Brasil | Entrevista

“A situação no Brasil é muito triste, por vários motivos, é uma desgraça anunciada.” Cyntia de Paula

Cynthia de Paula, Presidente Casa do Brasil

“É impossível falarmos sobre migração sem fazermos este recorte de género. A sociedade atual é machista, patriarcal, porque a violência é um exercício de poder e quando se fala em mulheres negras, indocumentadas, sem autorização de residência, a situação piora…”

 

Cyntia de Paula, Presidente da Casa do Brasil desde 2017, uma Associação sem fins lucrativos que presta apoio aos migrantes brasileiros, em entrevista à e-global, traça um retrato duro das oportunidades que escasseiam para os novos perfis migratórios que chegam a Portugal, são cada vez mais preparados, qualificados, empreendedores, mas que encontram diversos obstáculos no caminho, desde a especulação imobiliária, à xenofobia e á falta de oportunidades. Perante a situação de pandemia e com as restrições da União Europeia aos voos que chegam do Brasil, o que fica é uma enorme incerteza quanto ao futuro.

 

Cyntia, como começou esta experiência na Casa do Brasil?

 

O meu percurso na casa do Brasil é anterior à presidência. Eu vim para Portugal em 2009 por conta do mestrado em Psicologia comunitária e comecei a fazer voluntariado na casa do Brasil em fevereiro de 2012. Em maio do mesmo ano já estava na Casa do Brasil como funcionária, até que em 2017 fui a eleições pela primeira vez, tornei-me presidente e já vou no meu segundo mandato.

 

É hoje um sítio diferente, a Casa do Brasil, desde que está à frente dos destinos da Associação?

 

Houve muitas mudanças, sobretudo no contexto da própria migração brasileira e nos desafios colocados com essa mudança. E aqui é interessante pensar que o meu trabalho enquanto representante da Casa do Brasil procura solucionar dificuldades antigas, mas também acrescentar novas soluções para os novos desafios que vão surgindo. O aparecimento da Covid-19 é um desses desafios mas não é o único. O que é que realmente mudou? Em primeiro lugar, é impossível não pensarmos nas vagas de migração ao longo destes anos. No ano 2000, por exemplo, havia uma migração bastante laboral, muito mais voltada para a inserção no mercado de trabalho, mas que já apresentava alguns indícios de que as qualificações profissionais dos migrantes não se adequavam muito às funções que exerciam.

Depois, durante o período de crise vivido em Portugal, de 2009 a 2013, também na altura em que eu cheguei, já se começava a notar uma mudança nesse perfil, quem chegava era mais jovem, procurava a via do ensino superior, mas com o aumento do desemprego em Portugal, muitos migrantes fizeram o caminho de volta, regressaram ao Brasil e até teve uma época em que fizemos o trabalho inverso, começámos a prestar apoio aos portugueses que queriam sair do país e ir para o Brasil.

Até que em 2015, Portugal começa a dar sinais de melhoria económica, começa a haver  criação de emprego, investimento no turismo e vários brasileiros regressam, mas é um grupo muito mais heterogéneo do que antes; pessoas qualificadas, com objetivos muito diferentes, pequenos empreendedores, empresários, publicitários, profissionais liberais…

 

Essa nova vaga migratória ficava maioritariamente em Lisboa ou também se descolacava para outras regiões?

 

Não só em Lisboa, mas também em Aveiro, Coimbra, Braga, que são sítios onde a população estudantil brasileira mais cresceu. Muitos estudantes universitários vêm tirar mestrado, doutoramento e começa a surgir uma mudança de discurso muito interessante, um pouco diferente daquela do início do milénio,  não  se pensa só em juntar dinheiro, os jovens vêm para experimentar e, claro, não podemos esquecer o papel do governo português que facilitou a vinda dos estudantes estrangeiros.

 

E agora, perante este período de incerteza que se vive, os estudantes brasileiros podem ser afetados? Pode haver uma quebra significativa no número de ingressos?

 

Desde o início da pandemia que se receia isso. Não só os estudantes, mas todos os outros perfis que abordámos antes, dos migrantes em geral. A incerteza no futuro é muito grande, há pessoas que já tinham pedido um visto prévio e agora com esta decisão da União Europeia de só efetuar voos essenciais com o Brasil ficam sem saber o que fazer.  Obviamente que esta situação vai ter impacto não só na vida dos estudantes, mas também no turismo e não só. Agora, eu não acredito que as pessoas deixem de vir estudar, vai haver  um compasso de espera maior, mas a situação irá ficar restabelecida.   Outro problema que se coloca neste momento é saber como é que Portugal e a Europa vão recuperar desta crise. Por que, sejamos claros, os migrantes ficam sempre com os trabalhos mais precários, na restauração, limpezas, turismo, que são ao mesmo tempo os setores mais afetados.

 

Dentro desses setores que são mais afetados e expostos à crise, as mulheres brasileiras também estão sujeitas a uma maior precariedade?

