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No Rio de Janeiro, pandemia “desafia” economia e trabalho das casas regionais portuguesas

O Estado do Rio de Janeiro conta com mais de 14 mil casos confirmados de pessoas infetadas com o covid-19. Números oficiais mostram que já morreram da doença mais de 1.390 pessoas e que cerca de nove mil doentes já se recuperaram. Somente no município do Rio de Janeiro existem mais de nove mil casos confirmados. O número de óbitos aproxima-se de mil. Esses números estão a exigir medidas urgentes no Estado e na sua capital.

O governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que foi testado positivo para covid-19, decidiu aumentar a fiscalização para punir quem descumpre o isolamento social. Para isso, a Polícia Militar vai fechar estabelecimentos comerciais que não estiverem a cumprir as determinações de isolamento.

“Os que não estão autorizados a funcionar, por não serem prestadores de serviços essenciais, serão fechados e também multados por descumprimento de regras sanitárias. Além disso, as pessoas que forem flagradas em aglomerações serão levadas para as esquadras policiais e serão autuadas pelo crime de desobediência e responsabilizadas por seus atos. Estamos intensificando essas medidas para impedir que a população se contamine e tenhamos mais pessoas indo para os hospitais públicos e privados, que estão no seu limite de atendimento neste momento”, disse Witzel, que realçou que “a decisão foi tomada devido ao aumento da população nas ruas” em plena quarentena.

Dados do governo estadual mostram que 60% da população está nas ruas, o que pode elevar mais rapidamente a disseminação do vírus. A orientação, neste momento, é que “as pessoas só saiam de casa para serviços essenciais, como compras de alimentos ou ir ao médico”.

As medidas de prevenção e enfrentamento à propagação do novo coronavírus no Estado do Rio de Janeiro foram prorrogadas até dia 11 de maio. Assim, permanecem fechadas escolas públicas e privadas, creches e instituições de ensino superior e, ainda, continuam suspensas a realização de eventos desportivos, culturais, concertos, feiras científicas, entre outros, em local aberto ou fechado. Também segue suspenso o funcionamento de cinemas, teatros e afins. Ginásios, centros de lazer e desportivos e centros comerciais também devem permanecer fechados. A recomendação é que a população fluminense não frequente praias, lagoas, rios, piscinas públicas e clubes. Somente serviços essenciais, como supermercados, talhos, padarias, farmácias e lojas de conveniência, devem permanecer funcionando, porém, devem seguir com todas as medidas de segurança para evitar aglomerações, além do cumprimento do distanciamento entre as pessoas.

Por sua vez, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, anunciou que iniciará um “Lockdown” parcial, ou bloqueio, na Zona Oeste da cidade, região onde há os maiores registos de aglomeração de pessoas. A medida surge num momento em que a população, que está constantemente a ser conscientizada do perigo de contágio, não tem reagido às recomendações das autoridades.

Outra medida adotada por Crivella foi a obrigatoriedade do uso de máscaras para quem precisa ir às ruas da cidade. Para ajudar na adesão e cumprimento dessa ordem, o município distribuiu mais de 78 mil máscaras descartáveis, feitas em material reciclável, das cerca de 2.850 milhões que estão a ser compradas, produzidas e doadas por empresas parceiras.

As aglomerações na cidade estão a ser acompanhadas e combatidas pela Secretaria Municipal de Ordem Pública, que recebe denúncias anónimas através de um serviço telefónico chamado “Disk Aglomeração”. Dentre os bairros mais demandados, estão Campo Grande, Realengo, Santa Cruz, Taquara, Centro, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Tijuca, locais que contam com um grande número de cidadãos portugueses e lusodescendentes residentes.

Nos últimos dias, essa prefeitura diz ter percebido um aumento de pessoas nas ruas e reforçou o pedido para que os cidadãos mantenham o afastamento social. Em nota, Crivella reforçou que “máscara não é passaporte para as pessoas saírem às ruas”.

Outro cuidado que está na lista de tarefas contra o covid-19 na cidade do Rio é o serviço de higienização nas comunidades, ou favelas. Mais de 400 comunidades de todas as regiões foram atendidas.

Para chamar a atenção da população, a prefeitura do Rio fez pinturas no alcatrão das ruas e estradas com a mensagem “USE MÁSCARA” em tinta branca. A ideia é que a pintura seja vista tanto pelos condutores que trafegam nas vias como do alto dos prédios, antes mesmo de as pessoas saírem de casa. A sinalização começou a ser implantada nos bairros de Copacabana e Catete, por serem locais de concentração de idosos.

A cidade do Rio conta já com dois hospitais de campanha que prometem ajudar no atendimento aos pacientes com covid-19. Na segunda-feira, dia 11, um terceiro hospital de campanha será inaugurado.

