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Comunidades portuguesas do Cone Sul reflectem sobre o futuro do associativismo e dificuldades dos imigrantes e luso-descendentes

A necessidade de contar com novos líderes, de atrair a participação dos jovens e de desenvolver a língua portuguesa foram alguns dos temas discutidos durante o 30º Encontro das Comunidades Portuguesas e Luso-Descendentes do Cone Sul, em Pelotas, no Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro. O evento, que contou com a presença do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, e de outras autoridades portuguesas e do Brasil, foi organizado pelo Centro Português 1º de Dezembro e foi destinado às associações de luso-descendentes da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul. Esta iniciativa juntou mais de duas centenas de participantes.

Segundo revelado pelo governo português, o encontro foi marcado pelo “espírito de confraternização e de fruição da herança cultural portuguesa”, numa “jornada que se iniciou com o seminário “Valorização do Património Material e Imaterial das Comunidades Portuguesas”, quando foram apresentadas comunicações sobre as marcas arquitetónicas portuguesas nas cidades do Rio Grande e de Pelotas, sobre a fundação da cidade de San Carlos, no Uruguai, por parte de açorianos, ou, ainda, sobre a evangelização católica no Rio Grande do Sul, por parte dos portugueses.

Francisco Serra, coordenador do encontro e vice-presidente Cultural do Centro Português 1º de Dezembro, avaliou positivamente a realização do evento e a participação da comunidade e das autoridades. Este responsável frisou que os assuntos que mereceram maior atenção durante o certame foram a integração cada vez maior das comunidades, o desenvolvimento de atividades que atraiam os luso-descendentes às suas raízes, a preocupação com o engajamento dos futuros líderes que poderão dar continuidade ao trabalho de manutenção da cultura e tradições portuguesas, além da preservação dos bens materiais da comunidade, como clubes, hospitais e outras estruturas.

Francisco Serra comentou que a presença do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas foi “essencial e muito positivo pelo apoio de que necessitamos, quer financeiramente quer como ajuda para a realização destes encontros, mas, principalmente, pelo incentivo aos jovens, dando continuidade ao trabalho desenvolvido pelos seus pais e avós”.

“Analisando o que se passou em todo o encontro, mais essencialmente no Seminário que fez parte dele, a expectativa é bem positiva, já que as manifestações dos jovens sobre o tema Valorização do Património Material e Imaterial das Comunidades Portuguesas foram excelentes e demonstraram o quanto estão ligados à necessidade de manter esse património não só material, mas o imaterial, de modo a que o legado recebido dos antepassados continue fazendo parte da vida cotidiana de cada um”, sublinhou Serra.

De acordo com Maria Regina Freitas, vice-presidente social do Clube e recém eleita presidente da entidade para o período 2019/2020, o evento mostrou a força da comunidade portuguesa e luso-descendente na região.

 

Associativismo em pauta

Para Flávio Marins, presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), o evento pretendeu discutir temas inerentes às comunidades locais.

“O encontro é específico para as comunidades do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, que têm especificidades e dificuldades, seja pela língua, no caso do Uruguai e da Argentina, seja pelo pouco número de portugueses para continuarem a levar o associativismo, no caso do Rio Grande do Sul”, afirmou Martins, que ressaltou que o CCP está atento às necessidades das comunidades portuguesas nessa região do planeta.

“O Conselho Regional da América do Sul e o próprio Conselho Permanente, de escala mundial, constantemente discutem e já aprovaram e publicaram diversos documentos com relação a diversos problemas relacionados à América do Sul como, por exemplo, o recenseamento eleitoral automático decorrente de um projeto de iniciativa popular apresentado em janeiro de 2017, o aumento da validade do Cartão de Cidadão para dez anos, a crítica e propostas para melhoria das condições de atendimento nos postos consulares, a melhoria de financiamento para projetos das nossas associações, e a própria discussão premente das dificuldades passadas há algum tempo pela nossa comunidade na Venezuela. Há muito a ser feito, mas avançamos imensamente neste mandato desde 2016 em pautas que estavam trancadas e insolúveis havia muitos anos”, defendeu Flávio Martins.

Presente no evento, o deputado português Carlos Páscoa citou a integração dos jovens como ponto alto da reunião no Sul do Brasil.

“A realização do encontro foi extremamente importante, pois teve uma programação muito voltada para os luso-descendentes, o que temos como muito positivo. Com certeza foram atingidos todos os objetivos, apesar de se lamentar a ausência da Argentina. Mas acho que o encontro foi muito positivo nos aspetos de integração dos jovens nas questões culturais das comunidades onde residem, pois esse é o elo de atração”, comentou Páscoa, que explicou ainda que “a população emigrante é muito inferior aos números de 20, 30 anos atrás, já que a emigração passou a ser para a Europa e para os Estados Unidos e para o Canadá, assim, houve uma diminuição visível dos emigrantes, e é essa a razão do esforço e insistência para que se façam programas para atrair os luso-descendentes”. Quanto às necessidades discutidas no evento, Páscoa reforçou que foram “muito voltadas para as melhorias do atendimento Consular”.

Por seu turno, também presente no encontro, o deputado português e ex-Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, destacou a discussão sobre o futuro das comunidades luso-descendentes na região sul-americana.

“Foi um encontro muito interessante com uma forte componente cultural e com o envolvimento de muitos jovens. A memória identitária esteve muito presente em vários dos painéis do seminário cultural que integrou o programa. Creio que o certame foi bem conseguido, pois propiciou algum debate sobre o futuro destas nossas comunidades, sobre a afirmação de Portugal no mundo e sobre a integração nas sociedades de acolhimento, contando com uma forte participação das autoridades locais”, reforçou Cesário, que ressaltou que a comunidade portuguesa na América Latina tem características diferentes.

