Brasil | Entrevista

Brasil: “Os votos que Bolsonaro recolheu, tiveram um efeito devastador na estrutura política brasileira”

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Apesar de as sondagens terem apontado para uma confortável vantagem do candidato Jair Bolsonaro na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, os resultados surpreenderam o Brasil e confirmaram que o país está com uma nova paisagem política contrariando os cenários passados e alguns paradigmas eleitorais.

“Os votos que Jair Bolsonaro recolheu, tiveram um efeito devastador na estrutura política brasileira”, disse à e-Global Eduardo Gomes, professor no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro.

“O cenário da política mudou todo e a velha elite do centro que se aliava tanto à esquerda como à direta, saiu de cena”, considera Eduardo Gomes que sublinha que “hoje temos mais partidos, com menos representantes, com número menor e que vai envolver outra gramática de negociação. O Bolsonaro teve esse efeito”. No entanto, realçou Eduardo Gomes, foi registada também na primeira volta das eleições “a maior abstenção desde há vários anos” e que poderá ter repercussão na segunda volta.

Neste universo da abstenção foram registados também um grande número de eleitores que votaram, mas abstiveram-se de votar num dos candidatos à presidência. Assim, para Eduardo Gomes, “os termos da disputa do segundo turno não são apenas esses que têm sido falados, talvez haja, talvez, eleitores disponíveis, que não sabem o que querem diante do que é oferecido, e a médio prazo, como é que vai se dar a relação do presidente com a elite legislativa, que é um cenário totalmente novo no Brasil”.

Para Eduardo Gomes, a percentagem obtida por Jair Bolsonaro face ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, demonstra que as propostas de Bolsonaro tiveram impacto numa grande parcela da população “inclusive nos que votariam no PT”. Segundo o cientista político o discurso do candidato Bolsonaro tem eco “nas pessoas que estão preocupadas com a família, assim como nas pessoas que estão contra a contra a população LGBT” e “muitas pessoas de esquerda partilham essa visão mais pessoal, familiar, conservadora do país. Então o PT deve estar atento a isso”, defende Eduardo Gomes.

O professor universitário considera também que o PT tem de “redefinir o discurso dos direitos sociais para o futuro, e não os direitos sociais… quer dizer, o PT tem currículo para defender direitos sociais, mas tem de fazer isso para o futuro”. Para Eduardo Gomes o PT tem de alterar o discurso fazendo a ligação das suas propostas a casos práticos e concretos nos quais se identifica a população. “O Haddad para capturar mais eleitores, que eu acho que existem, tais como os eleitores sem voz, que não quiseram demonstrar a sua voz, tem redefinir um pouco o discurso”.

“Eu acho que há população, que há recursos humanos eleitorais votantes, e mais, acho que o Bolsonaro apela para questões que são caras para as pessoas e igreja e Deus, é isso que ele fala o tempo todo, o PT não. Não é que o PT tenha que reescrever a história, mas deve pegar no seu passado e reescrever para o futuro, pode chamar o legado de Lula, mas é isso para o futuro”, defende Eduardo Gomes que considera que ainda existe um vasto universo de potenciais eleitores “sem voz” que terá “ficado á margem”.

No entanto, Eduardo Gomes reconhece que os casos de corrupção que implicam figuras de destaque do PT pode afetar a candidatura de Fernando Haddad, e defende que o PT tem de insistir que quer “o combate à corrupção, dentro da lei, dentro dos princípios da lei” e “o PT, se fez corrupção, está pagando por isso. Pagando mal, mas enfim”.

RN

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