Brasil

Aumento da violência no Rio de Janeiro aumenta apoio a iniciativas do futuro governador fluminense

No último mês de outubro, o juiz Wilson Witzel foi eleito governador do Rio de Janeiro. Apesar de só iniciar mandato em janeiro do próximo ano, Witzel, que prometeu estreitar o intercâmbio com Portugal, está já a preparar a base do seu governo, que terá muitos desafios pela frente. O principal deles será a segurança pública, que anda a tirar o sono aos empresários e à população fluminense. Medidas drásticas deverão ser tomadas. A população apoia Witzel que recebe críticas da oposição e de alguns sectores da sociedade civil.

Ana Maria Lopes é advogada e trabalha no centro financeiro do Rio de Janeiro. Durante o horário de almoço, essa cidadã luso-brasileira, a exemplo dos trabalhadores dessa mesma zona, caminha pelas ruas do Centro à procura de um local para almoçar e retornar ao trabalho. Apesar de trivial, esse ritual não é fácil. Tampouco seguro. As vielas e avenidas da movimentada cidade maravilhosa guardam traços grandes de insegurança. Utilizar o telemóvel para atender chamadas ou para aceder à Internet é tarefa quase impossível, bem como utilizar relógios e fios, mesmo que não sejam de grande valor. Grupos de menores de idade, incluindo adolescentes, promovem o chamado arrastão, acto no qual roubam inadvertidamente objectos de valor e saem em fuga em meio ao tráfego pesado da região.

“Já passei por muitos sustos no Rio de Janeiro. E não só no Centro. Já me roubaram fios e dinheiro. É triste ver o Rio de Janeiro dessa forma”, comenta Ana Pereira, que prefere almoçar no seu escritório entre um atendimento e outro para escapar aos assaltos.

Paulo Aguiar, português, vive no Rio de Janeiro há 28 anos. Diz não ter condições de usufruir das belezas da cidade, uma vez que a insegurança é enorme.

“Já perdi muitos telemóveis para bandidos. Nem mesmo ando de autocarro, pois o perigo é o mesmo que da rua”, confirma Aguiar.

Por sua vez, Maria de Lourdes, dona de casa portuguesa que está no Brasil desde 1951, reclama que nunca viu a cidade com tantos problemas como agora e que prefere ficar longe das ruas depois de uma certa hora, com medo de assaltos.

Nelson Pereira, taxista, é obrigado a arriscar-se pela noite dentro no Rio em virtude da sua profissão. Natural do distrito de Viseu, Nelson conta que chega a escolher os passageiros do seu taxi pela “aparência”, como forma de evitar assaltos.

“Nunca fui assaltado dentro do taxi, mas já tive amigos que foram sequestrados e mortos. Claro que tenho medo”, confessa Pereira.

A problemática na segurança pública é algo crónico na história recente do Rio de Janeiro. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro apontam que, em outubro deste ano, o indicador “homicídio doloso” registou o menor número para o mês desde 2014: 378 vítimas. No caso da letalidade violenta, incluindo homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e morte por intervenção legal, a redução foi de 15% quando comparado com o mês de outubro de 2017 e um aumento de 3% em relação a setembro deste ano. Já nas mortes por intervenção legal, o aumento em relação a outubro do ano anterior foi de 30%, porém, na comparação com os três meses anteriores de 2018, houve queda de 4%.

Em relação ao roubo de cargas, o ISP revela uma queda de 28% em relação a outubro de 2017. Ao todo, foram 651 ocorrências, o menor indicador para o mês, desde 2014. Os roubos de veículos registaram redução de 1% em outubro com relação ao mesmo período do ano anterior e os roubos de rua, incluindo roubo a transeunte, roubo de telemóvel e roubo em autocarros, aumentaram 4%.

 

Tecnologia em acção

Os números assustam a população que procura defender-se afastando-se das multidões e dos locais mais privilegiados da cidade. Com o intuito de ajudar a população a se prevenir frente a esse caos, dois aplicativos móveis estão a conquistar a atenção dos utilizadores de smartphones. Onde Tem Tiroteio (OTT) e Fogo Cruzado divulgam, em tempo real, locais e situações onde estão a ocorrer tiroteios e outros actos criminosos, por meio de mensagens instantâneas.

Recentemente, a equipa do Fogo Cruzado divulgou nota na qual explica que, após nove meses de intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, foram registados 7.514 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O Laboratório de Dados Fogo Cruzado registou também 1509 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), que resultaram em 105 mortos e 141 feridos. Já o aplicativo OTT registou no Rio, somente no último mês de agosto, 692 situações de tiroteios, arrastões ou disparos de arma de fogo.