 

Economia em risco

Além do combate à pandemia, outro tema que ganha destaque entre os cariocas é o financeiro. Muitas famílias, que trabalham de forma informal e que dependem do trabalho diário nas ruas, estão a enfrentar dificuldades. Muitas delas estão já sem alimentos em casa e optam por vender móveis e outros utensílios e peças pessoais para conseguirem algum dinheiro para comprar comida.

Em parceria com o Viva Rio, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e o Serviço Social da Indústria (SESI) estão a apoiar programa “SOS Favela”, que se destaca por ser uma rede de solidariedade organizada para reduzir as consequências do isolamento social para moradores de favelas e periferias pobres do estado do Rio, durante a pandemia do coronavírus. O programa articula pequenos estabelecimentos locais em comunidades, onde famílias de baixa renda podem ter acesso a cabazes que contém itens de alimentação e de higiene.

Muitas empresas familiares e de pequeno porte na cidade do Rio, que atuam nas áreas da restauração e no comércio tradicional, incluindo negócios geridos por portugueses e lusodescendentes, fecharam as portas permanentemente, deixando no desemprego dezenas de trabalhadores. Isso porque ficou “impossível manter o negócio em funcionamento” em virtude das orientações para que a população fique confinada. Os moradores de rua são também um dos grupos mais atingidos.

A situação é grave em vários pontos da cidade e o cenário futuro não é dos melhores. Segundo a Firjan, o volume de produção industrial do estado do Rio registou 33,1 pontos no primeiro trimestre deste ano e atingiu o menor patamar da série histórica da Sondagem Industrial Regional – Estado do Rio de Janeiro, iniciada em 2010. Ainda de acordo com essa pesquisa, anunciada no final de abril, as empresas mais afetadas foram as de pequeno e médio porte. A Firjan considerou que o “cenário reflete a paralisação e a redução das atividades de diversas empresas por conta da pandemia de coronavírus”.

Em entrevista o vice-presidente da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro, Arlindo Varela, disse acreditar que “a recuperação económica no Rio de Janeiro vai ser lenta, pois, além da crise pela qual o Estado já vinha passando, esta pandemia provoca um agravamento da crise e, por consequência, a recuperação não vai ser tão rápida”. Varela mencionou, porém, que “podemos ter surpresas, pois, em tempo de crises, é que o homem sai da sua zona de conforto e encontra novas oportunidades. (…) tudo isto vai levar a sociedade do nosso Estado a encontrar atividades empresarias que atendam às demandas económicas desta nova realidade da vida”.

Sobre as medidas de combate ao covid-19 adotadas pelas autoridades do Rio, este responsável sugeriu que era necessário ter havido um cuidado maior com os grupos empresariais.

“A interpretação pessoal é de que, sabendo-se já, no início deste ano, que o covid-19 estava se espalhando pela Ásia e Europa, as autoridades estaduais deveriam ter, em conjunto com as representações empresariais, estabelecido um plano de ação para enfrentar a pandemia sem trazer grandes impactos à economia e não determinar a interrupção brusca das atividades com o ‘vamos ficar em casa’ para todos, mas, sim, definir, de forma planeada, para que houvesse tempo para que o parque empresarial estabelecesse como participar neste cenário”, destacou Varela, que reforçou que, caso houvesse entendimento entre o empresariado e o governo fluminense, “no desenrolar da pandemia, teríamos as empresas do Rio de Janeiro participando na solução dos problemas, como, por exemplo, produzindo localmente itens que foram importados, pois as nossas indústrias estavam praticamente paradas. É evidente que o próprio Estado deixa de recolher os impostos tão necessários para fazer frente aos gastos”.

Durante todo esse processo, a Câmara Portuguesa no Rio “foi obrigada a suspender quase que totalmente as suas atividades. Alguns trabalhos são realizados de forma remota”.

“Lógico que esta forma limitou, e muito, a nossa atuação, porém, os nossos associados também foram obrigados a fazer o mesmo, diminuindo as suas demandas. Evidente que esta situação nos leva a uma grande reflexão de como atuar em períodos longos de quarentena”, adicionou Varela, que sublinhou que “nem todos (os associados da Câmara Portuguesa) estão conseguindo ter as suas atividades plenas” e não tiveram “tempo para se prepararem para esta nova realidade”.

 

Associações portuguesas no Rio em dificuldades

A mudança no cotidiano do Rio está a atingir drasticamente as casas portuguesas locais. Ernesto Boaventura, presidente da Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, confirmou que a instituição “está fechada desde o dia 17 de março, conforme determinação do governo” e que todas as atividades foram suspensas.

“A nossa Casa, além das festas tradicionais portuguesas, também tem diversas atividades desportivas que seguem todas suspensas. Só retornaremos quando for liberado pelo governo”, revelou Boaventura, que disse que, na cidade, “o isolamento está funcionando em grande parte” e que está em casa “aguardando que tudo fique bem para que todos possam retomar as suas vidas”.

