Brasil: “As relações entre Brasil e Rússia são importantes, (…) mas não podemos dizer que são as mais relevantes”

Em fevereiro, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, realizou uma visita oficial a Moscovo, onde foi recebido pelo presidente russo Vladimir Putin, poucos dias antes do início das operações militares da Rússia contra o território ucraniano. Na altura, muitos especialistas brasileiros condenaram a iniciativa de Bolsonaro, mais especificamente quando defendeu que o Brasil estaria sensível às causas russas.

Segundo Ariane Roder, cientista política e professora do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPEAD/UFRJ), no Brasil, “embora a visita de Bolsonaro tenha sido planeada com bastante antecedência para a Rússia, ou seja, antes mesmo dessa tensão entre Rússia e Ucrânia ficar mais latente, houve a possibilidade de o governo recuar nessa visita bilateral, que foi feita semanas atrás, para que, de facto, não gerasse nenhum tipo de comunicação diplomática desnecessária neste momento de tensão”. Esta especialista comenta que, “no entanto, isso não foi feito, ou seja, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro resolveu prosseguir com a sua viagem argumentando que os interesses eram de natureza extremamente comerciais e que estava apostando nas relações bilaterais com a Rússia. Obviamente, que, embora todas essas questões tenham sido de facto tratadas nessa negociação bilateral que houve há de se destacar que essa visita foi num momento inoportuno e desnecessário. Por quê? Essa visita num momento de tensão, sobretudo com os países ocidentais, e com o presidente Putin deixando bem claro as suas pretensões, isso sinalizou para os parceiros históricos e estratégicos do Brasil algum tipo de proximidade”.

“E isso foi agravado um pouco mais na fala do presidente, quando ele menciona a palavra solidariedade a causa russa o que, de certo modo, na diplomacia causou um constrangimento porque isso poderia estar sinalizando algum tipo de apoio aos movimentos russos naquele momento. Agora, com a invasão russa ao território ucraniano, essa situação brasileira ficou ainda mais constrangedora levando, obviamente, uma necessidade urgente de o Brasil se posicionar frente a esse conflito. Então, desde os primeiros momentos do dia, com a invasão russa à Ucrânia, o Itamaraty já vem reforçando a necessidade de um posicionamento brasileiro mais firme quanto a isso, com uma espécie de condenação a essa invasão militar da Rússia. (…) o que podemos observar foi uma nota em relação a essa questão, do próprio Itamaraty, mas foi uma nota não muito consistente porque ela não condena claramente essa invasão militar da Rússia. Então, isso de alguma forma também é uma sinalização muito ruim porque o Brasil tradicionalmente, desde o Barão de Rio Branco, tem preservado algumas premissas, inclusive postas na constituição, de promoção da Paz, de respeito a autodeterminação dos povos e a soberania. Então, isso enseja naturalmente a uma condenação a qualquer tipo de invasão territorial de um Estado sobre outro Estado. Isso não aconteceu e concomitantemente houve uma declaração muito inoportuna do vice-presidente brasileiro e algumas manifestações por parte do Congresso Nacional também em relação a invasão russa, sinalizando em cada um desses depoimentos movimentos muito contraditórios por parte da política externa brasileira”, defendeu Roder, que sublinhou que existe, na sua opinião, “uma espécie de fragmentação de posicionamento. Isso não é um sinal positivo, a diplomacia brasileira tem tradicionalmente se manifestado de forma muito contundente em relação a essas questões, o que não podemos observar neste momento”.

Esta professora recorda ainda que “as relações diplomáticas entre Brasil e Rússia têm sido frequentes, contínuas ao longo dos anos, mas não tem uma contundência. As relações comerciais não são tão intensas quando comparados a parceiros do Ocidente. O que pudemos notar foi que na última década houve uma espécie de aproximação entre Brasil e Rússia, sobretudo no âmbito dos BRICS, que se reuniram em uma espécie de colisão de países emergentes que estavam buscando um posicionamento mais estratégico no sistema internacional”.

Com experiência neste tipo de temática, Ariane Roder assegura que “os BRICS têm ficado adormecidos nos últimos anos, principalmente por China e Rússia terem um perfil muito diferenciado dos outros países presentes nesta coalizão, e também distanciamento em posicionamento dentro de organizações internacionais, a própria relevância internacional desses países sob o ponto de vista do comércio para segurança internacional. Isso tem ficado de alguma forma um pouco estacionado no ponto de vista diplomático, no âmbito dos BRICS. Então, as relações entre Brasil e Rússia são importantes, é inegável, mas não podemos dizer que são as mais relevantes. Não podemos dizer que são relações destacadas na história do Brasil”.

“Neste sentido, o Brasil já havia se posicionado neste momento de tensão entre os dois países no conselho de segurança de forma a respeitar a tradição de neutralidade deste conflito latente. No entanto, a partir do momento que a Rússia invade a Ucrânia, ou seja, claramente um desrespeito a soberania, o Brasil, tradicionalmente, tem condenado ações desse tipo, de incursões militares que afetam diretamente a alta determinação dos povos e, em respeito a própria Constituição brasileira que diz claramente essas premissas que são orientadores da política externa brasileira. (…) O que se espera é que, ao longo dos próximos dias, com o avanço do conflito, é que a diplomacia brasileira possa se posicionar de forma mais contundente e firme em relação a este conflito”, finalizou Ariane Roder.

Ígor Lopes

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