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Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira: Um novo olhar brasileiro para o mercado português e o papel da CCILB

Presidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira - Francisco Murteira Nabo

É a partir da Praça das Indústrias, em Lisboa, que opera a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira – CCILB. Fundada em 1948, a CCILB fomenta e apoia as relações económicas e comerciais entre Portugal e Brasil, através do apoio prestado aos cidadãos brasileiros e portugueses, às pequenas, médias e grandes empresas associadas que querem investir nos dois mercados. Os serviços prestados aos associados pela Câmara de Comércio vão desde a assessoria jurídica e de negócios, assessoria de comunicação, até ao apoio à internacionalização.

Em entrevista à e-Global, a secretária-geral da CCILB, Marlene Fialho, revela que o serviço mais procurado pelos brasileiros que chegam a Portugal “é em primeiro lugar o entendimento do mercado local, necessitando de pesquisas de mercados para implementação das suas empresas, orientações de abertura de empresas e ainda, quando abertas, solicitam a prospeção de novos clientes”. Neste sentido, Marlene Fialho destaca o papel da CCILB na tentativa de “fazer um match entre as empresas que já estão no mercado e as que estão a entrar”, reforça Marlene Fialho.

A secretária-geral da organização acredita que “Portugal ainda está num bom momento para os brasileiros apostarem”. Considera que os cidadãos brasileiros “têm uma visão muito ampla e são empreendedores” apesar de, por vezes, chegarem com uma dimensão errada da dimensão do mercado português, “os brasileiros arriscam, têm risco”, reforça Marlene Fialho.

Em 2017, a corrente de comércio entre Portugal e Brasil cresceu em 75%, igualando o valor mais alto registado até hoje, e pela última vez em 2011. O Presidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira, Francisco Murteira Nabo, explica à e-Global que há duas razões fundamentais para este crescimento significativo. A primeira razão prende-se com o facto de “independentemente da crise política que se está a viver, a economia do Brasil ter deslocado”. Isto é, explica Francisco Murteira Nabo, a economia brasileira “começou a ficar imune à questão política e cresceu”. Em segundo lugar, a CCILB tem notado que em relação a Portugal, o Brasil tem demonstrado “mais abertura, mais economia, mais vontade e mais atividade”, começa por justificar o Presidente da CCILB.

CCILB logotipo

Francisco Murteira Nabo destaca a necessidade de “internacionalização” das empresas, principalmente no caso de Portugal, que agora “procura a Ásia e a América Latina, e em particular o Brasil”. Por outro lado, o facto de Portugal ser um dos países mais avançados em termos tecnológicos, faz com que os brasileiros vejam “uma boa plataforma para poderem entrar na Europa. Por outro lado, veêm em nós aliados com o know-how para poderem acrescentar valor às capacidades económicas que eles têm”, esclarece o Presidente.

O crescimento na atividade comercial luso-brasileira registado em 2017 teve um efeito direto na própria Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira. Atualmente, a CCILB conta com cerca de 160 associados e, só nos últimos quatro meses de 2017, a CCILB ganhou 13 associados, o que representa quase 10% de todos os associados num curto espaço de tempo. Este crescimento é significativo e refletiu-se na procura dos serviços da CCILB, tanto por parte de pequenas e médias empresas, como de empreendedores. Francisco Murteira Nabo acredita que “há a convicção que a economia europeia vai avançar”.

Para o Presidente da CCILB, a Europa tem a “capacidade de fazer alianças na área das novas tecnologias”. Já Portugal, sublinha, destaca-se por ser um dos países europeus mais avançados no mundo digital e “os brasileiros sabem, eles precisam dessas alianças”, acrescenta. Acredita ainda que “o Brasil não pode continuar com a política protecionista que tem senão não se internacionaliza e não é competitivo. E com a Europa a mesma coisa, a Europa precisa de mercados para sair”.

