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“A sua governabilidade, hoje, chegou ao fim”, diz a vereadora Teresa Bergher sobre o prefeito do Rio de Janeiro

O prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, está a ser alvo de um processo de impeachment, após denúncias de que teria optado por renovar, sem licitação, contratos de serviço com duas empresas de publicidade, “o que teria provocado um prejuízo de R$ 8 milhões aos cofres públicos”. Crivella nega ter cometido crime de responsabilidade ou infração administrativa. A votação do pedido de impeachment, que está em andamento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, tem até o dia 4 de julho para ocorrer. Neste momento, algumas testemunhas estão a ser ouvidas.

Uma das principais críticas do governo de Crivella é a vereadora Teresa Bergher. Essa política, que tem ligações com Portugal, conheceu de perto o governo do prefeito, já que comandou, a convite de Crivella, uma das suas Secretarias municipais. Após desgaste nas relações com Crivella, de quem diz ter sido alvo de “chantagem”, Teresa Bergher deixou o cargo e voltou a ser vereadora, votando contra as intenções do ex-chefe de aumentar impostos.

Em entrevista , Teresa Bergher revelou como está a ver todo esse processo que visa afastar Crivella da prefeitura, comentou sobre a atual situação do governo da cidade, afirmou que o prefeito vive uma inércia governamental, apontou os principais erros da Prefeitura e referiu que a ligação de Crivella com grupos religiosos está a comprometer a governabilidade da cidade maravilhosa.

Como está o processo que trata do impeachment de Marcelo Crivella?

Não podemos esquecer que o processo de impeachment é um processo político, decidido pelos vereadores. São necessários dois terços de votos favoráveis, no entanto, hoje a Câmara já tem mais que 34 parlamentares (num total de 51) favoráveis ao impeachment do prefeito. Se prevalecer esse posicionamento, o seu impedimento é inevitável.

O que significa o pedido de impeachment do prefeito? O que está em causa exatamente?

O que existe é uma comissão processante composta por três membros, que está investigando se o prefeito tem responsabilidade na prorrogação ilegal de contratos de publicidade, realizados antecipadamente e sem processo licitatório.

A senhora integra a lista de vereadores do Rio de Janeiro que votou positivamente pela abertura do processo de impeachment do prefeito. O que motiva essa atitude?

Sim, fui uma das primeiras vereadoras a me manifestar pelo processo de investigação que pode levar ao impeachment do prefeito. São razões múltiplas: atabalhoadas decisões, cortes absurdos no orçamento em áreas sensíveis como saúde, educação, em especial a assistência social, mistura de gestão com religião, farra de contratos emergenciais sem licitação, aumento abusivo de tributos, como o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), sem retorno para o cidadão, e o mais grave: o abandono em que se encontra a cidade.

Acredita que o governo municipal corre “riscos” caso Crivella não seja afastado do poder?

Ao perder a sua base de apoio na Câmara, a sua governabilidade, hoje, chegou ao fim. Penso que o seu afastamento é inevitável, afinal, existem sete Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), uma delas presidida por mim, que investigam as suas ações irregulares e incompatíveis com o cargo que Crivella ocupa.

No início da gestão de Crivella, a senhora ocupou o cargo de Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos. Nessa época, era possível vislumbrar as tendências do atual prefeito em termos de governabilidade e de ações?

Veja, não apoiei a campanha de Marcelo Crivella à prefeitura, desta forma, estava isenta de qualquer compromisso eleitoral. Aceitei o seu convite para ser Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos porque tenho afinidade com o tema e pensei que ele faria um bom governo. Foi muito difícil! Crivella de imediato exigiu o corte de 25% em todos os convênios das suas Secretarias, exceto da Educação e da Saúde. Não poupou a Assistência Social, quando apelei, mostrando as estatísticas, que apontavam para 15 mil pessoas vivendo nas ruas. Trabalhei incansavelmente para diminuir custos sem ter que fechar abrigos. Ataquei, de imediato, a farra dos privilégios reduzindo em 58% o número de veículos que eram utilizados por um número absurdo de servidores. Dei exemplo! Abri mão de carro oficial e continuei usando o meu veículo próprio. Fiz o mesmo com telefones móveis, reduzindo em 54% a quantidade de beneficiados. Pessoalmente, também não usava telemóvel da prefeitura. Além disso, cortei gorduras das Organizações Não-Governamentais (ONGs) reduzindo o número de terceirizados. Com essa economia, além de não fechar nenhum abrigo, nos oito meses em que fiquei à frente da Secretaria consegui abrir mais duas casas de acolhimento: uma para adolescentes grávidas, moradoras de rua, e outra para grávidas dependentes químicas. Entretanto, logo no início, percebi que o prefeito, que havia realizado a sua campanha eleitoral usando o slogan “vamos cuidar das pessoas”, não tinha absolutamente nenhum compromisso com a causa. Ele continuava falando como bispo e não como gestor de uma cidade grande, que precisa de cuidados e atenção permanente. Penso que confundiu a gestão da cidade com a das igrejas. Após oito meses, deixei a Secretaria diante da chantagem do prefeito, que exigia que eu voltasse à Câmara para votar o aumento extorsivo do IPTU que ele propunha e com o qual eu não concordava. Crivella condicionou a minha presença na Secretaria se votasse a favor do aumento do tributo. Mantendo a minha coerência, abri mão da secretaria! Retornei à Câmara e votei contra esse famigerado aumento do IPTU, indo ao encontro do anseio dos 31 mil eleitores que votaram e confiaram em mim e à quase totalidade dos cidadãos do Rio de Janeiro.

Nos bastidores da política pode-se dizer que é grande o desejo de que Crivella deixe o cargo? Quem serão os seus sucessores políticos?

Pela forma de condução da Comissão processante, e algumas CPIs, as investigações se prolongarão até novembro ou dezembro. Entretanto, a partir de 01 de janeiro, a eleição do novo prefeito passará a ser através de eleição indireta, ou seja, de responsabilidade dos vereadores. Caso ocorra o impeachment do prefeito, o que me parece bastante provável.

Que pontos mais critica na gestão de Crivella?

O que mais me preocupa é a sua apatia, o seu desânimo, a falta de garra e coragem para governar. As suas falas são arrastadas, exatamente como é o seu governo. Preferiria que me perguntassem quais os pontos que eu não critico.

Nas redes sociais, a senhora é uma das pessoas que mais contesta o prefeito…

É muito simples! Amo a cidade do Rio de Janeiro com imensa paixão. Não consigo mais conviver com a sujeira, com o descaso, com a ilegalidade, com a violência, na qual o prefeito tem a sua parcela de responsabilidade! O abandono e a desordem urbana aumentam a cada dia e a insegurança, também. As últimas chuvas mataram mais de 20 pessoas e centenas ficaram desabrigadas! Simplesmente porque o senhor Marcelo Crivella não investiu nada na prevenção às chamadas chuvas de Verão. Termino desabafando: quero o meu Rio de volta!

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