Por seu turno, o presidente da Casa das Beiras, José Henrique Ramos da Silva, disse que esta é uma “fase extramente difícil” e que a entidade está a ter “prejuízos incalculáveis”.

“As casas regionais portuguesas vivem de eventos, não só portugueses, que são até menores. Realizamos festas de todos os tipos, como para terceira idade, casamentos, celebração de 15 anos, formaturas, festas de empresas, e etc. O nosso facturamento depende disso, pois não temos outras receitas. Os nossos funcionários estão de férias”, comentou José Silva, que disse que o primeiro evento cancelado em virtude da pandemia foi um Flashback, no dia 14 de março. “Esse evento reúne cerca de 400 pessoas na Casa”, lamentou.

Outra celebração tradicional no calendário dessa Casa é o Dia da Comunidade Luso-brasileira, realizado todo dia 22 de abril. Este ano, o salão nobre dessa instituição, que recebe centenas de pessoas que comemoram a ligação Brasil-Portugal, ficou vazio.

“A não realização do evento do dia 22 de abril foi uma perda cultural, mas não havia clima nem condições de se realizar. Ano que vem vamos realizá-lo com brilhantismo”, afirmou este responsável, que não vislumbra uma mudança de cenário no Rio tão brevemente.

“Não vejo com muito otimismo a perspetiva para as casas regionais. Trabalhamos com eventos e aglomerações de pessoas. Creio que teremos eventos somente em julho ou agosto”, finalizou José Silva.

Presidente da Casa dos Açores, Leonardo Soares contou que as atividades da instituição estão suspensas desde 24 de março e que os colaboradores estão a trabalhar remotamente.

“A casa está operacional, mas de forma remota. Isso traz impactos grandes, pois estamos sem receitas, a não ser o que é pago de mensalidade pelos nossos sócios. Alguns estão colaborando. Não sei até quando isso se vai manter. A Festa do Divino Espírito Santo foi adiada e a sua realização será reavaliada no segundo semestre. Talvez aconteça de forma diferente, como agradecimento por ter passado por esta situação”, reiterou Soares, que disse que a área financeira da Casa está a “tomar as medidas de contenção de despesas necessárias, como a suspensão de contratos, para reduzir o impacto de estar com as atividades paralisadas”.

Este responsável avalia como corretas as ações das autoridades do Rio.

“O isolamento social é importante, pois já temos problemas com a rede pública de hospitais. Entendo que esse cenário não vai perdurar por muito tempo. Haverá uma abertura gradual. Maio deveria ser de isolamento total para desafogar o sistema público de saúde”, opinou Soares.

Alcídio Morgado, presidente da Casa de Viseu, frisou que a entidade está fechada há mais de um mês e que todas as atividades foram canceladas.

“Não faremos nenhum evento até junho, pelo menos. O aniversário da Casa é em julho, mas vamos avaliar o que vai acontecer. Este é um momento muito delicado para as pessoas, para as empresas e para o nosso clube não é diferente”, avaliou Morgado, que prevê que contar com a frequências das pessoas nos eventos depois do período da pandemia não vai ser tarefa fácil.

“Não sabemos o que vai acontecer. Vamos pensar que as coisas possam ser melhores o mais rápido possível para voltarmos às atividades, pois, se ficarmos parados por muito mais tempo, não sei se teremos condições de voltar. A cada dia as coisas ficam mais difíceis. Dependemos da frequência das pessoas”, considerou Morgado.

 

Segurança pública com novos níveis

E se o momento traz números negativos e incertezas paro o Estado do Rio, é na segurança pública, que sempre preocupa a sociedade e os governantes, que os resultados estão a ser interpretados de forma positiva.

Em abril, a plataforma Fogo Cruzado, que contabiliza ocorrências policiais no Rio, registou “apenas” 501 tiroteios ou disparos de arma de fogo na região metropolitana da cidade. Em comparação com o mesmo período de 2019, quando houve 682 registos, a queda foi de 27%. Ao todo, 196 pessoas foram baleadas (97 morreram e 99 ficaram feridas), 1% a menos do que as 198 baleadas (sendo 89 mortas e 109 feridas) no ano anterior.

Do total de tiroteios mapeados este mês (501), em 160 deles – 32% – houve presença de agentes de segurança. Já em abril de 2019, esse índice foi de 25%: dos 682 tiros no Grande Rio, em 168 deles houve presença de agentes. Apesar da queda no número de registos de tiroteios com participação dos agentes (5%), este ano, mesmo com as medidas de isolamento por conta da quarentena, houve um aumento de 7 pontos percentuais na proporção dos tiros com a participação de agentes das instituições de segurança pública.

 

por Ígor Lopes

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