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Nova política externa brasileira pode pôr em causa futuro do BRICS

Jair Bolsonaro - Foto: Marcos Corrêa/PR

A organização que agrupa os cinco países emergentes do planeta, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com o acrónimo inglês BRICS, poderá ter o futuro comprometido com a nova óptica da política externa do governo de Jair Bolsonaro.

Com a criação do BRICS os cinco países emergentes pretenderam constituir um bloco com o objectivo geopolítico prioritário de neutralizar a hegemonia económica e política dos EUA e do Ocidente. Conjuntamente, os cinco países representam 25% do PIB mundial e 45% a população mundial.

A viragem do eixo da política externa brasileira, levada a cabo pelo Governo de Jair Bolsonaro, que privilegia uma aproximação do Brasil aos EUA e consequente integração do Brasil na Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE), entra em rota de colisão com os interesses dos membros do BRICS, especialmente da Rússia e China que partilham o mesmo adversário económico e diplomático, os EUA.

Em questão está também a guerra comercial entre a China e os EUA, na importação de produtos agro-pecuários provenientes do Brasil. Nesta “guerra” Donald Trump decidiu rever a sua política proteccionista e moderar as taxas aplicadas aos produtos brasileiros. Uma medida que poderá provocar um distanciamento da China do Brasil, o qual é o principal parceiro comercial.

No entanto, a redução nas medidas proteccionistas americanas poderá também vir a beneficiar a China, suportado por o acordo bilateral entre o gigante asiático e os EUA e que poderá levar Pequim a optar pela Realpolitik e privilegiar os EUA em detrimento do Brasil, que demonstrou volatilidade nas suas preferência em detrimento dos parceiros no BRICS.

A aproximação de Jair Bolsanaro a Donald Trump, que alguns analistas apontam como o mentor político do presidente brasileiro, abre também outra frente de conflito diplomático com Moscovo que não aprecia que Brasília alinhe as suas posições de politica externa numa rota definida por Washington. Optando por posições semelhantes às dos EUA, por exemplo no caso do conflito no Médio Oriente, o Brasil distancia-se ideologicamente dos seus parceiros no BRICS e especialmente de Moscovo.

A última gota de água que poderá provocar uma tempestade de Moscovo no BRICS será com uma eventual adesão do Brasil à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) já sugerida por Donald Trump a Jair Bolsanaro.

O facto de não partilhar a mesma visão ideológica com o BRICS, não é suficiente para o Brasil deixar a organização. O país tem ainda uma forte dependência da organização, tendo em conta que uma das principais fontes da linha de crédito internacional que beneficia o Brasil é proveniente do Novo Banco de Desenvolvimento, apontado como o banco dos BRICS, o qual é uma alternativa ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial. Porém, avultados investimentos em curso no Brasil têm como suporte financeiro o banco dos BRICS, os quais Jair Bolsonaro não quer pôr em causa.

O Brasil não é o único país que pode pôr causa a coesão dos Cinco Emergentes. A rivalidade sino-indiana, sob um olhar atento e satisfeito de Washington, tem causado problemáticos danos na organização, e a deterioração das relações entre a China e a Índia podem resultar num golpe fatal para o BRICS, já moribundo com a revisão das posições brasileiras.

Também a África do Sul, com o novo conceito das prioridades estratégicas do presidente Cyril Ramaphosa, dá sinais de uma vontade em reduzir o grau de implicação e compromisso do país na organização.

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