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Crise na Venezuela aproxima ainda mais Brasil e EUA

A crise na  Venezuela foi tema de conversa entre o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, na última semana, em Washington. Esses dois líderes reiteraram que reconhecem e apoiam o presidente encarregado da Venezuela Juan Guaidó, “ao lado da Assembleia Nacional democraticamente eleita e o povo venezuelano no seu trabalho de restauração pacífica da ordem constitucional na Venezuela”. Os dois presidentes condenaram as dificuldades impostas por Nicolas Maduro às operações de ajuda humanitária, o encerramento de fronteiras e a violência e conflitos entre o governo e a oposição venezuelanas. Por sua vez, o Brasil confirmou que está a levar adiante, a exemplo dos EUA, rompimentos diplomáticos e sanções económicas contra a Venezuela. O país vizinho ao Brasil vive hoje uma “profunda instabilidade económica ocasionada, principalmente, pela dependência do petróleo”.

Enquanto o tema é tratado como forma de aproximação política entre Brasil e EUA, o ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou estar de acordo com a decisão dos Conselhos de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Corporação Interamericana de Investimentos (CII) de aprovar a nomeação, pelo presidente encarregado da Venezuela Juan Guaidó, do economista Ricardo Hausmann como governador pela Venezuela em ambas as instituições financeiras.

A decisão foi aprovada pela ampla maioria dos votos (75%) dos acionistas, há algumas semanas, entre os quais o Brasil, o que demonstra, segundo fontes consultadas, “a rejeição internacional ao regime de Nicolás Maduro, juntamente com o claro e firme apoio internacional ao presidente Guaidó e seu governo, único representante legítimo do Estado venezuelano”.

“Ao passar a contar com representante da verdadeira Venezuela, a Venezuela que inicia a transição democrática sob a liderança de Guaidó, o BID se credencia para desempenhar papel decisivo na recuperação da economia venezuelana, que pressupõe a redemocratização do país”, reforçou essa mesma fonte em Brasília.

 

Portugueses “em apuros”

Na Venezuela faltam medicamentos e alimentos, além de combustíveis, materiais básicos, água e energia elétrica nas cidades venezuelanas.

Muitos portugueses e lusovenezuelanos estão a deixar o país para apostarem numa nova vida em outros países sul-americanos, como Uruguai, Bolívia, Colômbia ou Argentina. Os que se atrevem a viajar para a Europa seguem para a Espanha e não Portugal, em virtude de não falaram a língua portuguesa.

“A situação está muito complicada. Estamos a viver um verdadeiro caos. Não temos nada. Temos de apanhar água nas fontes das ruas, quando ela existe, para podermos utilizar nas nossas casas e nos nossos trabalhos. Comer está cada vez mais difícil. Medicamentos estão escassos e a violência cresceu muito”, conta uma fonte que vive na capital Caracas.

 

Brasil recebe venezuelanos

A fronteira brasileira com a Venezuela continua a receber venezuelanos que fogem do regime do ditador Nicolas Maduro. No último dia 23, o governo Federal brasileiro realizou a última de duas rodadas de interiorização de refugiados e migrantes venezuelanos que se encontram atualmente na capital de Roraima. Centenas de cidadãos estrangeiros foram transportados para 14 cidades brasileiras: Recife e Igarassu (PE), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo, Guarulhos e Araçariguama (SP), Brasília (DF), Cuiabá (MT), João Pessoa e Conde (PB), Porto Alegre (RS), Caicó (RN), Goioerê (PR) e Feira de Santana (BA). Outros venezuelanos chegaram à cidade de Dourados (MS), em voos comerciais.

 

Operação de ajuda

O deslocamento desses venezuelanos ocorreu com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Agência da ONU para Migrações (OIM). Com essas viagens, a Operação Acolhida passa a contabilizar mais de 5 mil venezuelanos distribuídos entre 50 cidades de 17 unidades da Federação.

A Operação Acolhida, que completou um ano no dia 23 de março, operacionaliza a assistência emergencial para o acolhimento de migrantes provenientes da Venezuela que se encontram em situação de vulnerabilidade devido à crise humanitária naquele país. A estratégia de interiorização é coordenada por um subcomitê Federal que envolve nove ministérios, entre eles o Ministério da Defesa, em articulação com governos de estados e municípios recetores e organizações não governamentais. Além do ACNUR e da OIM, outras agências da ONU diretamente envolvidas com a estratégia de interiorização são o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Juntas, essas organizações identificam locais de acolhida ao redor do país, realizam melhorias estruturais nos abrigos, prestam orientação sobre as cidades de destino, organizam a viagem e o recetivo nos novos destinos, além de conscientizar o setor privado para a absorção da mão de obra refugiada. Especial atenção é dada às mulheres, crianças e grupos mais vulneráveis.

O objetivo da estratégia de interiorização é “reduzir o impacto da chegada de refugiados e migrantes venezuelanos em Roraima, permitindo que tenham novas oportunidades de integração e ingresso no mercado de trabalho, recomeçando as suas vidas e contribuindo para o crescimento das novas comunidades de acolhida”.

 

Crise com viés político

Na opinião de Stephanie Dominicalli, que atua na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), existem algumas semelhanças entre a crise venezuelana e o conflito evolvendo Estados Unidos e Iraque.

“Como líder do Estado, Maduro tem todo o direito de questionar as intenções dos Estados Unidos, tendo em vista o interesse declarado no petróleo venezuelano. Infelizmente o encerramento de fronteiras não ajuda em nada a situação económica e o desabastecimento do país”, conta Stephanie, que sublinha que, apesar de mudar o contexto, “a atitude intervencionista dos Estados Unidos se repete sempre”.

Ainda de acordo com essa responsável, os EUA veem os governos democráticos como fontes de comércio e como forma de impor a sua hegemonia no cenário mundial. Porém, o país não leva em conta a cultura, o contexto e a situação económica de cada nação.

“Os EUA acreditam que levando a democracia da forma que eles querem que seja feita, vão conseguir continuar um tipo de troca comercial que é vantajosa só para eles, e não para um país em crise económica. Eles agem em benefício próprio”, defende Stephanie.

“Independentemente do que aconteça daqui para a frente, a população venezuelana continua sendo prejudicada porque ela precisa desses alimentos e remédios da ajuda humanitária”, lamenta Stephanie, que sugere ainda que “o fechamento de fronteiras, que é a única entrada oficial dos Estados Unidos, pode ser uma deixa para uma intervenção maior no país”.

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