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Comunidade portuguesa e lusodescendente na América do Sul adota medidas contra a proliferação do Covid-19

A comunidade portuguesa e lusodescendente no Brasil e no restante da América do Sul começou, nos últimos dias, a conviver com mudanças no quotidiano das suas cidades de acolhimento em virtude da pandemia do coronavírus. Os governos locais determinaram sanções, fechamento de fronteiras, suspensão de serviços públicos e eventos, proibiram aglomerações, determinaram a interrupção de serviços e sinalizaram sobre a importância do isolamento social. Essa iniciativa ocorre após o aumento do número de infetados e de mortes nessa zona do planeta. A ideia é evitar que a região viva o caos que se tem verificado na Ásia e na Europa.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados no último dia 16, mostram que em todo o continente americano existem 4.545 casos confirmados de contaminação e 73 mortes registadas. Dentre os países da América do Sul, o Brasil regista o maior de número de casos confirmados.

Diante desse cenário, a e-Global conversou com portugueses e lusodescendentes residentes na América do Sul para saber como estão a lidar com os desafios da luta contra o covid-19.

 

“É hora de todos serem solidários”

Marcelo Fernandes, servidor público federal no Rio de Janeiro, sublinhou que as orientações anunciadas pelas autoridades locais devem ser levadas a sério pela população.

“As pessoas estão começando a perceber a magnitude da pandemia, com muitos com algum pânico, querendo estocar alimentos. As autoridades estão agindo para retardar o aumento rápido da contaminação pelo vírus. No caso do Rio, os governantes tomaram medidas para distanciamento social e clamam para a população ficar em casa, pois é hora de todos serem solidários. Esse é um compromisso entre gerações, temos de proteger as pessoas que amamos. Só devemos sair de casa nas situações de extrema necessidade. O distanciamento social junto com a intensificação de medidas de higiene são fundamentais para minimizar o impacto do covid-19 na sociedade, ainda mais porque, em algumas regiões do Brasil, e mesmo no Rio de Janeiro, as estruturas médicas não possuem condições para atender a um grande fluxo de doentes repentinamente”, disse Fernandes.

Por sua vez, António Davide da Graça, conselheiro do Conselho das Comunidades Portuguesas, residente em Porto Alegre, no sul do Brasil, sugeriu a situação no País começa a merecer maior atenção por parte das instituições e da população.

“Anda a ficar complicado isto por cá. Na comunidade portuguesa do Rio Grande do Sul não temos nenhum caso, mas as associações portuguesas cancelaram todos os seus eventos. Prejuízo total”, destacou Davide.

O advogado Sérgio Pinheiro, residente na cidade maravilhosa, comentou que vê com cautela a situação do coronavírus no Brasil.

“É preocupante, em virtude da falta de conscientização do povo brasileiro. Pelo meu lado, estou mantendo-me trabalhando em casa e cuidando da higiene e evitando circulação. Todavia, vejo que o povo ainda não se deu conta da importância e da gravidade do caso. Brasileiro é irresponsável consigo mesmo, imagine com os outros”, atestou Pinheiro.

Eduardo Jesus Alves, profissional da área de Tecnologia da Informação, referiu que a população precisa de se adaptar ao novo cotidiano que está a surgir.

“Estou trabalhando desde casa. Não estou saindo para nada, a não ser se for muito necessário. Estou cumprimentando as pessoas somente à distância e estou lavando bem as mãos a toda a hora”, reforçou Alves, que vive em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo.

Profissional da área de Recursos Humanos e professor universitário, Maurício Seixo, residente no Rio, chamou a atenção para a importância do compartilhamento de experiências entre os países.

“Como aconteceu em outros lugares no planeta, ainda tem gente que não está levando a sério, mas a cada dia mais pessoas se conscientizam e começam a seguir as orientações das autoridades. Hoje, dia 16, até o metro estava mais vazio. Entendo que as informações, especialmente da Europa, estão ajudando a mudar o quadro. Acredito também que alguns exemplos, como o cancelamento dos campeonatos de futebol, possam ajudar no entendimento da importância de ficar em casa o máximo possível. Algumas empresas ainda não acordaram, mas algumas já liberaram o trabalho em casa, especialmente para as pessoas nos grupos de maior risco”, opinou Seixo.

