Brasil

“Falta de informação” apontada como um dos entraves nas eleições europeias no Brasil

Nos dias 25 e 26 de maio, o Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro abriu as portas para que os cidadãos portugueses, que integram a comunidade luso-brasileira, pudessem votar nas eleições para o Parlamento Europeu (PE). Apesar do recenseamento automático, a abstenção foi grande, mas “houve um aumento significativo de votantes”. O PSD saiu vitorioso, enquanto os partidos menos tradicionais receberam mais votos do que em outros momentos.

Como rescaldo desse pleito eleitoral, e com as eleições legislativas à porta, autoridades, políticos e líderes da comunidade portuguesa no Rio cobram do governo em Lisboa um trabalho mais efetivo em termos de comunicação junto aos eleitores da diáspora, além de ampliar os locais de votação, apostar no voto eletrónico e de se tentar sensibilizar esse público a participar na vida política de Portugal, apesar da distância geográfica.

Segundo o deputado Carlos Páscoa, do PSD, atuante no círculo fora da Europa, as eleições europeias ficaram marcadas no Brasil pelo aumento significativo da participação de eleitores, apesar de se ter registado uma grande abstenção.

“O recenseamento automático aumentou muito o número de recenseados, mas, como não houve divulgação sobre as eleições, esse aumento de recenseados não se transformou no aumento de votos. Mesmo assim, o facto de ter havido mais votos é extremamente positivo. Houve também uma votação expressiva de novos eleitores, lusodescendentes e portugueses desta nova imigração. A comunidade mais jovem tem mais acesso às informações na Internet do que a população mais antiga”, comentou o deputado, que sublinhou que um dos fenómenos destas eleições foi a elevada votação nos partidos não tradicionais, como o Bloco de Esquerda.

Mesmo com o resultado positivo do seu partido no Brasil, Páscoa mostrou-se preocupado com as próximas eleições.

“O PSD ganhou as eleições no Brasil com uma vantagem superior ao segundo partido, mas não ficamos contentes com isso, pois essa diversidade de votos nos partidos não tradicionais terá que ser avaliada com calma para ver como iremos reagir nas eleições legislativas. Temos que criar instrumentos para as legislativas, em outubro. Devemos rever métodos para chegar com a nossa mensagem a esse público mais jovem”, comentou este responsável.

Na opinião do deputado José Cesário, também do PSD e atuante no círculo fora da Europa, a desinformação foi um dos grandes entraves na participação da comunidade portuguesa nestas eleições.

“Congratulo-me com o aumento global do número de votantes, que mais do que duplicou. É pena que o governo não tivesse criado mais mesas de voto ao contrário do que havia sido assumido aquando do debate das alterações às leis eleitorais e do recenseamento. Foi igualmente notória a falta de informação relativamente ao ato eleitoral e aos programas dos partidos e dos candidatos”, afirmou Cesário, que ressaltou que, diante da elevada abstenção, “é essencial repensar o modo de fazer campanha eleitoral nas comunidades tendo em conta a dispersão dos eleitores”.

José Cesário comemorou o resultado do seu partido no pleito eleitoral.

“Fiquei satisfeito por o PSD continuar a ser o partido mais votado junto às comunidades portuguesas no estrangeiro, apesar do grande número de partidos que concorreu nestas eleições”, sublinhou o deputado, que defendeu o uso do voto eletrónico.

“É essencial conhecer rapidamente os resultados da experiência de voto eletrónico, que teve lugar em Évora, de forma a podermos avaliar a sua eventual adoção em futuros atos eleitorais, tal como nós propusemos em 2017. É fundamental iniciar desde já um profundo trabalho de esclarecimento das pessoas de forma a garantirmos uma maior participação eleitoral nas eleições legislativas de 6 de outubro”, finalizou Cesário.

 

Participação na vida política portuguesa

Por sua vez, o presidente do Conselho Regional para América Central e América do Sul (CRACS) do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), António Davide Santos da Graça, confessou ter ficado dececionado com a grande abstenção nas eleições, já que “esperava que houvesse um maior número de votantes, tendo em vista os cadernos eleitorais, após o recenseamento automático”.

