Brasil

Futuro Governo de Jair Bolsonaro conhecido a conta-gotas

Nas últimas semanas, os brasileiros conheceram os primeiros nomes indicados pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, para ocuparem alguns dos principais ministérios, a partir de janeiro de 2019. A ideia do futuro presidente é reduzir as 29 pastas existentes para 15 previstas, acção fruto de promessa de campanha.

Um dos primeiros nomes anunciados por Bolsonaro, ainda antes das eleições, foi o de Paulo Guedes, que assumirá o Ministério da Economia. Guedes é um economista respeitado no cenário internacional, é defensor do liberalismo, mestre pela Universidade de Chicago, nos EUA, e presidente do conselho de administração da empresa Bozano Investimentos. O futuro ministro é conhecido pela forte personalidade e por acreditar numa pauta específica para a economia brasileira. Nas últimas semanas, Guedes voltou a defender a polémica Reforma da Previdência Social proposta pelo actual presidente brasileiro, Michel Temer. O objectivo de Bolsonaro é que Paulo Guedes seja responsável pelo chamado superministério da Economia, que irá integrar as atribuições dos ministérios da Fazenda e do Planeamento e Indústria. Recentemente, Guedes foi investigado criminalmente pelo Ministério Público Federal por suspeita de gestão fraudulenta enquanto estava à frente de fundos de investimentos (FIPs) que receberam R$ 1 mil milhão, entre 2009 e 2013, de fundos de pensão ligados a empresas públicas. Os advogados do futuro ministro afirmaram à imprensa que a abertura da apuração tem como intuito confundir o eleitor. Até agora não há novidades sobre o caso.

A Casa Civil, órgão importante do Executivo Federal, irá contar com o nome de Onyx Lorenzoni, que é veterinário de formação e que exerceu o seu primeiro cargo político como deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, em 1995. Ficou na Assembleia Legislativa gaúcha de 1995 a 2003, ano em que foi eleito deputado federal. Seguiu na Câmara por quatro mandatos e, nestas eleições, elegeu-se mais uma vez, como segundo mais votado do Estado. Em 2016, foi relator do projecto que transforma as dez medidas contra corrupção, propostas pelo Ministério Público Federal, com amplo apoio popular, em lei. O futuro ministro chegou a ser citado em delação premiada por um executivo da empresa Odebrecht, na operação Lava-Jacto, como suposto destinatário de R$ 175 mil para a sua campanha eleitoral de 2006. A denúncia foi arquivada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelas mãos de Raquel Dodge, procuradora-geral da República, que justificou a medida afirmando que “as diligências realizadas não foram suficientes para comprovar o suposto crime”.

Por sua vez, o general Augusto Heleno foi indicado para o ministério da Defesa. Heleno é general de Exército da reserva, graduou-se em 1969 na Academia Militar das Agulhas Negras, localizada em Resende, no estado do Rio de Janeiro, e acumulou 45 anos de serviço até 2011. Durante esse período, chefiou as tropas brasileiras no Haiti e o comando militar da Amazônia. Enquanto estava na região Norte do Brasil, Heleno fez críticas à política voltada para os índios do governo de Luís Inácio Lula da Silva. Por actuar em área de fronteira, o general chegou a dizer que “considerava a reserva indígena contínua Raposa Serra do Sol, em Roraima, uma ameaça à soberania nacional”. O militar chegou a ser cogitado para assumir o posto de vice na chapa de Bolsonaro nas presidenciais deste ano, mas o nome de Hamilton Mourão, também general, ganhou força para o cargo.

Já o ministério da Ciência e Tecnologia será liderado por Marcos Pontes, que é tenente-coronel. Nascido em Bauru, no estado de São Paulo, no ano de 1963, Pontes é licenciado em engenharia pelo renomado Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e mestre em engenharia de sistemas pela Naval Postgraduate School, na California (EUA). Em 1998, foi selecionado para o programa da agência espacial norte-americana Nasa e, naquele mesmo ano, foi declarado oficialmente astronauta. No ano de 2006, após acordo de cooperação assinado pelo ex-presidente Lula com autoridades da Rússia, tornou-se no primeiro, e único, brasileiro a viajar para o espaço. A bordo da nave russa Soyuz TMA-8, Pontes foi à Estação Espacial Internacional e ficou por oito dias no laboratório espacial, onde realizou experimentos para a Agência Espacial Brasileira (AEB). Em 2014, candidatou-se a deputado federal por São Paulo, mas, apensar dos 43 mil votos obtidos, não conseguiu se eleger. Pontes tem defendido que a sua experiência na Nasa pode ser algo positivo para o governo brasileiro.