André Ceciliano, que vive no Rio e atua na área digital, ressaltou que a população brasileira está já a tomar ciência do problema.

“Historicamente, os brasileiros têm por hábito fazer piada ou não levar os assuntos a sério.  O mesmo está acontecendo com o Covid-19. Apenas uma parte da população se atentou para a gravidade do problema, principalmente os que acompanham os portais de notícias e os que têm parentes ou amigos morando no exterior. Acredito que o aumento exponencial dos casos e, por consequência, o nível de gravidade dos mesmos, fará com que a população se previna mais. Aqui em casa já diminuímos ao máximo o convívio social, adotamos a política de home office e estamos seguindo as recomendações sobre asseio básico”, confirmou Ceciliano.

Também a viver no Rio, o taxista Sérgio Luiz Gaspar Bastos, natural de Lisboa, pensa que a situação está a ser tratada de forma “sensacionalista”.

“Estou a levar a vida de forma normal, mas a grande maioria das pessoas está apavorada, em pânico, e já começam a invadir os supermercados. Estou a trabalhar, mas não há ninguém nas ruas”, alertou Bastos.

 

“Muita gente ainda não tem noção do perigo”

De acordo com Augusto António Guerra Soler, conselheiro do Conselho das Comunidades Portuguesas, residente na cidade da Costa, no Uruguai, o cenário no seu país de acolhimento é de cuidado para que não haja propagação do coronavírus.

“Até hoje, temos oito pessoas com o Covid-19, mas todos os dias esse número pode aumentar. As medidas são de controlo nas fronteiras, suspensão de atividades desportivas, sociais e da educação até depois da semana santa. O pedido é para que todos fiquem em casa e só saiam por necessidade”, narrou Guerra.

Otília Margarita Torres, presidente do Club Portugués de Esteban Echeverria, localizado em Canning, na Grande Buenos Aires, Argentina, ressaltou que é preciso conhecer os problemas que o vírus pode trazer.

“Existem pessoas que não tomam consciência de que estão em quarentena. Muitas pessoas que vieram de viagem não estão em quarentena. Muita gente ainda não tem noção do perigo. Por outro lado, há gente que se importa. Estou no meu trabalho. As pessoas estão ainda um pouco confusas com as determinações do governo que fechou as fronteiras e deu 15 dias de férias. Hoje, Buenos Aires não parecia uma cidade. Todos estavam em casa. Estamos todos muito preocupados e aguardamos notícias. Teríamos no nosso clube uma festa grande em abril e já foi suspensa. Estamos numa situação bastante complicada. Já sofremos com o sarampo e com a dengue, agora ainda temos o coronavírus. Estamos tendo as precauções necessárias, que é lavar as mãos e utilizar álcool em gel”, confirmou Torres.

Por fim, Ricardo Lourenço, que é professor e vive em Caracas, na Venezuela, informou que as diretrizes locais impõem o uso de máscaras nas ruas.

“A partir de hoje, dia 16, há ordem para ficar em casa nas cidades de Caracas, Miranda, La Guaira e nos estados fronteiriços com a Colômbia: Zúlia, Táchira e Apure. Só podem trabalhar o comércio alimentar em regime de entregas, o transporte público, os centros de saúde, as farmácias e os elementos de segurança policial e militar. Quem sair à rua deve levar máscara obrigatoriamente. Os portugueses e lusovenezuelanos normalmente tratam das padarias, restaurantes e mercearias. Devem usar máscara para o atendimento no balcão. Eu, por exemplo, sou professor e tenho de ficar em casa porque o sistema educativo está fechado. Estou a trabalhar no computador e envio avaliações especiais aos meus estudantes via Internet”, disse Lourenço.

 

Sem casos assinalados na comunidade lusodescendente

Segundo a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, “até ao momento, não temos conhecimento de nenhum português ou lusodescendente contaminado no Brasil ou na América do Sul”.

Foi possível apurar também junto aos consulados-gerais de Portugal no Rio e em São Paulo que não há informações sobre infetados registados no seio da comunidade luso-brasileira.