Este conselheiro criticou o facto de que muitos dos novos cidadãos portugueses não procuram se inteirar sobre a vida política portuguesa.

“É uma situação preocupante. Pensei que haveria maior participação. O governo precisa fazer uma melhor divulgação junto às comunidades portuguesas, nos postos consulares, enviar correspondências, tem que investir nisso. É preciso explicar a importância do voto para esse cidadão. O governo precisa mostrar a essas pessoas os seus direitos e deveres, falar sobre a vida política portuguesa. Vamos tentar reverter esse assunto”, mencionou António Davide, que fez questão de alertar que “as pessoas que não votam são as que mais reclamam” da política.

Segundo o Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro, foram contabilizados “mais votos do que era esperado”, mas é difícil saber se “as novas regras de recenseamento automático ajudaram nessa questão”.

“Já não foi mal conseguir mais de 400 votos”, admitiu fonte dos serviços consulares no Rio.

 

O que pensa a comunidade?

Alguns membros da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro deram a conhecer o impacto das eleições europeias no seu quotidiano.

Fernando Soares disse não ter ido votar no consulado “por não ter tido oportunidade”, contudo, reconheceu que “o voto é um dever cívico” e que é importante “para se eleger as pessoas que temos confiança”, mesmo que elas possam “virar as costas aos cidadãos depois da votação”.

Marcelo Fernandes afirmou ter acompanhado o processo eleitoral, mas não votou porque o seu “recenseamento está em Portugal”.

Já Alcídio Morgado reconheceu a necessidade de se votar nas eleições europeias, mas disse não ter o hábito de participar nesse pleito e que “apenas vota para a Assembleia da República”, muito em virtude da distância entre a sua residência e o local de voto.

“É preciso rever o número de locais para votação”, reforçou Morgado.

Sérgio Oliveira sublinhou que o facto de estar a trabalhar no fim de semana atrapalhou os seus planos de ir ao consulado fazer valer o seu voto.

Portugueses que vivem no Rio há muitos anos disseram que “sequer sabiam onde poderiam votar e que antigamente era mais fácil participar por meio das cédulas de voto que chegavam pelos correios”.

Por outro lado, muitos lusodescendentes defenderam que deve haver uma melhor comunicação sobre o que são as eleições europeias e o que elas significam para Portugal.

 

PSD conquista a maioria dos votos

No Brasil, após a contagem dos votos, os dez consulados portugueses existentes no país contabilizaram 2.782 votantes dos 220.660 inscritos. Somente 1,26% dos eleitores inscritos votaram.

De acordo com dados do PE, as eleições no Brasil foram vencidas pelo PPD/PSD com 38 por cento dos votos. Em segundo lugar o PS, com 24%, seguido do B.E, com 5%, e CDS-PP, também com 5%. Os votos em branco chegaram a 0,25%. Já os votos nulos foram calculados em 0,54%.

 

Resultados por consulado

O consulado-geral de Portugal no Rio contabilizou 440 votantes num universo de 62.567 eleitores inscritos, o que soma uma participação de apenas 0,70% votantes.

No caso de São Paulo, o consulado local registou 1.113 votantes num total de 124.435 inscritos. Apenas 0,89% votaram.

Pelo Brasil, o cenário repetiu-se, com algumas exceções. Acompanhe o número de votos por cidade:

Belém do Pará (723 votantes; 7.123 inscritos; 10,15% votantes), Belo Horizonte (67 votantes; 4.566 inscritos; 1,47% votantes), Brasília (151 votantes; 4.678 inscritos; 3,23% votantes), Curitiba (81 votantes; 8.547 inscritos; 0,95% votantes), Fortaleza (53 votantes; 1.288 inscritos; 4,11% votantes), Porto Alegre (46 votantes; 1.775 inscritos; 2,59% votantes), Recife (84 votantes; 3.410 inscritos; 2,46% votantes) e Salvador (24 votantes; 2.271 inscritos; 1,06% votantes).

 

Vitória socialista na capital

Apenas em Brasília o PS ultrapassou o PPD/PSD em número de votos. Na capital brasileira, o Partido Socialista obteve 42 votos contra 40 do PSD.

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