Para Francisco Murteira Nabo, “existe um desequilíbrio muito grande em termos de percentagem da importância do comércio internacional nos dois países”, pois “o Brasil representa para a União Europeia 2% das exportações, mas o Brasil exporta para a União Europeia 20% das suas exportações”, exemplifica. Relativamente à Mercosul, o responsável da CCILB acredita ser “mais favorável para o Brasil do que para a Europa. Porque 50% da economia da Mercosul, ou mais, é o Brasil”.

“Nota-se que a economia [brasileira] do presente começou a descolar, ou seja, a ficar imune à questão política e cresceu”

Segundo o Presidente da Câmara de Comércio, a crise está “atenuada em termos de negócios” e destaca o setor aeronáutico e o caso específico da empresa Embraer, que está prestes a abrir a segunda fábrica em Portugal. Este é “um setor que está em grande crescimento daqui para lá”, explica Francisco Murteira Nabo, que explica que o setor representa “um valor acrescentado”. E ressalva: “estamos a falar de tecnologia, de indústrias muito avançadas tecnologicamente com pessoal muito qualificado, portanto essa é uma novidade de cá para lá. De lá para cá, penso que os brasileiros querem know-how e há muitos estudantes brasileiros a estudar em Portugal, a tirar mestrados e portanto estabelece ligações muito grandes”, frisa.

Dentro deste tema, Marlene Fialho, secretária-geral da CCILB, dá ainda o exemplo da empresa brasileira LabCoco, que abriu recentemente uma grande fábrica em Vendas Novas. Neste sentido, realça, os empresários brasileiros “olham para Portugal como uma base, um test drive para a expansão para a Europa, e é nesse sentido que portugal poderá crescer, baseado nesse conceito”, sublinha.

“de setembro a dezembro do ano passado, a CCILB ganhou 13 associados, o que representa quase 10% de todos os associados”

Tendo em conta o contexto empresarial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Francisco Murteira Nabo, acredita que “uma das questões-chave da CPLP é ultrapassar-se as questões herdadas do passado, por forma a que os países iguais se encontrem e discutam complementaridades”. E, falando pelos vários países-Membros da CPLP, “ainda não interiorizámos a importância estratégica da CPLP como espaço de língua, de cultura, e de economia”, defende o Presidente da CCILB.

Para Francisco Murteira Nabo é quase uma “exigência” pensar a CPLP como um bloco económico, onde as economias dos vários membros se complementem e se tornem competitivas à escala global”, justifica o representante.

Dessa forma, uma das soluções passa por “considerar as complementaridades dos vários países da CPLP”, e dá o exemplo de Angola: “Angola não tem uma refinaria, ou seja, exporta em bruto o petróleo e quem tira valor acrescentado do petróleo, são os países que têm refinarias e que têm outras coisas”. Tendo em conta esta realidade, explica Francisco M. Nabo, “o que a CPLP precisa é de reter valor nos países que têm todas as matérias-primas disponíveis, através de alianças com os países que não têm matérias-primas disponíveis, mas que têm competências”, reforça.

“Uma das questões chaves da CPLP é conseguir ultrapassar as questões herdadas do passado, por forma a que os países iguais se encontrem e discutam complementaridades”

Para o Presidente, os países da CPLP ainda não ultrapassaram “o trauma da colonização”, e essa é uma das causas para não se avançar para a integração das características e do potencial de cada um dos estados-Membros. Acredita que a utilização da palavra “lusófono” é uma “palavra de domínio e que só o passar do tempo poderá eliminar a forma como se utiliza o vocábulo e o seu significado. Para Francisco Murteira Nabo, “estes são tipos de pensamento que bloqueiam o desenvolvimento económico”.

“A globalização obriga a que haja dimensão, e a dimensão só se consegue integrando coisas num espaço comum, ou que têm algum sentido geográfico”, defende o empresário. O crescimento entre o comércio de Portugal e Brasil antevê um futuro risonho de expansão, por isso a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira prevê que este ano que agora começa “seja um ano de grande abertura para os dois países”.

SC

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