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Brasil: Associação recém-criada promete apoiar portugueses residentes no Espírito Santo

A comunidade portuguesa e lusodescendente residente no estado brasileiro do Espírito Santo conta hoje com a ajuda da Associação de Portugueses do Espírito Santo (APES). A entidade, que conta com o apoio do governo estadual local, ganhou vida em 2018 e, desde então, tem estado empenhada em dar atendimento e prestar serviços de caráter social e cultural. O objetivo central dessa iniciativa é “apoiar, em todos os níveis, os portugueses residentes no Espírito Santo e dar voz à cultura portuguesa”.

Para compreender melhor em que contexto surgiu essa associação, Alexandre Mendes, presidente da APES, falou com a e-Global sobre o trabalho desenvolvido pela entidade e os objetivos que essa associação pretende alcançar no cenário do trabalho associativo português no Brasil.

 

Como nasceu a Associação de Portugueses do Espírito Santo (APES)?

A APES nasceu fruto da minha mente no ano de 2013. Cheguei ao Estado do Espírito Santo no dia 21 de janeiro de 2009 sem conhecer quase ninguém, principalmente na área de documentação ou legalização, e aí começou a minha luta. Após a decisão de me manter e ficar no Espírito Santo, resultado de uma grave crise económica em Portugal desde 2008, enfrentei bastantes dificuldades para saber como, onde e que documentos reunir. Após muitas idas e vindas à Polícia Federal e ao Ministério do Trabalho do Brasil, consegui finalizar o processo em setembro de 2014. Um ano antes, em 2013, já conhecia todo o trâmite necessário e resolvi começar a ajudar outros portugueses que, eventualmente, estivessem na mesma situação ou que pensam em se mudar para o Brasil. De forma bem lenta fui começando a atender pessoalmente e via Skype quem pedia auxílio. Em março de 2016, realizei o primeiro encontro de portugueses natos que conhecia até a data, eram apenas nove, com as suas famílias, e fizemos, em conjunto, um churrasco no meu prédio. Em abril de 2017, conheci pessoalmente o deputado Estadual Rafael Favatto e iniciamos uma parceria. Ele conheceu o trabalho que eu vinha desenvolvendo em prol da comunidade portuguesa e, em 10 de julho de 2017, indicou-me ao Título de Cidadão Espírito Santense, do qual me orgulho muito e, assim, aumentou ainda mais a minha responsabilidade. Em seguida, esse mesmo deputado abriu as portas do seu gabinete para que eu pudesse começar a fazer os atendimentos, tirar dúvidas, auxiliar em processos não só dos portugueses, mas, também, dos lusodescendentes e do capixaba em geral, ou seja, de quem tinha vontade de viver em Portugal. A demanda não parava de aumentar e, em novembro de 2017, organizei mais um encontro entre portugueses que juntou 103 participantes. Esse foi o termómetro que indicava que eu não poderia mais parar. Prometi, nesse encontro, realizar uma verdadeira sardinhada portuguesa e, em abril de 2018, esse evento foi realizado, com enorme sucesso, para 150 pessoas. Assim, estava decidido: a APES, até então um projeto, teria que sair do papel e virar realidade. Criamos um grupo de nove fundadores, discutimos os estatutos, aprovamos, fizemos a ata de eleição e, a 17 de agosto de 2018, a Associação de Portugueses do Espírito Santo se tornou verdadeira, real e única no Estado e para toda a família portuguesa e capixaba.

Quais são as principais atividades da APES?

A APES é uma associação totalmente voltada para o âmbito social e cultural. Pretendemos dar apoio a todos os níveis aos portugueses residentes no Espírito Santo e dar voz à cultura portuguesa.

Quantos sócios a APES tem?

O início de inscrição de sócios começou em março 2019, online, através do nosso site. Contamos atingir a primeira centena brevemente.

Onde está localizada a sede da Associação?

A APES foi registada no Cartório de Vila Velha, no Espírito Santo, devido à uma parceria com uma empresa que à data se mostrou disponível e foi fugindo dos compromissos, o que nos obrigou a repensar alguma solução, solução essa que encontramos junto ao Governo do Estado do Espírito Santo que tem nos apoiado com a disponibilização de uma sala/escritório na capital Vitória, onde recebemos todos os interessados nas mais diversas áreas: sociais, culturais e administrativas. Hoje, apenas contamos com uma sala de atendimento, mas estamos em conversas com o Governo do Estado, especialmente com a Secretaria de Gestão e Recursos Humanos, para apresentar um projeto Sócio/Cultural a ser implantado no centro da capital, onde teremos disponibilidade de sala jurídica, assistência social e a possibilidade de criar um espólio de produtos que representem a cultura portuguesa, inclusive comercializando artigos portugueses decorativos, entre outros.

