Brasil

Integrante de rancho folclórico português em São Paulo conta como é viver na China em plena pandemia

Rodrigo Moura tem 32 anos, há cerca de 18 participa nas atividades da comunidade portuguesa no estado de São Paulo, de onde é natural. É licenciado em Relações Internacionais e Administração e é pós-graduado em Direito Internacional, além de ter concluído MBA em Negócios Internacionais. Profissionalmente, atuou como representante comercial de algumas empresas brasileiras e como consultor para assuntos da América Latina. Mais recentemente, trabalhou no Consulado-Geral de Portugal em São Paulo e no Memorial do Imigrante, nessa mesma cidade. Hoje, é diretor de Relações Internacionais do Instituto IBRACHINA, com sede em São Paulo, que se destaque por fortalecer a integração entre os povos do Brasil e da China. Moura mantém ligações familiares com Portugal. “A minha ligação com Portugal é sanguínea, tenho raízes do lado do meu pai no Alentejo e, da minha mãe, no Norte de Portugal e Nordeste do Brasil”.

E é nessa tríade entre Portugal, Brasil e China que a história desse responsável ganha destaque. Há poucos meses, Rodrigo Moura mudou-se para a China com a sua família para começar uma nova “aventura” num contexto cultural e social diferente do que está acostumado no Ocidente. Já em solo chinês, Moura, que vislumbrava começar uma vida “normal”, viu-se obrigado a adiar alguns planos em virtude do início dos problemas de saúde pública causados pelo coronavírus. Essa situação fez com que mudasse de cidade dentro desse próprio país para minimizar a possibilidade de contágio. Hoje, Moura e a sua família estão em segurança e com saúde, mas assistiram de perto à drástica mudança no cotidiano local, antes mesmo de o resto do mundo sentir os efeitos da pandemia que paralisou países inteiros em todos os continentes.

Em entrevista à e-Global, Rodrigo Moura falou sobre os caminhos que o levaram à China, contou como viveu o início da pandemia de covid-19, ressaltou o dia a dia nesse país oriental, sublinhou as diferenças culturais entre Brasil, Portugal e China, reiterou a crise económica e os cuidados com a saúde e recordou a sua terra natal e o envolvimento com a cultura lusitana em São Paulo.

 

Como é viver na China essa questão da pandemia?

Inicialmente, na primeira semana de janeiro, foi muito difícil, pois não tínhamos informações precisas e quase ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo. As pessoas começaram a ficar muito preocupadas e algumas chegaram ao desespero, vide os brasileiros que imploraram por um ajuda do governo brasileiro para voltar ao Brasil. O que se ouvia à época eram murmúrios, notícias esparsas, nada muito certo. Mas, logo na segunda quinzena de janeiro, o governo central assumiu o controlo da situação e as notícias começaram a ser mais claras, tanto em relação ao que se deveria fazer como sobre o que estava acontecendo. Então, a partir desse momento, as pessoas acataram de imediato os pedidos do governo. Houve pouquíssimos que foram contra as medidas tomadas e, desde 23 de janeiro de 2020, a maioria se trancou em casa e saía apenas por necessidade, como ir ao mercado ou ao banco. O trabalho passou a ser remoto, nada presencial. Acontece que o governo passou a administrar as questões da pandemia, dia a dia, então, passou a ser necessário se atualizar sempre para saber o que estava acontecendo. Isso alterou muito o cotidiano de todo mundo, o da minha casa, por exemplo, mudou totalmente, deixamos de ir ao trabalho para ficar em casa e passamos a adotar alguns protocolos para manter a ordem e a segurança.

Como encara essa situação e como o seu cotidiano mudou?

Vivemos um momento extremo, onde precisei avaliar o que era necessário para manter a minha família e como os manter seguros. É momento de ser realista, de tomar ações bem pesadas e sempre baseadas em princípios. Uma das medidas que tomamos foi a de nos afastar dos meus sogros, já que são idosos e temos a avó que tem 90 anos de idade. Buscamos também dividir o pouco que temos com os parentes e vizinhos que precisaram de ajuda.

Que tipo de prevenção tem em relação ao vírus?

O uso da máscara ao sair de casa, lavar sempre as mãos e temos roupas para sair à rua, que são trocadas assim que chegamos em casa.

Como está o clima neste momento na China?

