Brasil | Entrevista

Iniciativa FA.VELA vence o Desafio da Pandemia através da aposta na “Inclusão Digital”

A empatia é sempre necessária para pensar numa alternativa que funcione. Hoje, não temos dúvidas em afirmar-nos como uma organização de maioria feminina, negra, transexual…

 

O FA.VELA, criado em 2014, com sede em Belo Horizonte, funciona como aceleradora de negócios numa cultura empreendedora periférica. A partir deste mote foram criados mais de 260 projetos de impacto impulsionados e liderados por cerca de 500 empreendedores.

Durante o período de confinamento, através de vários questionários realizados a antigos empreendedores sociais, houve vontade de crescer nas áreas digitais, como um dos caminhos para ultrapassar a crise gerada pelo novo coronavirus. E, se algum bem a pandemia trouxe, nas palavras de Tatiana Silva [cofundadora e Diretora Executiva do Projeto FA.VELA] em conversa com o e-global.pt, “ foi a capacidade das pessoas se reinventarem” e “se moldarem aos novos tempos”, mesmo quando “ao nível das infra-estruturas tecnológicas ainda há muito trabalho a ser feito.”

O lema do projeto FA.VELA passa agora pela capacitação de novos públicos fora da Região Metropolitana de Belo Horizonte no contexto de transformação digital inclusiva, já que a pandemia acelera todos os processos “sem deixar ningém para trás”.

 

Tatiana, como é que o FA.VELA tem superado estes momentos de crise?

O FA.VELA é uma organização que trabalha com formação, aprendizagem e educação inclusiva para o desenvolvimento de habilidades empreendedoras e de liderança, com públicos historicamente marginalizadas. Este contexto de pandemia trouxe a necessidade de forçar a transição para o digital de uma forma mais intensa, tanto para nós [FA.VELA] quanto para o nosso público–alvo.

 

E como é que a vossa atividade de se tem alterado neste contexto de pandemia?

O FA.VELA trabalha com público jovem, menos jovem e até idoso, com vários cursos e formações presenciais, é formado por uma equipa de 16 pessoas fixas e mais ou menos 44 pessoas temporárias, que são contratadas para projetos específicos, com sede em Belo Horizonte, a 3.ª região metropolitana do Brasil.  Em março, toda a gente começou a trabalhar a partir de casa, devido às medidas de confinamento e, nesse momento, começou a pensar-se na forma de reinventar os nossos projetos e de uma certa forma, achei interessante os desafios que esta pandemia trouxe tanto para o FA.VELA, enquanto organização periférica, como para o conjunto de empreendedores sociais.

O FA.VELA atua junto de pessoas nascidas, criadas, ou a viver em favelas e o termos de ficar a trabalhar em casa durante o confinamento trouxe o desafio que o nível de urbanização dos nossos territórios impõe; o ter acesso a infra estruturas de qualidade, que permitam trabalhar a partir de casa com internet de qualidade, até porque estamos espalhados por uma grande área metropolitana, o facto de a maioria das pessoas só conseguir aceder à internet a partir do telemóvel, em alguns casos, sobrecarregados já com a telescola, e aí houve a necessidade de ser mais flexível em relação aos horários,  até a problemas de logística. Pois, por vezes, os serviços de entrega têm dificuldades em entrar nos territórios e quando se precisava de encomendar algum material ou se tinha algo para entregar, alguém tinha de ficar plantão na sede.

 

E em relação ao vosso público-alvo, os desafios foram semelhantes?

Em relação ao nosso público-alvo, o FA.VELA lançou um questionário, um mês depois das medidas de confinamento terem sido adotadas, para saber que desafios enfrentavam nossos empreendedores e, nessa altura, percebemos que 65% dos inquiridos admitia que não tinha condições para aguentar por muito mais tempo as medidas de confinamento, 71%  já se tinham candidatado ao auxílio de emergência de três meses dado pelo governo federal, porque já sentiam o impacto da pandemia, quer por perda de rendimentos ou situação de desemprego, enquanto quase 40% reportou também preocupação com a sua saúde mental, com sintomas de depressão, ansiedade, preocupação em relação ao futuro…  mas cerca de 50% demonstrou interesse em desenvolver capacidades de capacitação para poderem navegar melhor neste cenário de pandemia.

 

Então foi nessa perspectiva que cresceu a vontade de capacitar as pessoas para o mundo digital, para ter acesso a novas profissões?

Sim, nós começámos a pensar nessa franja de pessoas que estão à frente de algum negócio, algum pequeno empreendimento, mas que tenham, acima de tudo, essas limitações de conetividade, dificuldade em entrar numa economia mais digital, que a pandemia fez surgir de forma ainda mais rápida. Aí começou-se a trabalhar muito com o conceito de transformação digital inclusiva. Houve uma redefinição de muitas das nossas actividades, como, por exemplo, o Favela-Escola, que era um programa de formação contínua, única e exclusivamente para a nossa comunidade de empreendedores que já tivessem participado em algum curso ou formação, que contemplava assessoria, actividades em grupo, oficinas e aí  começou a pensar-se de que forma é que um formação de 3, 4 meses poderia ultrapassar todos estes desafios, que não pode!

Então, o Favela-Escola começou a funcionar através de acompanhamento contínuo, numa frequência semanal, desde aulas online, salas de aula virtuais, que não fosse só para a nossa comunidade de empreendedores.

 

E isso também fez com que o vosso projeto chegasse mais longe?

Sim, com tudo isto, hoje nós temos inscritos que vêm de 8 estados do Brasil, que estão na sala de aula virtual, numa rotina semanal de criação de conteúdos que focam muito esse apoio à transformação digital inclusiva, numa exploração contínua deste mundo.

 

Tem notado ao longo destes dias que as pessoas começam a desistir dos seus negócios por falta de capacidade para lidar com esta crise?

Geralmente, o perfil de empreendedor assenta em alguma capacidade de lucro em torno das habilidades que a pessoa já possui. Por exemplo, se eu cozinho muito bem, vou procurar vender alguma coisa, ou se comunico muito bem, vou começar a vender algum produto, ou se sou um bom artista, ou artesão… então, vai muito nesse sentido, de desenvolver as próprias habilidades que a pessoa já tem.  Agora, observa-se que algumas áreas têm mais oportunidades em operar  neste período que vivemos, como aquelas que estão mais ligadas à alimentação, gastronomia,  do que outras, como as áreas da cultura, áreas artísticas e essas precisam de apoio, porque é muito complicado, agora, nesta altura, terem de se reinventar…

 

Capacitar é a palavra que está no ponto de ordem do vosso trabalho. Como é que se vai recolhendo um apoio financeiro substancial para isso?

Quando o projeto começou, em 2014, foi muito como um coletivo. Pessoas com curso superior pensaram em trazer algum retorno aos seus pares, aos seus territórios. No começo era só para ser algo que se fizesse ao fim de semana ou ao final do dia, mas esta demanda por formação empreendedora era muito forte e as inscrições foram aumentando. Quase 80% das pessoas que se inscreveram já se definiam como empreendedores, microempresários, freelancers, mas, menos 20% das pessoas já tinham alguma ideia de negócio, nunca tinham tido formação…  então a partir daí começou a apostar-se na profissionalização  através da captação de recursos, procurou-se submeter projectos internacionais e nacionais, acordos com embaixadas de alguns governos, prestação de serviços  e dentro deste know-how que se foi alcançando, faz-se assessoria a vários parceiros, que é a principal fonte de recurso, neste momento.

 

Qualquer um de nós pode ser um empreendedor?

Não, eu diria que não! Mas essa é a minha opinião pessoal. Ao longo destes anos eu tenho visto duas realidades; uma coisa é o empreender por necessidade, que é algo que caracteriza pessoas em grande vulnerabilidade, não é uma escolha, é mesmo necessidade. Recentemente, fui uma das oradoras de um fórum mundial de empreendimentos sociais e surgiu uma pergunta interessante acerca de pessoas em situação de rua, Homeless people, e se estas poderiam também iniciar um processo de negócio? A resposta é a mesma, se a pessoa está num grau de vulnerabilidade muito alto, se a pessoa não tem uma rede apoio, como é que se vai colocar no indivíduo essa pressão? Esse discurso meritocrático do “quem quer faz” …

 

Confirma-se que as mulheres são, por vocação, mais empreendedoras?

Desde o nosso primeiro projeto, em 2015, até hoje, as mulheres são a maioria do nosso público-alvo, entre 70 a 80%. Nós temos as nossas teorias para explicar esses números,  por vezes, são mães que querem outras oportunidade de trabalho, mulheres que buscam outras fontes de rendimento, emancipação, mas, a verdade é que as mulheres vêm com aquela sede de conhecimento… é impressionante.

 

Impressionante também tem sido o vosso apoio ao movimento transexual, tendo em conta a discriminação que sofre, como é que surgiu?

Nós brincamos um pouco no FA.VELA quando dizemos que somos o público-alvo das nossas ações, de certo modo, nós acreditamos que o sucesso das nossas atividades vem muito no sentido de ser o palco de pessoas que já vivenciaram  desafios e encontraram soluções. A empatia é sempre necessária para pensar numa alternativa que funcione. Hoje, não temos dúvidas em afirmar-nos como uma organização de maioria feminina negra, transexual… desde sempre houve a necessidade de olhar para estes grupos e começamos a desenvolver formações específicas para transexuais, por exemplo. O ACÓDE veio muito no sentido de dar algum apoio aos grupos de maior vulnerabilidade, tanto mulheres como homens. Pois, nas caixinhas da vulnerabilidade questões como a transexualidade geram muitos constrangimento e até muitas dificuldades na obtenção de benefícios sociais.

 

Como é que a organização pode crescer ainda mais?

Ao mesmo tempo que a pandemia trouxe uma situação muito atípica, o FA.VELA está também a crescer muito e esse crescimento passa pela transformação digital dos nossos projetos e isso faz com que nós encontremos outras estratégias, no sentido de  permitir a replicação de parcerias estratégias que permitem levar as nossas ferramentas o mais longe possível, mas com o mesmo carinho e dedicação de sempre.

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