“Tivemos sim uma retomada importante nos negócios”, defende Fábio Pizzamiglio, brasileiro especialista em negócios internacionais

Fábio Pizzamiglio, diretor da Efficienza Negócios Internacionais, acredita que “a recuperação do mercado brasileiro passa invariavelmente pela situação mundial e pelo arrefecimento da pandemia”. Este responsável considera que “grandes parceiros comerciais do Brasil têm sido mercados complicados, como é o caso da Argentina” e que é necessário “buscar dar oportunidade aos comerciantes nacionais, tornando os seus produtos mais competitivos e qualificados no exterior”.

Pizzamiglio reitera que existe hoje uma “crise logística mundial” e que, no caso das ligações entre Brasil e Portugal, “os portugueses contam com a Câmara Portuguesa no Brasil”, entidade “que pode auxiliar”. Este especialista sugere ainda que “um dos entraves para empresas que querem exportar para o Brasil é o excesso de burocracia, por isso, esse também é um ponto de atenção”.

Em entrevista à nossa reportagem, Fábio Pizzamiglio falou sobre as relações comerciais do Brasil com o mundo e destacou estratégias que devem ser pensadas no sentido de se ultrapassar a crise criada pela pandemia.

Qual é o real momento vivido pelo Brasil no campo do comércio exterior?

O real momento do comércio exterior no Brasil é de expectativa de retomada dos negócios aos níveis pré-pandemia. No último ano e meio, o comércio exterior enfrentou desafios de grandes proporções que afetaram diretamente os negócios internacionais. Atualmente, ainda sentimos impactos da grande crise logística que não só encareceu os valores dos fretes, como gerou e gera atrasos nas principais cadeias de fornecimento mundiais. A balança comercial brasileira apresenta resultados positivos e até históricos, ao mesmo tempo em que em novembro, tivemos baixas consideráveis nos números pela quebra de safra. O Governo Federal, por sua vez, tentou implantar medidas para auxiliar os importadores que se depararam com aumentos de 3000% no frete em conjunção com o aumento do dólar. Mesmo com todos os obstáculos, acredito que tivemos sim uma retomada importante nos negócios e a tendência é que no segundo semestre do próximo ano voltaremos a uma certa normalidade. Além disso, existem movimentos do Governo para desburocratizar o comércio exterior, que seria algo muito bem-vindo, podendo facilitar a vida dos operadores e atalhar os caminhos para os novos entrantes.

Que fatores estão conectados a essa sua avaliação?

A maioria dos fatores descritos acima estão ligados diretamente à pandemia. Nesse período tivemos: fechamento de portos importantes na China, falta de containers, companhias marítimas reduzindo rotas e/ou direcionando navios para rotas mais lucrativas, atrasos nos embarques, aumento exponencial do frete marítimo e aéreo e o atraso nas entregas de insumos vitais a produção nacional. Além da pandemia, tivemos desastres naturais, bloqueio no canal de Suez e problemas energéticos no mundo, como a falta de carvão na China e gás na Europa. Fatores que combinados criaram uma grande crise mundial que o Brasil não conseguiu evitar. Ao falarmos de balança comercial e dos recordes apresentados, temos um número que pode não representar 100% a verdade, visto que se pegarmos o minério de ferro, que representa 16% daquilo que é exportado pelo Brasil, tivemos aumento de 100% no preço praticado, ou seja, não tivemos grandes aumentos na quantidade exportada, mas sim no valor.

Que condicionantes o Brasil vivencia?

Por mais clichê que pareça, vivemos em um mundo globalizado no qual os eventos muitas vezes possuem um efeito dominó. Por isso, a recuperação do nosso mercado passa invariavelmente pela situação mundial e pelo arrefecimento da pandemia.

Que mercados são mais voláteis e quais são seguros para o Brasil?

Atualmente, todos os mercados possuem uma certa volatilidade, visto que ainda vivemos incertezas da pandemia, ainda mais com o anúncio da variante ómicron. A análise que tem que ser feita é do ponto geopolítico e da relação comercial mantida entre o país que se pretende fazer negócio. Países que passam por turbulências políticas sempre possuem uma volatilidade maior, grandes parceiros comerciais do Brasil têm sido mercados complicados como é o caso da Argentina. O Chile, por ter recém-eleito o seu novo presidente, também é um caso para ficarmos atentos. Países africanos são excelentes mercados, todavia, merecem cuidados especiais. Falando dos mercados “seguros”, podemos citar os Estados Unidos, Espanha, Japão, México, Alemanha, França e até o nosso principal parceiro comercial que é a China. Apesar de ainda ser um país de políticas fechadas, que demanda cuidados e atenção, se bem conduzido é um mercado com potencial de crescimento ainda maior.

Na sua opinião, como o tema do comércio exterior deve ser encarado pelo governo?

Deve ser encarado no intuito de fomentar a economia nacional, dando suporte ao comércio brasileiro em frente às empresas concorrentes em âmbito mundial. Buscar dar oportunidade aos comerciantes nacionais, tornando os seus produtos mais competitivos e qualificados no exterior. Porém, o mais importante é ir a campo, ouvir e entender os operadores para que isso possa ser traduzido em medidas efetivas como a redução de 10% nas alíquotas do Imposto de Importação da maioria das NCM’s e o novo processo de importação com intuito de desburocratizar o comércio exterior. Por último, em algum nível, tentar equilibrar o cenário no sentido que hoje exportamos primordialmente commodities e importamos tecnologia e produtos acabados com custo alto. Porém, essa tendência é algo a longo prazo e pelas características territoriais temos a tendência natural a focar no extrativismo.

