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Cabinda: Angola multiplica esforços para capturar Alexandre Tati

Alexandre Tati FLEC

Delegações angolanas deslocaram-se recentemente aos centros de refugiados cabindas na República Democrática do Congo (RDC) e na República do Congo (Bazza) com a missão “oficial” de convencer o refugiados a regressarem a Cabinda, e a missão “oficiosa” de capturar o líder da guerrilha independentista Alexandre Tati.

Sempre acompanhados por responsáveis dos consulados angolanos, as delegações contaram também com a presença de elementos do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE) bem como do Brigadeiro Estevão Comba que “coordenou” as delegações.

A chegada aos centros de refugiados a delegação angolana cumpriu critérios distintos. Enquanto na RDC não informaram previamente da sua “visita” os responsáveis dos centros de refugiados cabindas em Seke Zole, Nlundo Matende e Mfuiki,também não informram as autoridades regionais congolesas  e “aparentemente” o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) não tinha conhecimento da visita. A delegação angolana chegou aos centros acompanhada por polícias congoleses, contratados “oficiosamente” para o efeito.

Na República do Congo (Bazzaville), as autoridades locais foram previamente informadas, especialmente o coronel congolês Alphonse Nzamba que comunicou por sua vez aos refugiados cabindas nos centros de Kondi Mbaka e Malolo2 de que iriam receber uma “visita de cortesia”, sem contudo dar precisões sobre os motivos da mesma. A delegação angolana foi, neste caso, acompanhada “oficialmente” por uma delegação congolesa.

A posição do ACNUR, sobre os centros de refugiados cabindas na RDC, é sintomaticamente dúbia. Os responsáveis do ACNUR em Kinshasa evitam fornecer qualquer tipo de informações relativas aos centros e qualquer questão permanece eternamente com a resposta de que “está em curso a recolha de informação”. Os centros de refugiados cabindas na RDC são um incómodo e um tabu para o ACNUR, onde a lei do silêncio impera sobre este assunto.

Durante os encontros com os refugiados cabindeses, na RDC e no Congo Brazza, as questões da delegação angolana foram semelhantes e focalizaram-se nos motivos que leva os refugiados a recusarem serem repatriados para Cabinda e Angola.

Na mesma ocasião a delegação angolana aproveitou para fotografar os centros e os refugiados, assim como recolher a identificação do maior número de refugiados. Uma atitude que suscitou desconfiança junto dos refugiados, para os quais a sua recusa em regressar a Cabinda é conhecida e assenta na constatação de “que há guerra em Cabinda”, uma guerra que Angola recusa admitir.

Dirigindo-se à delegação conjunta, o responsável do centro de Malolo2, Zacarias Moio, disse que antes de tentarem repatriar os refugiados cabindas deviam “resolver o conflito pela via de diálogo, porque a política de assassinatos e raptos mostrou o seu limite”, fazendo assim alusão à eliminação de refugiados acusados de supostamente pertencerem ou colaborarem com FLEC bem como a captura de outros no interior dos centros.

Refugiados desconfiam das “visitas de cortesia” angolanas

As “visitas de cortesia” da delegação angolana iniciaram a 11 de Agosto, no centro de Seke Zole na RDC, e terminaram a primeira fase a 10 de Setembro no centro de Malolo2 no Congo Brazza. A “visita” a Malolo2 despertou a atenção também dos congoleses que desde 1975 criaram laços de amizade e familiares com os refugiados cabindas.

Com base nas questões efectuadas, conjuntamente e individualmente, aos refugiados e na curiosidade fotográfica angolana, que não passou despercebida, os refugiados cabindeses compreenderam os reais motivos da “delegação angolana” com as suas “visitas de cortesia” na RDC e Congo Brazza. Identificar os autores dos comunicados áudios e vídeos da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) chefiada por Emmanuel Nzita, difundidos aos órgãos de Comunicação Social, localizar guerrilheiros independentistas supostamente dissimulados entre os refugiados, mas prioritariamente localizar Alexandre Tati, líder da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC).

A localização de Alexandre Tati, bem como de todo o arsenal bélico da FLEC, tornou-se numa obsessão para Angola, e por esse motivo o Brigadeiro Estevão Comba foi incumbido para esta missão, tendo pesado na sua escolha a enorme experiência deste militar na “questão da FLEC” e a vasta rede de informadores que desenvolveu em Cabinda e durante a sua missão de serviço em Ponta Negra, no Congo Brazza.

Apesar de alguns refugiados nos centros terem sido militares da FLEC, rejeitam “categoricamente” que os centros de refugiados são utilizados como bases à retaguarda da FLEC ou que acolhem guerrilheiros no activo. “Se Alexandre Tati estivesse escondido num centro de refugiados, ou se os centros tivessem os arsenais da FLEC, há muito que isso teria sido revelado por detractores”, disse à e-Global um elemento da direcção da FLEC.

Congoleses preocupados

A presença da delegação angolana, e dos militares angolanos que a compõem, provocou em Malolo, e no distrito de Louvakou, um mal-estar junto população local que repetidas vezes denunciou as incursões das Forças Armadas Angolanas (FAA) no território congolês, as quais avançaram sempre o argumento de que pretenderem capturar elementos da FLEC. Também as populações do distrito Kimongo, da aldeia de Ilou-Panga, vítimas das mesmas acções das FAA, que operou sempre com o mesmo álibi, protestaram contra a presença angolana.

Reportando sobre a “visita de cortesia” angolana o jornal “Les Echos – Congo Brazza” escreveu que espera que esta “acção conjunta das delegações dos exércitos angolanos e congoleses a Malolo, levante um pouco o véu sobre o empenhamento militar registado nestes últimos dias entre Ponta Negra e Dolisie”.

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