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De que forma as redes sociais e as novas tecnologias podem auxiliar empresas portuguesas e brasileiras neste contexto de pandemia? Especialistas sugerem ações

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Num mundo impactado pela pandemia de Covid-19, empresas, companhias e entidades “redescobriram” o valor da Internet na manutenção dos seus negócios e na comunicação, em virtude do isolamento social. Muito modelos de negócio sofreram alterações, as vendas online cresceram e muitos gestores precisaram se adaptar ao atual cenário. E é exatamente na rede mundial de computadores que pode estar uma das grandes oportunidades de crescimento e amadurecimento neste momento: a conectividade. A nossa reportagem conversou com especialistas em redes sociais e marketing digital entre Brasil e Portugal para saber como as novas tecnologias e as ferramentas digitais podem auxiliar neste chamado “novo normal”.

 

Para Vasco Marques, consultor em Marketing Digital, em atuação em Portugal, as redes sociais devem ser vistas pelas empresas com muita atenção e afinidade.

 

“As empresas que ainda não estejam a utilizar, de forma profissional, as redes sociais para impulsionarem os seus negócios, não podem adiar mais. A Covid-19 só veio acelerar a necessidade de uma boa estratégia de marketing digital diversificada, incluindo a aposta nas redes sociais. É bom para conseguir alcançar o público-alvo e obter novos clientes, investindo eficientemente em anúncios e na produção de conteúdos relevantes”, garantiu Vasco Marques, que admite que existem estratégias digitais para que os empresários fortaleçam a sua posição no mercado.

“É necessário definir uma boa estratégia de marketing digital, definindo bem os objetivos e como vão ser alcançados, estar presente de forma profissional nas redes sociais, delinear uma estratégia de marketing de conteúdo, estar presente no Google com SEO e SEA e ter um site ou loja on-line. É importante definir e acompanhar métricas-chave para acompanhar e corrigir táticas”, comentou este especialista, que avalia que a tecnologia será importante no desenvolvimento das empresas e das novas formas de trabalho num mundo pós-quarentena.

“Muitas empresas descobriram que o teletrabalho resulta e provavelmente alguns colaboradores vão continuar a trabalhar desta forma. É positivo ter-se acelerado processos de colaboração remotos. Adicionalmente, fará espoletar procedimentos, ideias e estratégicas que farão desenvolver as empresas numa visão inclusiva do mundo digital. O ambiente digital permite continuar as atividades económicas, na maioria das organizações, respeitando as regras necessárias de higiene e segurança. O mundo nunca mais será o mesmo, está a ser dado um salto evolutivo em várias dimensões do mundo digital e nos negócios”, considerou Marques, que deixa um alerta para empresas e colaboradores que ainda resistem ao potencial das redes sociais e da tecnologia.

“Quem não entrar agora vai perder o comboio para sempre. Não se adaptar ao meio envolvente pode ter um preço demasiado alto. Se não tem conhecimentos para o fazer com segurança, contrate profissionais que o sabem fazer ou forme-os para o saberem fazer de forma proficiente”, esclareceu.

 

Almir Rizzatto, jornalista e especialista em Marketing Digital, em atuação no mercado brasileiro, segue essa mesma linha de raciocínio e sugere que o ambiente digital se tornou “essencial” neste momento de pandemia.

 

“Pesquisa recente mostra que um grande número de empresas brasileiras disse que o grande desafio é fazer esse processo de digitalização, levar o seu negócio presencial para o ambiente digital. Obviamente, nesse processo incluem-se as redes sociais que têm um papel fundamental por possibilitar um alto número de acessos, pelo grande número de usuários que existem mundialmente, é um primeiro caminho obrigatório. Mas é preciso ter um site também. Nenhum tipo de negócio pode sobreviver sem uma página na Internet. O segundo passo é ter uma forte atuação nas redes sociais, tendo em vista o poder de alcance dessas redes, pela proximidade que ela proporciona com potenciais clientes e com os já existentes. Os negócios que ainda não fizeram essa transformação digital devem começar imediatamente. Muitos negócios que estavam fora da Internet sofreram de uma forma bastante forte durante a crise, enquanto que outros que estavam mais preparados cresceram”, contou Rizzatto, que defende ser necessário investir cada vez mais em estratégias digitais.