Que eventos promovem?

Os eventos são voltados para a união dos portugueses, descendentes e fãs da cultura portuguesa. Realizamos três encontros por ano que, normalmente, acontecem em abril, junho e novembro. Intercalados, também começámos, este ano, a realizar passeios turísticos pelo Estado do Espírito Santo e a visitar municípios que tenham gastronomia portuguesa e acabamos por juntar o útil ao agradável.

Também apostam no folclore português?

O folclore é património nosso e não podemos deixar de fora. Logo que soube que existiu um Rancho Folclórico no Espírito Santos nas décadas de 1980 e 1990, com a ajuda de um empresário português, fui a procura do então responsável e encontramos o sobrinho dele, filho de uma portuguesa, e logo que fiz o convite para resgatar o grupo e de ele ser diretor cultural da APES, ele aceitou. O grupo já se apresentou nas nossas festas, além de ter participado, em novembro, das festas da localidade de Santa Maria de Jetibá, a convite do Secretário de Turismo Municipal. Fiquei muito honrado pelo convite e, se Deus quiser, lá estaremos, levando o Grupo de Danças e Cantares Vasco Fernandes Coutinho, nome oficial do nosso Rancho Folclórico. No final de novembro, o rancho também participou no evento “Fados in Vitoria”, brilhantemente liderado pela fadista Maria Alcina.

Que datas são celebradas?

Para já, a única data específica que comemoramos é o dia 10 de junho: “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Realizamos, preferencialmente, um almoço em restaurante português e, recentemente, conseguimos, junto do nosso governador Renato Casagrande, um Projeto de Lei a ser aprovado na Assembleia Legislativa para que, a partir de 2020, de forma oficial, o Palácio Anchieta seja aberto e possa receber a comunidade portuguesa no Dia de Portugal. Será inédito no Estado do Espírito Santo.

Que serviços prestam hoje e que resultados estão a ser atingidos?

A cultura portuguesa hoje é mais presente, contribuímos para negócios de pequeno porte entre portugueses que nunca se conheceriam, ajudamos nas relações diplomáticas com casos mais graves de portugueses no Espírito Santo, como, por exemplo, portugueses presos, hospitalizados, passando graves dificuldades de subsistência e moradores de rua, damos atendimento jurídico, prestamos assistência social, fazemos abertura de contas em bancos de Portugal, disponibilizando informações sobre o atendimento permanente do Consulado-Geral do Rio de Janeiro no Espírito Santo a cada três meses, além de enriquecer culturalmente o Espírito Santo nos juntando às fortes comunidades italiana e pomerana (da Alemanha), bem presentes e organizadas. O melhor resultado para mim é receber elogios de quem precisa do nosso trabalho, é isso que me encoraja a continuar. Esticar a mão a quem precisa, pegar num processo e terminá-lo com final feliz e receber um abraço, um obrigado e até lagrimas de alegria, não tem melhor resultado que esse.

Há estatísticas sobre o número de atendimentos?

Ainda não temos, porque estamos dando o pontapé de saída. Muita gente no Espírito Santo sequer sabe da nossa existência. Será um processo longo, demorado, mas tenho a certeza de que os resultados serão ótimos. Neste momento, temos uma média de 40 pessoas atendidas por mês.

O que mudou com a criação da APES no Espírito Santo?

A APES hoje disponibiliza atendimento, prestação de serviços, de caráter social bem presente, dinamiza a cultura portuguesa e, hoje, o capixaba tem a disponibilidade de tratar de qualquer tipo de processo de cidadania, transcrição de casamento, vistos e etc., de segunda-feira à sexta-feira, em horário full time. Cooperamos com o Consulado Honorário de Portugal no Espírito Santo, onde temos boa relação com o atual cônsul-honorário, e temos muita vontade de sermos vistos como parceiros importantes pelo Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro.

Como caracteriza a comunidade portuguesa e lusodescendente no Espírito Santo?

A nossa comunidade no Espírito Santo, por vários problemas, motivos e até abandono, não é unida. Cada um governa a sua vida para o seu canto, mas são apenas atalhos. Tenho muita confiança que, ao longo do tempo, e com a nossa persistência, vamos quebrar essas correntes e seremos uma verdadeira família, com problemas, claro, mas as coisas boas irão sobressair. Para falar a verdade, já se começa a ver esse resultado. Os descendentes, filhos, netos, bisnetos acabam por se envolverem mais e com mais interesse do que os portugueses natos, mas, uma hora, um a um, acredito, irá se juntar e eu estarei de braços abertos para cada um deles.

 

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