 

Governador “linha dura”

Esse cenário fez com que a população do Rio apoiasse o discurso do juiz Wilson Witzel, eleito em outubro para governar o estado fluminense a partir de janeiro de 2019. Dono de uma vitória expressiva nas urnas, Witzel prometeu, ainda durante a campanha, adoptar “mão pesada” na área da segurança pública, com fortes intervenções nas favelas e com o “abate” ou assassínio de criminosos que estejam a portar armas de grosso calibre, como fuzis de uso exclusivo das forças armadas. Nas últimas semanas, Witzel defendeu a utilização de drones vindos de Israel para atirar em bandidos durante as operações policiais nas comunidades mais pobres. O futuro governador disse ainda que vai extinguir a actual Secretaria de Segurança para que possa cuidar, pessoalmente, dessa área.

“Esse discurso conquistou a população do Rio que está cansada de tanto descaso na área da segurança pública. Não é mais possível viver dessa maneira, com tanta insegurança. Não podemos ter o nosso comércio a funcionar em condições. Sair à rua está cada vez mais complicado”, comenta Marcos Lima, lusodescendente e empresário a viver no Rio.

 

Contestações

As declarações e promessas do juiz e futuro governador mereceram críticas por parte de organizações representativas dessas comunidades. Em declarações à nossa reportagem, George Verllague, presidente do Movimento Favelista Brasileiro, repudiou a atitude de Witzel em querer utilizar drones e atiradores de elite no combate à violência.

“Wilson Witzel está vendo como solução para a redução da violência nas favelas a extinção daqueles que estão armados. Mas é importante salientar que quem treina os soldados do narcotráfico são as forças armadas, por conta da legislação em vigor. Existe uma lei que obriga todos os cidadãos brasileiros a servirem às forças armadas. A grade curricular instrucional do Exército, da Aeronáutica e da Marinha ensina a manipular armas. Quando o jovem deixa o serviço militar, ele não encontra emprego, o emprego é que vai ao encontro dele, que é exactamente o crime. O correto seria que o Estado oferecesse oportunidades para esses jovens em ambientes como a Polícia Militar, Bombeiros e outras forças de segurança. Acho essa decisão muito perigosa. Em vez de investir na educação, na inclusão e na formação pedagógica desses jovens, o futuro governador quer investir em mais violência”, lamentou Verllague.

Por sua vez, Fransérgio Goulart, historiador e militante do Movimento de Favelas e do Fórum Grita Baixada, comentou que este é um momento em que, novamente, negros e pobres estão na mira do Estado.

“O discurso de Witzel em outros países seria imediatamente interditado, pois viola direitos consagrados no mundo. A polícia é o executor e o judiciário continua matando quando absolve essas pessoas, assim como quando deixa pessoas como o governador eleito falar o que falou e que não seja responsabilizado”, contesta Goulart.

 

Investimento necessários

Antes de deixar o cargo nos próximos dias, o actual governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, divulgou novas acções que visam reestruturar a segurança pública do Rio. Pezão garantiu que até o fim do ano serão convocados mais policiais militares e que serão compradas novas viaturas, além de outras medidas financeiras e operacionais para reforçar o combate à criminalidade no Rio de Janeiro.

“Serão convocados em dezembro os últimos 573 PMs aprovados em concurso em 2014. Eles se juntarão a 800 policiais, que começaram a ser chamados em julho e iniciarão o curso no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cfap). A Polícia Civil também receberá reforço, com a formatura, prevista para o próximo mês, de 245 oficiais de cartório. Na recomposição dos quadros da perícia técnica, o governo já nomeou 96 papiloscopistas aprovados em concurso. Além de 750 viaturas adquiridas este ano com recursos estaduais e que já estão nas ruas, serão comprados mais 1.036 veículos com verbas provenientes da Secretaria Nacional de Segurança Pública (R$ 30 milhões), de emendas parlamentares (R$ 7 milhões) e de convênio do Governo do Rio com o programa Pró-Cidades (R$ 20 milhões)”, informou a assessoria de comunicação do governo do Estado.

 

Portugueses como aliados

Durante a sua campanha eleitoral, Witzel disse querer estreitar a ligação com a comunidade luso-brasileira.

“Vamos aumentar o nosso comércio, as nossas relações de pesquisa e de intercâmbio, e de tudo o que for favorecer o nosso povo com o de Portugal. (…) Vamos também procurar estar próximos da comunidade de Língua Portuguesa”, defendeu Witzel, que sublinhou que a comunidade portuguesa no Rio de Janeiro pode “esperar um Estado mais seguro, mais promissor e com mais oportunidades”.

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