“Deve haver um investimento cada vez maior em marketing de conteúdo e isso inclui redes sociais e outra frentes, como marketing digital, atração de leads, conversão de visitantes em leads, enfim, todo um processo de Inbound Marketing bastante completo. Mas é somente com um bom conteúdo que uma marca consegue conquistar um posicionamento forte no mercado, admiração do público, respeito e fazer com que tudo isso se converta em vendas. A nossa tendência é sempre comprar de quem nós nos relacionamos, de quem acompanhamos e admiramos. Uma empresa consegue entrar na cabeça do seu público mediante informação relevante, conteúdo que agregue valor e, atualmente, temos uma série de possibilidades para fazer isso, seja com conteúdo em textos, publicações nas redes sociais, vídeos, lives, podcasts, etc. É importante entender em quais plataformas o público de cada marca interage mais para priorizarmos esse canais e começarmos um ritmo forte, e cada vez maior, de produção de conteúdo”, elucidou este especialista.

 

“Resistência ao digital”

 

Ainda na visão de Almir Rizzatto, a tecnologia deve ser vista pelas empresas como uma ferramenta essencial de crescimento, economia e posicionamento destacado no mercado.

“A tecnologia nunca foi tão importante como neste mundo pós-Covid. Isso está muito evidente e vai ficar ainda mais. Negócios físicos estão repensando o seus modelos de negócio porque viram que a tecnologia está presente e foi muito mal aproveitada pelas marcas. Haverá mudanças na forma de entrega dos serviços, mas, também, na relação interna, dentro das empresas, que descobriram que é possível fazer reuniões muito mais produtivas à distância do que presencialmente. E isso proporciona economia. Algumas empresas vão manter o trabalho em regime de Home Office, mantendo o rendimento ou aumentando-o. Agora, não é mais questão de opção utilizar ambientes digitais, é questão de necessidade”, comentou Rizzatto, que esclarece que as empresas não devem resistir à tecnologia.

“É o chamado ‘novo normal´. Precisamos adaptarmo-nos às mudanças. Quando quebramos essa resistência ao digital, percebemos que esse caminho não é tão ruim assim. Mesmo numa reunião à distância os colaboradores estão ali em vídeo, muitas vezes numa forma mais confortável, a fazer o trabalho da mesma forma, sem precisar ficar no trânsito por horas. O trabalhador vai poder utilizar horas extras para atividades físicas, descanso e ter maior produtividade no trabalho, o que também é interessante para os gestores. Existem ferramentas que auxiliam muito no trabalho no dia a dia e que são muitas vezes gratuitas ou contam com custos baixíssimos. As empresas devem começar a enxergar a tecnologia como uma aliada, como ela sempre foi, e não como uma vilã”, finalizou este profissional.

 

Fred Furtado, CEO da Tubelab, empresa brasileira dedicada ao marketing de influência, sugere que o primeiro grande desafio neste momento “é que os gestores deverão quebrar neles mesmos o paradigma de que as pessoas precisam estar presentes para tudo o que acontece, que deve haver controlo presencial entre gestores e equipas”.

 

Este profissional esclarece que a tecnologia será uma grande aliada nesta nova situação.

“Cada empresa vai ter de encontrar o modelo ideal para que o seu negócio funcione e, ao mesmo tempo, que seja possível preservar a integridade física e psicológica dos seus funcionários. E a tecnologia obviamente vai permitir tudo isso. Todo o tipo de apoio da empresa e dos gestores vai ser fundamental. Não se pode dizer se as redes sociais clássicas vão ser os grandes diferenciais na relação empresa-funcionário, mas, certamente, o WhatsApp, sim. As plataformas de vídeo conferência serão, obviamente, fundamentais. Todas essas tecnologias já estão ajudando muito as empresas a estabelecerem uma relação nova e única com os seus clientes. O auxílio que as redes sociais vão dar para as empresas nesse período de pandemia é uma comunicação direta com o seu cliente, quer dizer, ele pode estabelecer um vínculo direto, sem a necessidade de intermediários como antes, quando era preciso haver uma loja, um vendedor ou agente autorizado. Também nas redes sociais, as empresas têm a oportunidade de mostrar os seus valores, a sua cultura, o seu real propósito e motivo de existir. A tecnologia vai ajudar totalmente, como as plataformas de vídeo, as plataformas de gestão. A maneira como as pessoas vão organizar os seus trabalhos vai ser facilitada pela tecnologia. Mas acho que o principal movimento é que as pessoas se conscientizem. Os funcionários ou colaboradores têm de entender que eles passam por um novo modelo e que contam com novas responsabilidades. Agora, vai ser preciso dividir e atribuir tempo para as atividades corporativas e as atividades domésticas para que as suas vidas não virem um tumulto total”, reforçou Furtado.