A seguir numa linha de prevenção para mitigar os problemas causados pela pandemia de coronavírus no mundo, este órgão, ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, alertou para que a população tome as medidas necessárias e anunciadas pelas autoridades.

“Aos portugueses residentes na América do Sul, assim como a todos os que residam noutras partes do globo, recomenda-se que cumpram escrupulosamente as recomendações das autoridades locais e que tomem as medidas de proteção adequadas. Aos que se encontrem de passagem, em virtude de viagens turísticas, de negócios ou por outras razões, o governo aconselha que efetuem, de forma urgente, esforços no sentido de antecipar o seu regresso a Portugal. Esta recomendação surge atendendo à enorme volatilidade da situação internacional no quadro do covid-19, com suspensões na atividade de múltiplas companhias aéreas”, afirmou essa Secretaria de Estado.

 

Auxílio para quem está fora de Portugal

Para dar apoio aos portugueses que se encontrem transitoriamente em viagem no estrangeiro e que necessitem de ajuda para regresso a Portugal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) criou a Linha de Emergência COVID-19, que conta com o endereço de e-mail covid19@mne.pt e com a linha telefónica +351 217 929 755.

“Esta linha de emergência para viajantes estará disponível em dias úteis, entre as 9h e as 17h, e, fora deste horário, será complementada pela atividade do Gabinete de Emergência Consular (GEC) em funcionamento 24 horas por dia. Com a presente decisão, o MNE coloca à disposição dos portugueses em viagem pelo mundo um serviço adicional, destinado sobretudo a prestar informações relativas ao regresso a território nacional no caso de ocorrerem dificuldades de circulação no país onde se encontrem. A linha de emergência não servirá para o tratamento de outros assuntos de natureza consular tais como a emissão de cartões de cidadão, passaportes biométricos ou tratamento de pedidos de vistos, que seguem os seus canais próprios e regulares junto dos postos consulares”, informou a nota enviada à nossa redação.

 

Ações no Rio de Janeiro e em São Paulo

O governo do Estado do Rio de Janeiro informou que há 31 casos confirmados e 94 suspeitos no estado. Um dos infetados está internado em estado “gravíssimo” e os demais estão em isolamento domiciliar, “apresentando estado de saúde estável”.

O governador do Rio, Wilson Witzel, assinou decreto a estabelecer medidas preventivas temporárias de enfrentamento ao novo coronavírus que deverão ser seguidas pela população fluminense nos próximos 15 dias. Entre as determinações divulgadas no documento estão a suspensão, por 15 dias, a partir do dia 16 de março, de aulas nas escolas públicas e particulares, creches e instituições de ensino superior. A medida funcionará como uma antecipação do recesso de meio de ano, já que o Brasil conta com um calendário escolar diferente do que é seguido na Europa. Estão suspensos também eventos desportivos, concertos, feiras científicas, entre outros, em local aberto ou fechado.

Por seu turno, o governador do estado de São Paulo, João Doria, anunciou novas medidas para intensificar o enfrentamento ao novo coronavírus. Ficou definido que, a partir do dia 17 de março, todos os funcionários públicos estaduais com mais de 60 anos, excetuando os que trabalham nas áreas de segurança pública e saúde, deverão trabalhar desde casa. Outra medida determina o fechamento, também a partir do dia 17 de março, de museus, bibliotecas, teatros e centros culturais do Estado de São Paulo por até 30 dias. Também foi recomendado que o setor privado de entretenimento (teatros, cinemas, casas de espetáculo e etc.) mantenham os estabelecimentos fechados por até 30 dias. Por fim, foi definido que todos os 153 Centros de Convivência do Idoso ficarão fechados por 60 dias.

Atualmente, o estado de São Paulo regista 152 casos confirmados para coronavírus. Existem também 1.177 casos suspeitos e 623 descartados, sem óbitos.

O Ministério da Saúde do Brasil divulgou no dia 16 que o País conta com 234 casos de coronavírus. Existem ainda 2.064 casos suspeitos e 1.624 casos descartados. Dezoito pessoas estão hospitalizadas. E já se sabe que houve caso de transmissão comunitária entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

 

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