta é uma situação comum?

A zoonose passa entre hospedeiros e humanos, desde logo com animais de companhia e depois noutros casos. Os humanos também são hospedeiros. Hospedeiro é qualquer animal (humano ou não humano), o qual um vírus pode infectar e replicar. Já se passou com a gripe das aves, não é estranho que tal aconteça. Obviamente que as condições melhoraram imenso, uma vez que o consumo de carne selvagem não é assim tão comum, as linhas de produção de alimentos estão muito controladas. A produção e consumo de carne é muito legislada na Europa. Mas, se pensarmos na realidade do continente asiático, em especial na China, eu pergunto, como é que se arranja forma de alimentar 1.5 biliões de pessoas? São questões culturais que não são assim tão lineares, é muito fácil dizer o que se pode ou não fazer. A questão é que a população mundial continua a crescer, a previsão é que em 2050, seremos 10 mil milhões de pessoas. Nada é assim tão linear, como as estatísticas e a matemática que agora anda a ser aplicada a tudo.

Em que sentido é que a biologia pode ajudar a perceber esta multidisciplinariedade entre as diversas áreas de trabalho?

A biologia é uma ciência muito transversal e multidisciplinar e a matemática e a estatística são componentes importantes, mas tem que se levar em linha de conta muitas variáveis. Não se pode fazer um levantamento massivo de dados matemáticos sem ter em atenção outras questões. O levantamento do número de mortos feito pelos jornalistas não ajuda ninguém. esqueçam isso. Alguém tem dúvidas de que o pessoal médico está a fazer o melhor que pode e que sabe? Há alguém que duvide disso? É preciso dar um pouco de tolerância às pessoas da Direção Geral de Saúde-DGS, que não estão a fazer actualizações ao minuto. Os números são importantes, mas podem servir para alimentar a especulação, quem só trabalhe com números e não tenha outros dados, está a fazer um mau trabalho. Não é justo para as pessoas que estão no terreno.  O mesmo se passa quando se exigem testes à população toda, também não é viável, não há dinheiro nem recursos humanos suficientes para isso. Se for para a rua, às compras, mantenha a distância, lave as mãos, com água e sabão, essa é a questão principal

Na China, começa finalmente a ver-se uma luz ao fundo do túnel, é expectável este período de um dois meses de confinamento e depois um regresso progressivo à vida ativa?

Estes surtos são muito parecidos com os surtos da gripe, há um pico e depois um abrandamento. Agora, para as pessoas que querem minimizar a gravidade desta situação que enfrentamos, eu só lhes pergunto, qual foi o último surto de gripe que se lembram  em que os militares transportaram corpos dos hospitais, pois não havia caixões em número suficiente? Na minha opinião, em Portugal, as medidas foram corretas, tomadas na hora certa e vão mudando a pouco e pouco naquilo que é razoável e cientificamente desejável.

Há cada vez mais casos registados na Índia e em vários países com economias e sistemas de saúde mais frágeis. Como assiste ao desenrolar dessa situação?

É muito preocupante, pois as condições são muito mais complicadas No entanto, as populações também são diferentes, há muitos jovens, menos idosos, o nível de imunidade da população é diferente… no entanto,  a paragem da economia pode afetar também muitas vidas, não se pode dizer a muitas pessoas no mundo, fique em casa sem trabalhar. Há pessoas que se não trabalham todos os dias, morrem à fome. No caso do Brasil, por exemplo, que tem o tamanho de um continente não se pode implementar as mesmas medidas em  todas as regiões do país, é uma realidade que nós não conhecemos em profundidade. Agora, é criminoso dizer que este vírus é só um resfriadinho. Não é uma situação fácil. Temos também de dar os parabéns a todas as pessoas que continuam a trabalhar, que continuam a fazer o país funcionar; os polícias, os meus colegas e não se pode esquecer o papel dos biólogos na sociedade, que exploram situações fundamentais e cruciais para a vida de todos.

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