Mesmo a questão da capacitação nas empresas pode, segundo Furtado, sofrer alterações e melhorias.

“As empresas podem colaborar com os seus funcionários para que eles se capacitem profissionalmente, estudem desde casa e evoluam intelectualmente. Talvez seja um outro desafio interessante para as empresas se comprometerem com essas pessoas, pois hoje existe a possibilidade de os funcionários se especializarem virtualmente. Atualmente, é possível fazer uma faculdade à distância, pode-se fazer cursos profissionalizantes, pode-se fazer diversas atividades que desenvolvam o intelecto. E tudo isso irá possibilitar capacitar os seus funcionários para que eles produzam cada vez mais e com melhor qualidade na empresa”, considerou Furtado.

 

Júlio Trindade, jornalista e sócio da Lapa Comunicação, empresa brasileira, observa que as redes sociais podem ajudar as companhias neste momento de pandemia.

 

“As redes sociais deixaram de ser um canal somente de comunicação e reforço de marca para tornarem-se também em ferramenta de vendas, especialmente para os pequenos negócios. Bons exemplos disso são a integração entre Instagram e WhatsApp e a possibilidade de colocar marcações no Instagram Stories direcionando para Rappi, Ifood ou Uber Eats (aplicações de entrega de comida), no caso dos restaurantes”, comentou Júlio Trindade, que disse ainda que o papel do ambiente digital para as empresas e colaboradores neste cenário mundial de luta contra a Covid-19 é “absolutamente fundamental”.

Júlio Trindade diz que a transformação digital está a impactar muitas empresas.

“Um termo que li e entendo que define bem o momento é ‘aceleração de futuro’. Empresas que ainda não tinham se atentado para a necessidade da transformação digital tiveram de fazê-la às pressas, seja para levarem os seus arquivos ou ficheiros para a nuvem ou para fazerem reuniões remotas. Empresas e colaboradores que têm mais familiaridade com as novas tecnologias vão sobressair”, defendeu este profissional, que reforça que as empresas e os colaboradores que ainda resistem ao potencial das redes sociais e da tecnologia neste momento estão a ter uma atitude nada acertada.

“Seria como negar o inegável. São os lugares onde dão-se as discussões, seja no ambiente sociopolítico, em que pese também os seus perigos, seja no campo do consumo, onde clientes falam e marcas que não ouvem ficam para trás”, comentou Trindade.

 

Nino Carvalho, consultor, professor e palestrante internacional entre Brasil e Portugal, argumentou que o novo cenário veio mesmo para ficar.

 

“Já está claro que muito do que estamos a vivenciar agora irá permanecer nos próximos tempos. Todo esse contato a privilegiar o remoto é um grande aspeto que vai mudar. Muitas empresas não vão voltar mais para o formato antigo. Houve o aumento do e-commerce e a aproximação da pessoas pela Internet. Isso tem um lado positivo que é o de abranger muito mais pessoas e empresas. Porém, ficou mais difícil trabalhar no ambiente on-line, pois há mais ruído e pessoas a falarem besteiras”, explicou Nino Carvalho, que avalia as tendências na mudança de atitude das empresas num mundo pós-pandemia.

“A falta do uso da tecnologia como algo normal foi prejudicial. Muitas empresas sequer tinham sites, não estavam preparadas para vendas on-line e não tinham canais nas redes sociais. Essas empresas notaram o quanto é ruim ter tomado essa decisão. Em outros casos, a tecnologia vai muito além da área de marketing. A tecnologia foi impulsionada em questões de Inteligência Artificial, automação de serviços, fora a área da medicina que tem avançado nesse campo. Muitos governos passaram a se preocupar mais com o investimento em tecnologia para poderem fomentar particularmente micro e pequenos negócios. A tendência agora será passar a usar a tecnologia como algo fundamental para boa parte das empresas. Para a outra parte, não afetou em nada, como pequenos comércios em bairros, além das grande empresas, que já estavam acostumadas a trabalhar com esse viés tecnológico. Contudo, pequenas e médias empresas foram realmente afetadas. O que veremos será uma aposta muito maior em robotização, automação e inteligência artificial, o que vai afetar a questão dos empregos e a forma como nos relacionamos com as pessoas no trabalho, o que terá um custo social muito grande”, ressaltou Nino Carvalho, que é ainda Mestre em Management pelo IBMEC e pós-graduado/especialista em Marketing e Estratégia pelo Chartered Institute of Marketing (CIM, UK).

Ígor Lopes

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