Vou falar dos dois climas, o primeiro, relativo à atmosfera: aqui agora é primavera, os dias são quentes, com 23 graus, e as noites frias, com mais ou menos 15 graus. Mesmo assim, o vírus teve como se espalhar. E tem o clima, no sentido de ânimo do povo, esse é um ponto muito relevante, pois o governo conseguiu controlar a situação e mostrar ao povo que eles estão numa situação mais segura do que os outros países do mundo. Além disso, devido aos ataques xenófobos que os chineses sofreram em várias partes, isso acabou por relembrá-los de períodos como a guerra e a invasão que os fizeram sofrer muito, o que levou ao entendimento de maior união. Por fim, o resultado foi mais positivo para o governo chinês, pois trouxe mais confiança no governo e união da nação, isso eu falo em termos gerais, claro que temos opiniões diferentes, mas isso foi o que eu vi e ouvi. Ademais, hoje o que se discute é a questão da retomada, dado que o país teve uma queda económica considerável que refletiu na vida de todos. A empresa onde a minha esposa trabalhava faliu e a academia ao lado de casa, onde eu treinava, faliu também. Há sinais dessa queda económica por todo lado.

Como avalia o potencial negativo emocional dessa pandemia no mundo?

Ao meu ver, essa pandemia trouxe muita coisa à tona, e também muitos sentimentos ruins, inicialmente, isso tem sim um caráter negativo que pode levar a mais segregacionismos, mas também vejo uma parte que pode ser positiva que é a de escancarar o que estava errado e ninguém se dava conta. Por exemplo, a incapacidade e falta de cuidado de muitos governantes, a gente viu e vê uma profunda falta de respeito com os trabalhadores, os idosos, os estudantes e os profissionais da saúde em várias partes do mundo. Agora, existem pessoas que vão aos media e falam que é válido morrer pessoas para salvar empresas. Esse pensamento já existia antes, disfarçado, mas agora está posto na praça. Vimos também, em particular no Brasil, que erros do passado estão nos prejudicando hoje, preferiu-se estádios à hospitais, hoje, o que temos para atender a população, é uma cabana no meio do relvado onde, se acontecer uma chuva com vendaval, o que é normal em São Paulo, acontecerá o que ao doente e ao médico?

As fake news na China também prejudicam o entendimento da situação e da gravidade da pandemia?

Na China existe censura, portanto, um controlo maior dos media. Existe aqui uma comunicação direta do governo com os cidadãos, então, é possível fazer a avaliação do que é oficial e o que não é oficial. A dificuldade maior das fake news está nos países dos media “livres”, nesses países não existe legislação que responsabilize a “tiazinha” do WhatsApp, por exemplo. Vemos também que aqui existe uma comunicação oficial uníssona. No Brasil, é complicado, temos a comunicação oficial e a não oficial do presidente, do ministro, do governador e do prefeito e cada uma num sentido diferente. Aí fica confuso. Além disso, tem as fake news que disseminam mentiras absurdas que muita gente acredita. No Brasil, acharam a cura desde fevereiro. Dizem que tem até vacinas escondidas. Pessoas me mandavam mensagem falando para eu não comer cachorro como se isso fosse uma opção no mercado. Tudo isso prejudica, e muito, a situação. A mentira tomou conta e hoje, no Brasil, é muito difícil saber o que é real e o que não é.

Atualmente, quando sai às ruas ou olha pela janela de casa, o que vê? Que país é hoje a China?

De casa vejo muito verde, muitas árvores e muitos pássaros. A política ambiental aqui na China caminhou a largos passos, e eu vi isso em várias cidades de Norte a Sul, desde aldeias às grandes metrópoles. Quando saio de casa, vejo um país em construção, em reformas e com muita atividade. Baseado no que eu vivi aqui e aprendi, a China é um país gigante, com muita diversidade, tanto étnica, com as suas 56 etnias, como ideológica, porque, embora tenha um partido único, existe aqui uma gama enorme de visões de mundo, existem os que defendem a democracia, os que querem a volta ao socialismo pré-1978, os maoístas, os neoliberais, os humanistas, os novos confucionistas, os que são a favor do mercado, os burocratas e etc., então, não é uma sociedade como eu costumo ver nos media ocidentais: monolítica, comunista e uniforme. Primeiro, é preciso entender esse comunismo que se dá aqui não é aquele de Marx, Lenin ou Engels, é diferente. Uma das bases da boa negociação é conhecer o seu parceiro/cliente de negócios e são poucas as pesquisas feitas sobre o que se passa aqui. Brasil e Portugal sabem pouquíssimo sobre um dos seus maiores parceiros comerciais. Então, a China também é um mistério. Agora, vejam, se em Portugal, com os seus dez milhões de habitantes, há imensa diversidade, imaginem na China?

