Brasil | Entrevista

Paulo Pinheiro quer renovar mandato como vereador no Rio de Janeiro para “fiscalizar orçamento municipal e dos serviços de saúde”

Paulo Pinheiro é vereador na cidade do Rio de Janeiro há já 16 anos. Está no seu quarto mandato e não esconde o desejo de continuar no caminho político como forma de ajudar a cidade a superar os atuais desafios. Hoje, aos 71 anos de idade, este pré-candidato à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que é médico pediatra, com especialização em saúde pública, dedica-se a defender as áreas da saúde, do serviço público, da fiscalização financeira, da conservação e dos assuntos urbanos.

Paulo Pinheiro sublinha que o seu foco, enquanto vereador, é fiscalizar a execução do orçamento municipal e dos serviços de saúde. Em entrevista à nossa reportagem, este responsável, que tem ligações à Guarda, Portugal, falou sobre as suas propostas, criticou o atual prefeito carioca e comentou que, na sua opinião, o “Rio precisa de uma política que facilite a atração de investimentos na criação de empregos, através do desenvolvimento do turismo”.

 

O que o faz querer renovar o seu mandato como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro?

A minha maior motivação é constatar que a defesa das políticas públicas de saúde, educação e mobilidade urbana, por exemplo, bem como a defesa do nosso Sistema Único de Saúde (SUS) são fundamentais diante de tantos retrocessos democráticos a que temos assistido nos últimos anos.

 

Que desafios os próximos vereadores do Rio terão numa época pós-pandemia?

O principal desafio será o de ajudar a reconstruir a cidade do ponto de vista social e económico após mandatos desastrosos dos últimos prefeitos, culminando num quadro de terra arrasada. Tudo isso num cenário de recessão causada pela pandemia.

 

Como a Covid-19 está a impactar o Rio?

O impacto negativo de uma pandemia é inevitável, mas, no caso particular do Rio, o alinhamento do atual prefeito ao negacionismo federal potencializou e muito os efeitos deletérios sobre a economia, além de contribuir decisivamente para um número altíssimo de mortos na cidade.

 

Que planos tem para a cidade do Rio de Janeiro?

O Rio precisa de uma política que facilite a atração de investimentos na criação de empregos, através do desenvolvimento do turismo. Paralelo a isso, precisamos criar condições para o desenvolvimento dos pequenos negócios, através de financiamento e infraestrutura. É no setor de serviços que se concentra a maior parte das vagas de trabalho.

 

Como pretende atuar em favor da cidade?

A fiscalização do orçamento público e dos serviços de saúde são a marca registada dos meus mandatos e, num cenário de total descontrolo como o atual, esse perfil torna-se ainda mais fundamental.

 

O que é necessário para cuidar da saúde da população carioca?

Valorizar o servidor e priorizar a aplicação de recursos públicos na atenção básica, ao contrário do que tem sido feito nos últimos anos.

 

Como enxerga os atuais problemas de corrupção na área da saúde no estado do Rio?

A corrupção na saúde decorre da política de terceirização da gestão implementada no Estado e na capital desde 2009. Sou crítico ferrenho desse modelo de gestão desde a sua implementação. As Organizações Sociais tornaram-se numa porta aberta a todo o tipo de desvios na administração pública, facto denunciado por mim desde o começo.

 

De que forma a política nacional, ou seja, o governo Federal, deve olhar para a cidade do Rio?

O Rio precisa voltar a ocupar o espaço de centro político no Brasil. O governo federal não pode continuar tratando a cidade como uma ilha, isolada das decisões económicas e culturais do restante do país. Somos a capital cultural do Brasil e referência do nosso país para o mundo, e devemos receber a devida importância por isso.

 

Ser político no Rio de Janeiro é hoje visto de forma crítica e negativa por parte da população local, já que os políticos estão a ser responsabilizados por má gestão e corrupção. Como é ser vereador na cidade maravilhosa?

Essa visão negativa da atividade política não é nova e tampouco determinante para o futuro da cidade. O que mudou foi a comunicação mais direta entre o cidadão e os seus governantes – consequência do advento das redes sociais – e a radicalização na forma de expressar esse sentimento. O facto de ser vereador de uma capital potencializa todos os aspetos negativos, mas também os aspetos positivos. A maior interação entre o cidadão e o parlamentar facilita  muito o trabalho dos vereadores, pois recebemos um feedback praticamente em tempo real sobre a nossa atuação e podemos corrigir eventuais equívocos nos nossos encaminhamentos.

 

Que balanço faz do seu trabalho como vereador até agora? Que realizações políticas consegue ressaltar?