 

É importante falarmos sobre isso. Primeiro, porque é impossível falarmos sobre migração sem fazermos este recorte de género. A sociedade atual é machista, patriarcal, porque a violência é um exercício de poder e quando se fala em mulheres negras, indocumentadas, sem autorização de residência, a situação piora… Eu, como migrante branca, não sofri o mesmo comportamento discriminatório que uma mulher negra sofre todos os dias, sofri de outra forma, mas essas mulheres sofrem muito mais por que estamos perante uma sociedade muito racista.

 

Os relatos que chegam até à Casa do Brasil vão nesse sentido? Perante situações desse tipo como é que vocês agem enquanto organização?

 

Sim, sem dúvida. Nós dizemos às pessoas para endereçarem as suas queixas à Comissão para a Igualdade contra a Discriminação Racial. Mas é preciso mudar muita coisa, desde o próprio discurso politico, à representatividade… agora há três mulheres negras no parlamento e isso é extraordinário, fundamental, mas não pode passar só por aí, é preciso trabalhar em articulação com os serviços, desconstruir a realidade, é preciso que de facto as queixas tenham consequências. É muito complexo e é preciso ter políticas públicas anti-racistas. Se pensarmos, por exemplo, no crescimento dos discursos de ódio veiculados nas redes sociais contra pessoas migrantes e na quantidade de queixas que já fizemos de denúncia sem que nada acontecesse… é uma dificuldade gigantesca conseguir acabar com essas páginas abertamente xenófobas e racistas. Hoje em dia as ofensas não são só na rua.

 

Qual o principal motivo das queixas dos vários migrantes brasileiros?

 

Recebemos muitas queixas, por exemplo, no acesso à habitação. Os senhorios não alugam casa a mulheres brasileiras, por exemplo, e isso tem muito a ver com esta construção colonialista que ainda prevalece da mulher brasileira tropical. O problema, como eu costumo dizer, não é o estereótipo, mas o que isso causa, quando essa questão retira direitos às pessoas, retira oportunidades, e isso ainda acontece com muita frequência. Outro lugar que se tem revelado também muito agreste para a comunidade brasileira é o meio académico onde os relatos de preconceito e xenofobia em relação aos estudantes brasileiros são recorrentes, quer pela língua, o português do Brasil oral e escrito tem características diferentes e muitas vezes é visto como inferior, seja até na utilização de referências bibliográficas do Brasil. E quando passamos para o acesso ao mercado de trabalho, o que é que sentimos? Que há uma resistência muito forte no reconhecimento do currículo, da experiência prévia que se tem num país terceiro. Esse ainda é um grande desafio e uma grande luta que é preciso travar.

 

A comunidade brasileira lidera os pedidos de retorno voluntário, antes do início desse processo, há pessoas que vêm até cá pedir ajuda ou informações?

 

Sim, é interessante falarmos nisso, porque quando pensamos num processo migratório, não pensamos no retorno. Mas sim, é frequente os pedidos de retorno voluntário, nós encaminhamos essas pessoas para a OIM, e aquilo que nós percebemos é que as pessoas querem voltar porque não têm uma rede de apoio ou, por vezes, sentem um grande deceção, nada é como esperavam. Há dois fatores muito importantes, um é a expectativa que se tem quando se chega e a realidade que se encontra. Por exemplo, há um desconhecimento muito grande no que diz respeito à questão imobiliária e não é comum as pessoas contactarem-nos antes de sair do país, o que deveria acontecer. Obviamente que o retorno voluntário é a última solução, mas em algumas situações, se a pessoa entra numa situação de vulnerabilidade social, pode ser o melhor a fazer. Nem sempre, as pessoas querem voltar, há pessoas que desistem a meio do processo porque encontram trabalho, o retorno é sempre uma escolha. De facto, o Brasil lidera os pedidos de retorno voluntário, mas isso também acontece porque se trata da maior comunidade migrante presente no país. Agora, comparativamente a igual período do ano passado, sim,  os pedidos aumentaram muito.

 

Como olha para a situação do Brasil, atualmente?

 

A situação no Brasil é muito triste, por vários motivos, é uma desgraça anunciada. Desde a eleição do Presidente Bolsonaro, a Casa do Brasil não é partidária, mas também não é politica e o atual presidente do Brasil representa tudo aquilo que a Casa do Brasil não acredita, como um discurso racista, misógino, corrupto… Para nós este momento é de grande tristeza, porque quando se vive esta situação de pandemia gerada pela Covid-19 apercebemo-nos que estamos perante um genocídio, pois há um discurso politico de descrença pela doença e um esquecimento das minorias, da população periférica, pobre, que é quem acaba por sofrer ainda mais as consequências desta pandemia e assiste-se a esta crise no Brasil que não é só sanitária, é também política, ideológica. O Brasil não é isto, é muito mais, é possível construir outro Brasil…

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1 Comentário

1 Comentário

  1. EDUARDO CONRADO DUQUE

    08/07/2020 at 2:02

    Brasileira comunista do caralho. Uma vergonha ter essa mulher defecando pela boca na casa dos outros.
    Volta para o Brasil vadia.

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