Que estratégias devem ser tomadas?

Primeiramente, o Governo deve manter os benefícios fiscais aos exportadores, fomentar a exportação é sempre vital para a economia. Na importação, a manutenção da redução das alíquotas do Imposto de Importação também é importante. Como citado acima, desburocratizar é a chave, deixar o processo de importação e exportação mais acessível e palatável. A reforma tributária, que é uma discussão antiga, também merece destaque, visto que não só facilitaria a vida de todos como atrairia empresas de fora do país a se instalarem e investirem no Brasil. Por último, a busca de acordos econômicos também pode ajudar, porém sempre com certa proteção aos produtores brasileiros.

Existe uma crise logística no Brasil?

Sim, porém, vivemos uma crise logística mundial. O Brasil décadas antes da pandemia já vivia um certo caos logístico por problemas históricos de infraestrutura interna. Com a chegada da pandemia, houve um efeito dominó nas cadeias de fornecimento que ainda preocupa. Os mercados que estão mais temerosos, são os produtores rurais, que temem pela falta de insumos vitais para o início do plantio do próximo ano. Todavia, já sentimos um arrefecimento nos valores dos fretes marítimos e existe uma forte tendência de normalização para 2022.

Quais as principais dificuldades dos exportadores na pandemia?

Os exportadores passaram por diversas dificuldades neste ano e meio de pandemia. Primeiramente, tivemos a paralisação das atividades que impossibilitaram a produção, posteriormente a crise logística que gerou falta de componentes, insumos e matérias-primas no mercado mundial, fazendo com que isso gerasse grandes preocupações com a produção, além do aumento dos custos de frete que acabam deixando o produto menos competitivo. Mesmo assim, no balanço geral, tivemos um ano bom para os exportadores brasileiros com volumes recordes. O panorama foi também para os novos exportadores que viram o mercado brasileiro em recessão e buscaram novos mercados no exterior, alguns com muito sucesso.

Que produtos são mais importados e exportados?

Atualmente, os produtos mais importados são os adubos e fertilizantes que representam 6,7% do volume, seguido pelos óleos combustíveis de petróleo com 6,1% e por terceiro estão os produtos da indústria de transformação com 4,5%. As importações brasileiras de janeiro a novembro de 2021, totalizaram 199 mil milhões de dólares. Já nas exportações, temos o minério de ferro com 16% do total, seguido pela soja com 15% e em terceiro com 11% estão os óleos brutos de petróleo. O total exportado no período foi de 256 bilhões de dólares.

Como as empresas portuguesas podem exportar para o Brasil?

As dicas para as empresas portuguesas são muito semelhantes ao caminho inverso. Para qualquer empresa que busca explorar novos mercados é vital ter informações, avaliar o mercado e, se possível, fazer idas a campo para entender as demandas. Muitas vezes ter um produto de qualidade não é suficiente se não há demanda. Hoje, existem empresas especializadas nessa avaliação e os portugueses contam com a Câmara Portuguesa no Brasil, que pode auxiliar. Um dos entraves para empresas que querem exportar para o Brasil é o excesso de burocracia, por isso, esse também é um ponto de atenção. Mais uma vez, quanto mais informações tiver, mais fácil de se tomar uma decisão.

E como o Brasil pode exportar para Portugal?

Quando não se há um produto ou segmento definido para ser explorado, um bom caminho para começar é através da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) essa agência, que é vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, pode ajudar as empresas a identificar o potencial de mercado, qual produto se encaixa melhor naquele mercado e quais são as exigências para exportar. Se aventurar num mercado novo sem nenhuma base pode ser um tiro no pé, por isso, quanto mais informações os empresários tiverem, melhor. Existem, também, escritórios privados que são especialistas nesse tipo de avaliação. Como dica geral: busquem informações e conheçam as necessidades do mercado.

Qual o papel da União Europeia e do Mercosul neste cenário?

O papel dos blocos económicos é de ser um ente facilitador entre os países, fomentando os negócios internacionais. Neste âmbito, cabe aos países identificar pontos de convergência para que sejam criados acordos de cooperação que possam facilitar as transações internacionais. Naturalmente, Brasil e Portugal possuem acordos entre si, o mais famoso deles sendo o Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta ratificado no início dos anos 2000, que facilita diversos pontos entre os países, desde questões econômicas, até a circulação de cidadãos. Um ponto muito importante e que vem sendo conversado há mais de 20 anos é o Tratado de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia. O Acordo está na sua etapa final e acredita-se que em no máximo dois anos estará completamente ratificado pelos países.

Tem dados da relação comercial (produtos e valores) entre o Brasil e Portugal?

As relações entre o Brasil e Portugal geraram 2,6 mil milhões de dólares entre janeiro e novembro de 2021, sendo que o principal produto exportado pelo Brasil a Portugal foram os óleos brutos de petróleo, representando 64%, seguidos de soja com 9,5% e em terceiro lugar os laminados de ferro ou aço com 3,8% de representatividade. Já se tratando de importações, o Brasil importou 790 milhões de dólares de Portugal, sendo o principal produto gorduras e óleos vegetais com 32%, seguido de aeronaves e suas partes com 10% e em terceiro encontram-se bebidas alcoólicas com 8,9%.

Por fim, quem é Fábio Pizzamiglio?

Fábio Pizzamiglio é diretor da Efficienza Negócios Internacionais, empresa com mais de 25 anos de atuação no mercado internacional. Fábio é especialista em comércio exterior e trabalha com foco em soluções para as empresas que buscam importar ou exportar os seus produtos.

Ígor Lopes

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