Um balanço altamente positivo. Com a experiência de estar no meu quarto mandato como vereador do Rio, posso afirmar que o meu trabalho já passou pelo crivo da população carioca em diversas situações. Como dito anteriormente, o meu foco é a fiscalização da execução do orçamento municipal e dos serviços de saúde. Desse ponto de vista, posso afirmar que a minha maior contribuição para a cidade se dá na atuação tanto legislativa como junto ao Ministério Público e o Judiciário, combatendo o desvio de milhões de reais dos cofres públicos e cobrando do executivo a aplicação dos recursos necessários para a saúde pública.

 

Vai concorrer por qual partido? Qual é a orientação do seu partido?

Serei candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A orientação do meu partido é a defesa da ética na política e dos direitos do cidadão.

 

Atua em alguma Comissão? Se sim, que ações desenvolve?

Sou membro titular das Comissões Permanentes de Saúde e do Idoso, onde exerço fortemente o trabalho de fiscalização dos serviços públicos e da execução orçamentária dessas áreas. Além disso, sou membro de outras Comissões temporárias formadas na Câmara Municipal para acompanhamento de temas pontuais, como, por exemplo, a questão do transporte hidroviário na cidade, ou de acompanhamento da saúde animal.

 

Qual é a sua opinião e relação com o governo do atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella?

Um governo desastroso para a cidade, com o qual tenho apenas relação institucional, sem qualquer participação em cargos ou na sua base de sustentação na Câmara de Vereadores.

 

Como avalia a gestão do prefeito?

Trata-se do pior prefeito da história do Rio. Umas mistura de fundamentalismo religioso com total inépcia administrativa e descontrolo fiscal e financeiro, resultando num desastre de proporções gigantescas para a população carioca, que já vinha de um governo igualmente danoso ao privilegiar os mega eventos, deixando um endividamento gigantesco a ser suportado pelo cidadão. O trabalho de Crivella à frente da prefeitura não merece qualquer nota positiva, sendo fundamental para o futuro da cidade que o derrotemos nas eleições deste ano.

 

Em que áreas mais atua na Câmara Municipal?

Saúde, defesa do serviço público, fiscalização financeira, conservação e assuntos urbanos.

 

Quais são as suas ligações a Portugal?

Tenho laços fortíssimos com Portugal! Filho e neto de portugueses, vivo a cultura portuguesa desde a minha infância, participando ativamente na vida social nas diversas Casas Portuguesas da cidade. Esses laços me levaram a visitar Portugal por diversas vezes e a obter a nacionalidade portuguesa há mais de 20 anos.

 

Que imagem tem de Portugal?

Portugal é referência para o Brasil em todas as áreas. Na política, na economia, na saúde, na segurança e no convívio social. Um exemplo a ser seguido.

 

Que locais prefere nesse país europeu?

Todo Portugal é fantástico, desde uma pequena “aldeia” aos grandes centros, a acolhida e a paz de espírito que vivemos em Portugal nos fazem sentir em casa. Mas se for para citar apenas um, não posso deixar de lembrar da pequena Almofala, na região da Guarda, onde nasceu Diamantino Pinheiro, o meu saudoso pai. Visitei a aldeia algumas vezes e é sempre emocionante reconectar com a história da minha família.

 

Tem alguma interação com a comunidade ou cultura de Portugal no Brasil, no Rio?

Sim. Tenho participação ativa junto aos clubes sociais portugueses, sendo inclusive autor de projetos que visam conceder benefícios fiscais a essas instituições, tão atingidas pelas crises económicas da cidade. Sou autor também de leis que garantem a geminação com diversas cidades portuguesas, como Porto, Braga, Arganil e Ponte de Lima. Além disso, sou colunista semanal no “Portugal em Foco”, jornal da comunidade portuguesa aqui no Rio de Janeiro, onde escrevo sobre saúde.

 

Que locais de influência portuguesa gosta de frequentar no Rio?

Diversos, desde os comerciais, como o CADEG – com menção honrosa para o Cantinho das Concertinas -, restaurantes como o Adegão Português e o Rancho Português, até os políticos e culturais, como o Consulado Português, o Real Gabinete Português de Leitura e os clubes como a Casa do Minho, a Casa do Porto, a Casa das Beiras e a Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria.

 

Por fim, que mensagem deixa para os cariocas? Acredita que o Rio pode voltar a ter uma imagem positiva perante os seus habitantes e perante o mundo?

Não desistam do Rio. Por mais que a situação nos desanime, não se iludam, não há saída fora da política. Sem a participação dos cidadãos, a cidade ficará entregue aos oportunistas de plantão, como os atuais governantes nos três níveis. O Rio e o Brasil têm jeito. Nada deve parecer impossível de mudar!

Ígor Lopes

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