Brasil

Liderança, facilidade de comunicação e veia diplomática motivaram indicação de militar brasileiro para atuar no Exército Sul dos EUA

No próximo mês de maio, o general brasileiro de Brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior vai assumir, de forma inédita no caso do Brasil, o subcomando de Interoperabilidade do Exército Sul dos Estados Unidos. A ideia dos governos brasileiro e norte-americano é promover uma maior ligação no que toca às ações de segurança na América Latina.

Nessa nova missão, o general Faria Júnior vai atuar na integração de esforços entre as forças brasileiras, e as de outros países da região, às forças dos EUA em caso de “calamidades naturais ou crises humanitárias”. Em solo norte-americano, o general estará sujeito às ordens do comandante do Army South (Exército Sul), general Mark Stammer, e do comandante da componente terrestre do Comando Sul (SouthCom), Almirante Faller.

Em declarações à imprensa, o comandante do Exército do Brasil, general Edson Leal Pujol, explicou que “a missão do general Alcides será atuar como ligação entre o Brasil e o Comando Sul e que ele será um assessor do comando e estará subordinado às autoridades norte-americanas, da mesma forma como um oficial de outro país que participasse de um comando conjunto no Brasil ficaria subordinado às nossas Forças Armadas”.

Ainda de acordo Pujol, “entre as atribuições do general Faria Júnior estará apoiar os esforços das unidades militares brasileiras e dos EUA no sentido de desenvolver uma visão multinacional para responder às necessidades de assistência humanitária e facilitar o desenvolvimento e o aprimoramento das ações para melhorar a interoperabilidade entre os Estados Unidos e as nações amigas, em apoio à missão e às linhas de esforços do Exército Sul dos Estados Unidos”.

 

Local renomado

O Comando Sul, que está localizado em Fort Sam Houston, Texas, é um dos polos militares mais importantes para o governo norte-americano, justamente por ter como principal tarefa “levar para os países da América Central, do Sul e do Caribe a atual política de segurança dos EUA”. O Comando Sul é também responsável por garantir a defesa do Canal do Panamá.

O local conta com mais de 1,2 mil militares e civis do Exército, Marinha, Força Aérea, Fuzileiros Navais e Guarda Costeira norte-americana, além de agentes federais dos Estados Unidos e de outros países.

 

Oposição contrária

Informações de fontes ligadas ao Ministério da Defesa do Brasil, em Brasília, dão conta de que o facto de o general ter sido indicado para atuar nos EUA não tem ligação com possíveis “pagamentos de favores entre os dois países”.

Essa mesma fonte comentou que, apesar de muito se especular sobre a possibilidade de que essa atitude possa vir a “facilitar uma possível intervenção militar na Venezuela, a alta cadeia de comando do Brasil não tem esse cenário em mente e que não é novidade haver comandantes estrangeiros nessa base dos EUA”.

E é justamente nesse ponto que a oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro aposta as suas críticas, já que, segundo deputados e ex-ministros de governos anteriores, “o Brasil está a ser posto numa posição de subordinação aos EUA, como forma de apoiar uma intervenção militar no país liderado por Nicolás Maduro, além de se sujeitar a outros temas de viés comercial e diplomático”.

 

Aproximação militar com os EUA

Brasil e EUA dão sinais claros de grande aproximação em vários campos, dias depois da visita oficial de Bolsonaro àquele país. Na última semana, por exemplo, decorreu a 3ª edição do Diálogo das Indústrias de Defesa Brasil e Estados Unidos na Escola de Guerra Naval (EGN), no Rio de Janeiro, na presença de cerca de 200 participantes, que discutiram temas como o andamento de acordos que estão em desenvolvimento pelos dois países, além de identificar oportunidades comerciais.

“Eu creio ser de extrema importância que os nossos países estejam cada vez mais sintonizados em cooperação em matérias de Defesa. Mais especificamente no fomento ao desenvolvimento de nossas bases científicas, tecnológicas e industriais de Defesa, ressaltou o secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa do Brasil, Marcos Degrau, durante o evento.

No final do último mês de março, o Ministro da Defesa do Brasil, Fernando Azevedo, esteve em viagem oficial aos Estados Unidos, passando por Washington e Nova York. A agenda de compromissos privilegiou o estreitamento do relacionamento militar entre o Brasil e os norte-americanos em áreas como a diplomacia de defesa.

Fernando Azevedo participou também na Conferência de Ministros da Defesa na Organização das Nações Unidas (ONU). O ministro aproveitou a oportunidade para anunciar que uma equipa especializada de treinamento em ambiente de selva será enviada à Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO).

No âmbito desse mesmo evento, o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, entregou o prémio de Defensora Militar do Género da ONU a Capitão brasileira de Corveta Márcia Andrade Braga.

 

Perfil “aprovado”

A e-Global conversou com atuais e antigos subordinados do general Alcides Faria Júnior. De acordo com essas fontes, “ele é respeitado pelos militares brasileiros, e de outros países que fazem fronteira com o Brasil, e goza de prestígio na cadeia de comando do Exército brasileiro”, o que pode ter facilitado a sua indicação ao posto.

Atualmente, Faria Júnior, que tem 52 anos, é comandante da 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (também conhecida como Brigada General Tertuliano de Albuquerque Potiguara), que se destaca por ser uma das Brigadas do Exército Brasileiro e cuja sede localiza-se em Ponta Grossa, no estado do Paraná. A unidade é subordinada à 5ª Divisão de Exército, com sede em Curitiba, no mesmo estado.

Em atuação, Alcides Faria Júnior “mostra ter domínio das técnicas de defesa, de comando e também conta com um grande senso diplomático”. É reconhecido pelos seus pares como proficiente em “Liderança de Equipas, Planeamento Estratégico e Facilidade de Comunicação”.

Em experiências passadas, esse general brasileiro atuou como Chefe de Divisão de Relações com os Media do Centro de Comunicação Social do Exército (CComsex) e na Diretoria de Materiais de Aviação do Exército. Foi ainda Comandante do Centro de Instrução de Aviação do Exército e Instrutor da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, além de ter estado em missão na Guiné-Bissau, pela ONU.

Na parte da sua formação, estudou na Academia Nacional de Estudios Políticos y Estratégicos, do Chile, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército do Brasil e na Academia Militar das Agulhas Negras.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo