Brasil

Psicólogos luso-brasileiros vincam a importância do “fator psicológico” na retoma das atividades presenciais nas empresas

No retorno às atividades presenciais, tendo em vista este novo momento da pandemia de Covid-19, as empresas contam com grandes desafios que necessitam de decisões urgentes e necessárias. Gestores, líderes e equipas de trabalho questionam-se: como serão os próximos dias? Qual será o futuro dos nossos postos de trabalho? Existem garantias sobre o nosso futuro profissional?

A nossa reportagem conversou com profissionais do ramo da psicologia no Brasil e em Portugal que sublinharam a importância e o papel da saúde mental dos funcionários e trabalhadores para que as empresas alcancem os seus objetivos de forma saudável e sólida. Afinal, o que a psicologia é capaz de nos dizer sobre todo esse processo de retomada das atividades presenciais e sobre a adequação à essa “nova normalidade”? E de que forma a saúde psicológica pode afetar o desempenho dos trabalhadores?

Na opinião de Gloria Gonçalves, psicóloga clínica, com atuação em Portugal, “esta fase atual mostra de forma clara a importância das ciências psicológicas e a necessidade de olharmos com seriedade para a nossa saúde mental”.

“A imposição do confinamento, assim como as notícias veiculadas relacionadas à rápida propagação da doença e a divulgação dos números relacionados com a elevada letalidade do vírus causaram níveis elevados de ansiedade e o desencadeamento de problemas psicológicos na maior parte da população. O ser humano do século XXI desenvolveu, através dos últimos anos, onde o avanço científico foi inequivocamente a grande marca do progresso, a crença numa certa omnipotência, onde acredita que domina qualquer dificuldade que possa evidenciar algum perigo, a crença onde tudo é dado como certo para garantir o seu bem-estar. O confinamento, desconhecimento de como o vírus se comporta, a impotência da ciência em disponibilizar uma vacina ou medicamento para a doença, a incerteza do impacto económico no país foram variáveis que colocaram à prova esta crença construída e que foi apropriada por todos nós”, confirma esta psicóloga, que sublinha ainda que, “atualmente, muitos profissionais apontam a falta de resiliência como um dos principais fatores desencadeantes dos problemas psicológicos apresentados pela população durante o confinamento, entretanto, como psicóloga, verifico na população que atendo que, apesar de inicialmente as pessoas terem sentido o impacto na alteração das suas rotinas, possuíam recursos e mostraram-se resilientes na adaptação e gestão das necessidades que o surgimento da Covid-19 impôs-nos”.

“Foi criada uma ilusão de que quando saíssemos do confinamento voltaríamos à normalidade. A fase de desconfinamento chegou, porém, a maioria das pessoas começa a perceber que a normalidade que conheciam e que desejavam já não existe, as incertezas persistem e tomam contato com uma necessidade interna de se reinventar, seja profissionalmente ou individualmente”, avalia Gloria Gonçalves, que revela que está a receber no seu consultório “um grande número de pessoas, principalmente as que chegam pela primeira vez, que procuram ajuda por se sentirem em estado depressivo, questionam sobre conhecimentos, capacidades e atitudes que outrora faziam-lhe sentido e que, neste momento, percebem que têm de buscar novos valores que norteiem as suas vidas”.

Ainda segundo esta profissional, as empresas precisam estar atentas aos seus funcionários e a forma como se sentem.

“É importante que os colaboradores em concordância com as empresas sejam corresponsáveis em garantir o bem-estar físico (tomando as medidas e procedimentos necessários impostos pelas organizações competentes) e o bem-estar emocional (procurando ajuda profissional caso haja necessidade e promovendo um ambiente saudável). Perante este cenário que nos é apresentado, de nada adiantam os comportamentos derrotistas ou críticos direcionados a tudo que é externo à sua responsabilidade. Urge, sim, a necessidade dos gestores das empresas, assim como os restantes colaboradores, procurarem ter atitudes que visem à força da positividade e da cooperação”, elenca esta psicóloga, que destaca, porém, que os empregadores “devem ter em atenção o estado psíquico dos seus colaboradores, pois, todos nós, como seres humanos da era moderna, temos uma necessidade interna de controlo sobre o que ocorre a nossa volta”.

Mas de que forma as competências desses profissionais devem ser trabalhadas num mundo “pós-quarentena”? Gloria Gonçalves sugere algumas maneiras.

“O desenvolvimento de competências e de conhecimentos tem sido o foco dos recursos humanos das empresas, porém, se este investimento, que é feito a nível de formação, não se refletir em atitudes, não podemos considerar, tendo como base o comportamento dos seus colaboradores, que a empresa está a ser bem sucedida. Hoje, quando fala-se em Empresas Positivas, a base de trabalho centra-se na mudança de atitudes, na mudança de valores e crenças. A aprendizagem que a Covid-19 trouxe-nos foi a necessidade de mudança de valores porque esta experiência mostrou-nos que nada é garantido, que a nossa omnipotência é questionável. Neste momento, as empresas devem responsabilizar-se e preparar-se de forma consciente e humanizada para as mudanças de aprendizagem que esta pandemia trouxe, como a necessidade de desenvolver e/ou reforçar as nossas forças pessoais para que possam refletir-se em atitudes positivas”, reitera Gonçalves, que aproveita para deixar uma mensagem para empregadores, funcionários e colaboradores.

“O momento não pede que recuemos, o momento pede-nos novas adaptações, novos questionamentos, é uma espécie de transcendência na forma de viver. Considero que vivemos uma fase de novas adaptações, nada ficou garantido, nada ficará garantido, não irá ser fácil a adaptação a todas as modificações que estão a ser impostas na nossa vida devido à Covid-19, não podemos esquecer nem descurar da nossa responsabilidade de seguir as orientações das autoridades nesta fase de desconfinamento. Respeitar as formas de combater este vírus é vital para a manutenção da saúde pública na sociedade. Continuar confinados poderá conter a propagação do vírus, mas irá agravar muitos outros problemas de ordem social”, termina esta profissional.

 

“Ambiente saudável dentro da empresa”

Para Fabiano de Abreu, neuropsicólogo e neurocientista, que atua no Brasil e em Portugal, pressionar, neste momento, os funcionários para que alcancem metas é uma ação não recomendada do ponto de vista psicológico e de produção.

“A empresa deve estar bem sintoniza de maneira a não sobrecarregar um só setor e para que possa adaptar-se à essa nova realidade, que deve levar em consideração o fator psicológico. As pessoas estão saturadas e podem vir a sofrer uma pressão maior para as metas. A pessoa que pressiona, e que está num nível hierárquico maior, tem de ter a consciência de que utilizar a pressão num momento em que já existe uma certa pressão não vai mudar o parâmetro da empresa. O ambiente externo já causou uma pressão nos funcionários, que estão receosos com o futuro, e o receio ativa a ansiedade, que ativa o stresse. Se as empresas depositarem os problemas económicos e o medo nos seus funcionários irão afetar ainda mais as suas produções. Os funcionários não irão suportar mais essa pressão. É preciso criar um ambiente saudável dentro da empresa para que os empregados tenham a motivação necessária para produzir o suficiente para que a empresa possa sair dessa situação negativa. Na minha empresa, digo sempre que não é momento para crescer, mas sim de nos manter saudáveis”, refere Fabiano de Abreu, que defende que é preciso também apostar na tecnologia para enfrentar esse cenário menos positivo em termos económicos e psicológicos.

“Portugal deve apostar mais na tecnologia. Muitas empresas não estão ainda presentes na Internet. Este é o momento de as empresas pensarem na questão tecnológica como um dos meios para poderem superar a crise. As pessoas estão mais adaptadas ao mundo on-line, então, é preciso apostar em produtos e meios dentro dessa condição”, atesta Fabiano de Abreu.

Ígor Lopes

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