Como e quando foi viver na China?

Viver na China já estava nos meus planos, mas aconteceu bem mais rápido do que eu esperava. Portanto, foi uma soma de factores, sendo os mais significativos a busca por mais segurança e por maiores possibilidades de melhoria na minha carreira profissional e académica. Assim, em novembro de 2019, eu e a minha família nos mudamos para a China. Inicialmente, fomos viver em Cantão (a mais de 2.000 km de Pequim), mas, devido à pandemia do coronavírus, optamos por nos mudar para o interior do país. Hoje, moramos em Hefei (a cerca de 1.000 km de Pequim), capital da província de Anhui. Mas, felizmente, já tivemos a oportunidade de passear e trabalhar por diversas cidades, como Pequim, Xangai, Macau, Hong Kong, Xian, Suzhou, Hangzhou e Taihe.

Vive com a sua família?

Sim, moramos eu, a minha esposa e o meu filho.

Como enxerga a cultura chinesa?

A cultura chinesa, ao meu ver, é interessante, pois traz uma nova forma de ver o mundo, muito diferente da nossa órbita “romano-cristã”. É uma cultura antiga, que tem cinco mil anos de história, rica, dado que tem muita diversidade, e flexível, pois vem combinando muito bem aspetos da antiguidade com as demandas da atualidade. Lógico que, como todas as culturas do mundo, está em processo de criação, revisão e afirmação a cada dia.

Quais as principais diferenças de vida entre Brasil e China?

As principais se referem à segurança. Na China, tem muito mais. Relacionamentos, no Brasil, num dia você vira amigo, na China, isso é uma construção que leva tempo. Negociação na China é uma mistura de estratégia, relacionamento e capacidade de visão de longo prazo, no Brasil, é mais focado na segurança jurídica e, na maioria das vezes, voltado para o curto prazo. E, por fim, educação, eu vejo que a participação da família na China é muito maior, um dos pais tem de ir à escola semanalmente participar nas atividades e, qualquer ausência do filho, recai sobre os pais. Tem outras diferenças importantes, mas também há semelhanças.

Tem contato na China com portugueses ou brasileiros?

Tenho com ambos, portugueses e brasileiros, agora, devido à pandemia, só nós falamos por “wechat”. Com os brasileiros eu falo todos os dias e, normalmente, abordamos a situação no Brasil e sobre o profundo desconhecimento do que é a China. Com os portugueses eu converso sobre a situação em Portugal e, agora, temos falado mais sobre comida, como aqui não tem queijo, não tem alheira e os pães são diferentes, às vezes, eu preciso de ajuda sobre como fazer isso em casa. Também como cristãos, brasileiros e portugueses, todos nos reunimos para orar e prestar culto a Deus.

De onde é natural no Brasil e onde vive a sua família?

Sou de São Paulo, a minha família também, a maioria é radicada na Freguesia do Ó, São Paulo, capital.

De que forma participa nas atividades da comunidade luso-brasileira em São Paulo?

Eu tive a oportunidade de trabalhar no Consulado-Geral de Portugal (São Paulo) e no Memorial do Imigrante, onde ajudei a montar uma exposição chamada “Os novos Descobridores”. Participei num concurso internacional de tradução chinês-português, onde pude traduzir contos chineses para o português, e participo no Grupo Folclórico Raízes de Portugal (da Casa dos Poveiros de São Paulo) há cerca de 18 anos.

Tem saudades da sua vida em São Paulo e das apresentações com o rancho folclórico?

Muitas, imensas saudades! São Paulo e o rancho são parte da minha história, do que eu sou e da minha cultura. Então, eu trago comigo um pouco do meu estado e também do meu rancho do coração.

Por fim, que mensagem deixa para a comunidade luso-brasileira?

Que não venhamos a ter uma alma pequena, que sejamos honestos, que pratiquemos o bem e que tenhamos coragem e bom senso para enfrentar essa situação. Vale citar o grande padre António Vieira: “A boa educação é moeda de ouro. Em toda a parte tem valor”.

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