“Trata-se de uma comunidade muito diversificada, com realidades muito distintas. A verdade é que a problemática hoje sentida num País como a Venezuela não tem nada a ver com o resto do continente. Por outro lado, as comunidades luso-brasileiras também são substancialmente diferentes das restantes. A questão social, por exemplo, merece uma atenção muito especial, pois também as nossas comunidades são marcadas por fortes diferenças de desenvolvimento e de riqueza, que condicionam fortemente a vida de milhares de pessoas. Por outro lado, temos que assinalar a enorme importância da nossa língua neste continente, o que facilita a nossa afirmação”, finalizou José Cesário.

O evento contou também com a participação da vice-cônsul de Portugal no Rio Grande do Sul, Adriana Ribeiro, da prefeita e do vice-prefeito de Pelotas, Paula Mascarenhas e Idemar Barz, e dos deputados estaduais Luís Henrique Viana e Eduardo Lara. Estiveram presentes, ainda, os conselheiros das Comunidades Portuguesas António David, do Rio Grande do Sul, e Augusto Guerra, do Uruguai. O encontro teve a apresentação de vários livros e seguiram-se oficinas práticas de gastronomia e de artesanato. Houve apresentações de folclore e danças típicas.

 

Agenda no Brasil

O Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, esteve no Brasil entre os dias 28 de novembro e 2 de dezembro, com deslocações ao Rio de Janeiro, Porto Alegre e Pelotas.

No Rio, o governante visitou duas instituições centenárias fundadas pela diáspora portuguesa no Brasil: o Real Gabinete Português de Leitura e o Liceu Literário Português. Na cidade maravilhosa, decorreu ainda a cerimónia de condecoração do advogado luso-descendente e ex-presidente da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio, Ricardo Coelho, que recebeu, das mãos do Embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, a distinção de Ordem de Mérito pelo “apoio proporcionado na constituição da Associação Luís de Camões, entidade que visa à promoção da língua e da cultura portuguesas no Brasil e agrega o Instituto Camões, o Real Gabinete Português de Leitura, o Liceu Literário Português e a Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Caixa de Socorros D. Pedro V”. A Associação Luís de Camões, que foi apresentada publicamente no dia 10 de dezembro, no Rio, conta também com a participação do Instituto Camões, sendo representado por Teresa Macedo.

Ricardo Coelho mostrou-se “orgulhoso” pela homenagem recebida e disse estar engajado no trabalho em prol da cultura portuguesa no Brasil.

No Rio, o Secretário de Estado português esteve acompanhado pelo Cônsul-Geral de Portugal local, Jaime Leitão, e pelo presidente das entidades pertencentes à Associação Luís de Camões, Francisco Gomes da Costa.

Ainda nessa cidade, José Luís Carneiro visitou o Consulado-Geral de Portugal e conversou com os responsáveis consulares, e com os utentes, sobre as “melhorias que têm sido introduzidas na prestação de serviços”. O político português referiu que “a contratação de chanceleres para os Consulados do Rio de Janeiro e de São Paulo permitirá uma maior qualificação, e certificação, do atendimento consular”.

José Luís Carneiro esteve também em Porto Alegre, capital estadual do Rio Grande do Sul, onde participou num encontro de empresários portugueses e luso-brasileiros, integrado na Semana Portuguesa de Porto Alegre. Nessa cidade brasileira, José Luís Carneiro participou na condecoração de Maria Irene Abrantes Zenhas com a “Ordem de Mérito” pela criação da entidade de apoio social “Casa do Excecional Santa Rita de Cássia”.

Tanto em Porto Alegre como em Pelotas, foram assinados protocolos de colaboração com as prefeituras locais, “tendo em vista o reforço da participação da comunidade portuguesa em iniciativas de caráter público, e a promoção da cultura portuguesa naquelas regiões”.

Em Pelotas, José Luís Carneiro inaugurou as obras de requalificação do Largo de Portugal e apresentou um busto de Luís Vaz de Camões.

“Assistimos hoje a um acto da maior importância, porque, ao colocar o busto de Luís de Camões neste espaço, a Prefeitura de Pelotas está a associar a cultura portuguesa à esfera armilar que já existia nesta praça. Estamos, deste modo, a valorizar a cultura e o conhecimento como luz que orientou os portugueses durante os descobrimentos e nos séculos que se seguiram. Estamos, igualmente, a honrar valores de Portugal como a compreensão, a capacidade de dialogar com os outros povos, a justiça social e a autonomia dos cidadãos, que todos os dias são interpretados por homens e mulheres concretos, como são os portugueses no mundo, de quem Portugal muito se orgulha. Esses são alguns dos valores que estão dentro da língua de Camões”, declarou José Luís Carneiro.

“Este momento de comunhão de valores é a demonstração de que tal como Camões afirmou, os velhos do Restelo não tinham razão. Com sonho, ambição e vontade podemos honrar a herança histórica e cultural de Portugal, neste caso com o país irmão que é o Brasil”, observou o Embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, também presente na inauguração do busto.

“Em Pelotas, sentimo-nos portugueses. Identificamo-nos com essa herança cultural que está presente nos cidadãos luso-descendentes, mas em todos os pelotenses de forma geral. Temos um património em comum que é visível em muitos pequenos detalhes do dia a dia e que tem o seu expoente máximo na língua que nos une”, referiu a prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, que anunciou para 2019 a requalificação urbanística do Largo de Portugal.

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