Cabinda

Cabinda: Dúvidas e certezas pairam sobre reunião intercabindesa em Acra

Centro Internacional de Formação de Manutenção da Paz Kofi Annan (KAIPC) em Acra

Com base num modelo idealizado por Afonso Justino Waco há cerca de um ano, que pretende a criar as condições que permitam a constituição de uma plataforma em que todas a tendências políticas e personalidades cabindesas estejam representadas, a Organização para o Desenvolvimento Africano (sigla em inglês, OAD), fundada e presidida por Bonaventure Aguissi, aceitou viabilizar a iniciativa e assumir a sua organização.

O primeiro encontro foi agendado pela OAD para 21 Outubro em Acra, capital do Gana, decorrendo até ao dia 25 no Centro Internacional de Formação de Manutenção da Paz Kofi Annan (KAIPC) na mesma cidade.

A fim de vincar que uma instituição independente assumiu inteiramente a iniciativa, os convites endereçados às personalidades e organizações políticas e militares cabindesas, foram enviados pela OAD e assinados pelo seu presidente, Bonaventure Aguissi. Coube também à OAD receber as respostas a confirmarem a presença na reunião, ou a declinarem o convite.

No entanto a reunião intercabindesa de Acra não pauta pelo consenso. Após os sucessivos fracassos das reuniões intercabindesas em Lisboa (Portugal), Libreville (Gabão), Helvoirt (Holanda), e dos insucessos obtidos nos encontros bilaterais tais como em Sáfica e Paris, com a FLEC/FAC, ou Windhoek e Brazzaville com FLEC Renovada, paira junto dos nacionalistas cabindeses um sentimento de desconfiança e o receio de uma “nova manobra de manipulação” orquestrada por Angola que poderá ter instrumentalizado os dinamizadores da reunião em Acra.

Algumas organizações e personalidades cabindesas, que estão incluídas no projecto desde o início, confirmaram já a sua presença, sublinhando que “é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada” e destacam que o encontro ao realizar-se no KAIPC é uma demonstração do envolvimento discreto das Nações Unidas e da União Africana na reunião de Acra.

Outras organizações permanecem indecisas quanto à participação, alegando que os objectivos são ainda “pouco claros”. Outras declinaram o convite alegando a “falta de transparência”, “objectivos e agenda opaca”, bem como “desconhecimento das entidades e dos participantes” no evento. Outros ainda realçaram falta de condições de segurança para uma deslocação ao Gana.

As organizações da resistência armada cabindesa, consideradas como incontornáveis em qualquer processo para a paz em Cabinda, recusaram participar na reunião.

Alexandre Tati, presidente da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) endereçou uma carta a Afonso Waco em que elencou a visão da FLEC sobre as prioridades a ter em conta na resolução do conflito e precisou que a “FLEC-FAC é pela unidade, mas primeiro queremos saber o que faremos unidos, pois já não vamos permitir que se embarque o povo numa nova aventura com oportunistas que, ao exemplo de Bento Bembe, apenas querem legitimidade para fins inconfessos e egoístas contra a causa que tanto sangue heróico custa ao povo mártir”.

Também Emmanuel Nzita, líder da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC), declinou o convite em participar num evento que colide com uma proposta da FLEC relativa a outra reunião intercabindesa. Emmanuel Nzita precisa que ninguém está mandatado para representar a FLEC em Acra, dissipando assim as dúvidas sobre a participação da sua organização.

Todavia, Bonaventure Aguissi, presidente da OAD, garantiu que “a maior parte das pessoas estão a aderir à reunião” e refere que não compreendeu porque é que “algumas pessoas aderiram, para depois retirarem-se”.

Bonaventure Aguissi

“Esta reunião não é como todas as outras”, precisou Bonaventure Aguissi. “Esta reunião é diferente tendo em conta que será adoptado o método da OAD para a resolução de conflitos. Assim, o encontro terá duas fases. A primeira decorrerá de 21 a 23 de Outubro, com cursos intensivos sobre boa governação e resolução e prevenção de conflitos”, explicou o presidente da OAD. “Com a primeira fase concluída os participantes vão estar preparados e com os instrumentos necessários para passarem à segunda fase que é a reunião intercabindesa”, explicou Bonaventure Aguissi.

“Nas questões políticas não queremos nos envolver. Esse assunto ficará para o debate apenas entre os cabindas e na reunião intercabindesa. Nós vamos dar os instrumentos e a formação sobre a forma de gerirem quando existem conflitos e discordâncias”, sublinhou ainda o presidente da OAD.

Sobre os rumores de Angola estar a instrumentalizar a iniciativa, Bonaventure Aguissi negou categoricamente. “Isso não é verdade”, disse. “Esta iniciativa pretende apenas favorecer o povo cabindês. Não podem estar sempre a serem pessimistas”, insistiu Aguissi, “e difundirem falsas informações para desmotivarem outros participantes”.

Bonaventure Aguissi confirmou todavia que antes de arrancar com a organização do evento, apurou junto de Angola se existe uma “abertura” para “negociar a paz e pôr um fim a este problema”, tendo obtido uma reacção positiva que terá motivado o presidente da OAD a avançar com o projecto.

Para Bonaventure Aguissi, após ter ouvido os vários actores políticos, concluiu que o processo de paz em Cabinda “passa também, impreterivelmente, pelo desenvolvimento sustentável local. Já estudamos a fundo a questão do desenvolvimento e criação de empregos”. Segundo a visão do presidente da OAD qualquer processo de paz só é possível se for acompanhado por um programa de desenvolvimento sustentável.

“Estamos conscientes que nem todos estão de acordo. Mas vamos prosseguir o trabalho e permanecemos receptivos para ouvir e trabalhar com quem não está de acordo”, disse Bonaventure Aguissi.

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