Mas o nome que mais movimentou o cenário político no Brasil foi a indicação do juiz Sérgio Moro para ministro da Justiça. Moro era até há poucos dias responsável pela Operação Lava-Jacto. O seu ministério ficará responsável também pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controlo de Actividades Financeiras (Coaf). Em reunião com Bolsonaro, Moro aceitou o convite para assumir a pasta, defendendo que está motivado pela perspectiva de poder actuar fortemente numa agenda anticorrupção e anticrime organizado. De imediato, Moro afastou-se do judiciário e não mais julgará Lula e outros processo ligados à mais famosa operação da Polícia Federal.

Jair Bolsonaro anunciou outro nome para integrar o seu governo. A deputada federal Tereza Cristina será ministra da Agricultura. Ela é a actual presidente da Frente Parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional, conhecida como a bancada ruralista, e foi indicada por essa mesma Frente para o cargo. Tereza Cristina é engenheira agrónoma e empresária.

Nas próximas semanas, serão apresentados novos nomes que irão compor os restantes ministérios previstos pelo presidente eleito. A pasta que mais curiosidade suscita por conta da população e de outros organismos é a da Educação. Para essa área, Bolsonaro deixou claro que procura alguém capaz de mudar “os currículos escolares para que os estudantes aprendam química, matemática, português e não sexo”. A junção de outros ministérios ainda está em estudo pela equipa de assessores do futuro presidente.

 

Especialista opina sobre escolhas

Na opinião de Alberto Carlos Almeida, cientista político, sociólogo, pesquisador e sócio da empresa de consultoria Brasilis, até o momento, o melhor nome indicado por Bolsonaro para um ministério foi o de Sérgio Moro, o que confere uma “espécie de alibi” para o governo, afastando a possibilidade de casos de corrupção.

“A escolha de Moro sinaliza para o eleitorado central de Bolsonaro, que é de classe-média, de cidades mais brancas, mais ricas, que são antipetistas e que aprovam muito o trabalho Sérgio Moro, então, isso pode dar a Bolsonaro uma lua-de-mel junto à opinião pública por um período mais longo. Para mim, essa foi a melhor escolha do futuro presidente”, sublinhou Almeida.

Por outro lado, esse especialista criticou a indicação de Tereza Cristina para o ministério da Agricultura. Segundo ele, Cristina não é “do ramo e vai ter muita resistência”.

“O desempenho dela na Câmara dos Deputados é muito discreto. Ela trabalhou muito na Comissão que diz respeito aos assuntos da mulher, do gênero e não na Comissão de agronegócio”, avaliou Almeida.

Sobre Paulo Guedes, Alberto Almeida defendeu que a escolha desse nome para a pasta da Economia deveria ter sido melhor avaliada.

“Paulo Guedes não é, no meu entender, o melhor ministro da Economia. O melhor seria ter um político que soubesse lidar com a área, com Paulo Guedes embaixo e com outros técnicos embaixo dele, que soubessem lidar com a Câmara dos Deputados e com o Senado. Tenho as minhas dúvidas em relação ao Paulo Guedes, que é uma sinalização boa para o mercado, mas é uma sinalização péssima para política. Para ele aprovar o que precisa ser aprovado depende mais da política do que de qualquer outra coisa”, comentou Almeida, que sugeriu ainda que Bolsonaro terá cerca de seis meses para aprovar os seus principais projectos, período no qual, segundo esse responsável, “todo novo governo é forte”.

 

Mudança de comportamento

“Qual é a psicologia do Presidente da República? Isso é importantíssimo tentarmos perceber”, indagou Almeida em relação ao facto de Bolsonaro estar a apresentar uma personalidade mais permissiva nos últimos dias. Esse sociólogo cogitou que Bolsonaro está a mostrar uma certa “insegurança”, já que tem mantido atitudes diferentes da sua personalidade, como nomear uma mulher para a sua equipa de transição governamental quando todos condenavam a ausência de pessoas do sexo feminino no seu governo ou, por exemplo, quando disse que iria consultar o ministro do STF,  Dias Toffoli, antes de tomar medidas governamentais.

“Não sei o quanto isso vai durar. Mas esse é um sinal para mim inesperado. Fiquei surpreso com tudo isso, então vamos aguardar o que virá e se ele vai se manter assim. Ou se ele vai ser aquela figura insubordinada, com opiniões fortes como sempre foi. Talvez ele tenha começado a notar que a coisa é mais complicada, que é mais difícil do que imaginava administrar o País. Os auxiliares dele têm falado muita coisa errada”, contestou Alberto Almeida, que acredita que a inciativa de Bolsonaro de enxugar ministérios é uma acção de “marketing”, já que essa medida não gera, na sua visão, economias.

Alberto Almeida reforçou também que é necessário que Bolsonaro tenha cuidado para não promover uma “instabilidade política” e “uma dificuldade em aprovar o que precisa ser aprovado na Câmara e no Senado” como fruto dessas acções de redução de ministério e de cargos. Para esse pesquisador, o futuro presidente terá grandes desafios para atender às demandas da população, ainda mais num cenário em que não existe verba disponível para investimentos.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo